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Narrativa Diária

Não escrever um romance na «horizontal», com a narrativa de peripécias que entretêm. Escrevê-lo na «vertical», com a vivência intensa do que se sente e perturba. Vergílio Ferreira

Narrativa Diária

Não escrever um romance na «horizontal», com a narrativa de peripécias que entretêm. Escrevê-lo na «vertical», com a vivência intensa do que se sente e perturba. Vergílio Ferreira

31
Out13

Dia Mundial da Poupança

(imagem retirada da NET)

O Dia Mundial da Poupança  celebra-se a 31 de Outubro e foi criado com o intuito de alertar os consumidores para a necessidade de disciplinar gastos de forma a evitar situações de sobre endividamento das famílias. O Diário Económico dá uma ajuda ao elencar 20 ideias que poderão ajudar a reduzir os gastos.

30
Out13

Shame on you, mr. Blatter!

Joseph Blatter ridicularizou Cristiano Ronaldo durante uma conferência em Inglaterra e elogiou Lionel Messi, afirmando que preferia que fosse o internacional do Barcelona a vencer da Bola de Ouro. Com esta atitude o presidente da FIFA ofendeu o internacional português, o futebol português e os portugueses em geral. Ao assumir uma posição pública de favoritismo por um determinado jogador, Blatter influenciou claramente a decisão. Esta postura  demonstra bem a corrupção que gira à volta do futebol mundial, na atribuição de organizações de grandes eventos e de prémios relevantes para a carreira de jogadores e de treinadores. Razão teve José Mourinho quando denunciou publicamente toda esta encenação aquando da eleição para o melhor treinador. Este incidente devia, só por si, ser suficiente para afastar Blatter do cargo de Presidente da FIFA, uma vez que tem demostrado ao longo dos anos não ter o perfil adequado à função, dado que não respeita os mais elementares princípios éticos.

29
Out13

Manuel Maria Carrilho

Num país onde a decência cívica fosse valorizada e os valores éticos preservados,  nenhum jornalista, digno desse nome, pelo menos dos jornais de referência,  permitiria dar voz a  Manuel Maria Carrilho para se pronunciar sobre cenas da sua vida conjugal. Carrilho está a entrar na vulgaridade mais mesquinha que a sua existência podia demonstrar. Enquanto homem ligado ao poder político  (estamos a falar de um homem que foi ministro da Cultura deste país, deputado da nação e embaixador de Portugal junto da UNESCO) deveria ser uma referência cívica, mas a sua conduta não é nesse sentido. Aliás, Carrilho sempre foi um político exímio em criar factos políticos e de gerar problemas ao seu partido.  Aparentemente preocupa-se única e exclusivamente com ele próprio. Nas eleições para a Câmara de Lisboa conseguiu perder uma eleição que parecia ganha à partida. Na passagem pela UNESCO saiu, disparando em todas as direções, criticando mesmo quem o indicou para o cargo. Relativamente à sua vida conjugal, por mais razões que lhe assistam, e eu  admito que as tenha,  não me parece ajuizado pôr a  nu, na praça pública, a vida pessoal da mulher com quem escolheu partilhar um casamento ao longo de 12 anos e mãe dos seus dois filhos. Manuel Maria Carrilho é um académico com um acervo de obras publicadas. Todavia, quem se comporta deste modo, mostrando ser um indivíduo vil, indecoroso, sem um  pingo de identidade moral não é digno de respeito.  Ninguém merece um político destes, muito menos um marido!

28
Out13

Marcelo admite candidatar-se a Belém

Sem surpresas, ontem, na sua homilia dominical, Marcelo Rebelo de Sousa admitiu a possibilidade da sua candidatura a Belém. «Não me estou a excluir das presidenciais», afirmou Marcelo no seu habitual comentário de domingo na TVI, em que sugeriu igualmente os  dois ex-primeiros-ministros e antigos líderes do PSD, Durão Barroso e Pedro Santana Lopes, como potenciais candidatos.

Marcelo admitiu que sendo ele o candidato de direita mais bem colocado nas sondagens tem o «dever moral» de não dizer que não, admitindo que a decisão e anúncio de candidaturas possa ocorrer em maio ou junho de 2015, a seis meses das presidenciais.

Questionado por Judite de Sousa se desta vez dirá que não será candidato «nem que Cristo desça à Terra», como havia afirmado em 1996, aquando à liderança do PSD, Marcelo reagiu: «não digo eu, não diz o Barroso, não diz ninguém». À esquerda, o comentador apontou   dois nomes prováveis . António Guterres e António Costa poderão ser fortes candidatos à eleições presidenciais de 2016.

27
Out13

Dia António Lobo Antunes

 (imagem retirada da Net) 

Hoje é o Dia António Lobo Antunes, uma iniciativa do Centro Cultural de Belém (CCB) em parceria com o Centro Nacional de Cultura (CNC), tem início às 15:00, no pequeno auditório do CCB, e divide-se em duas partes: «a obra» e «o escritor visto pelos seus leitores». O programa pode ser consultado aqui.

O Dia António Lobo Antunes surge no âmbito da programação de Humanidades do CCB que tem vindo a homenagear alguns dos nomes maiores da cultura portuguesa. A entrada é livre.

 

26
Out13

Mudança da hora

 

 

(imagem retirada da net)
Na madrugada de amanhã os relógios devem se atrasados 60 minutos às 2h00, com exceção dos Açores cuja mudança devera ocorrer à 1h00, para entrar em vigor o chamado ‘horário de Inverno’. A partir de domingo e até à hora de verão, quando no último  fim-de-semana de março os relógios adiantarem de novo uma hora, Portugal  terá a hora igual ao tempo universal, idêntico ao do meridiano de Greenwich.

A mudança da hora acontece em todos os países da União Europeia no mesmo  momento, embora outros países que não fazem parte do grupo dos UE escolheram  seguir as mesmas regras.

Na Europa apenas a Arménia, a Bielorrússia, a Geórgia  e a Rússia não atrasam os relógios no próximo domingo, nem os adiantam  em março. No continente africano, por exemplo, a hora mantém-se inalterável na maior parte dos países. A Líbia é dos poucos que altera, acertando os relógios pela hora europeia. Marrocos, Namíbia e Saara Ocidental também têm dois horários, mantendo-se  o resto do continente inalterado, o que também acontece com a Ásia, onde  apenas cinco países mexem nos relógios: Irão, Israel, Jordânia, Líbano e  Síria. Na Oceânia também apenas a Austrália, Nova Zelândia, Fiji e Samoa têm  horários de verão e de inverno, embora no continente americano, especialmente  na América do Norte e Central, mais países mudem a hora.

Na Europa a alteração da hora iniciou-se aquando da I Guerra Mundial e  teve como principal objetivo a poupança de energia numa altura em que este era racionado.  Atualmente já não há um impacto económico, mas apenas social ̶  ajustar os  horários de trabalho e os horários escolares com a luz solar ̶ . Em Portugal, em 1992, o Governo, chefiado por Cavaco Silva adotou  o horário da Europa central, mas a opção foi muito contestada, porquanto no  inverno o sol nascia muito tarde, e no verão era ainda dia até depois das 22:00.  A partir de 1996, o Governo chefiado por António Guterres repôs a hora antiga.

Hoje a questão é mais ou menos pacífica em Portugal. É certo que vai escurecer mais cedo. Às 17 horas já é noite, mas também é bom ter mais uma hora para dormir na próxima noite e em janeiro já começa a anoitecer mais tarde.

25
Out13

O ódio a Sócrates

Vale a pena ler este excelente artigo. Daniel Oliveira no seu melhor 

«Quando comecei a minha coluna semanal no EXPRESSO, ainda Santana Lopes era primeiro-ministro e Sócrates o queria ser, o meu primeiro texto tinha como título "A coisa". Era sobre José Sócrates e o seu vazio ideológico e programático. Uma acusação, à altura, mais do que justa. Ao contrário de outros ex-primeiro-ministros, Sócrates fez-se ideologicamente no poder. Com várias guinadas ao longo de seis anos. Não apenas guinadas tácticas, bastante comuns em muitos políticos. Mas guinadas sinceras de quem estava a aprender o mundo enquanto governava.

Durante seis anos fiz-lhe oposição. E não me arrependo. Também o apoiei em várias medidas, como é evidente. Mas, acima de tudo, tratei sempre com cuidado os casos menos políticos em que o seu nome foi sendo envolvido. Na realidade, o mesmíssimo cuidado que tenho com todos os casos que surgiram com pessoas deste governo: não os deixo de tratar, exponho os factos conhecidos e retiro conclusões políticas. Com Sócrates, nuns casos fiquei esclarecido, noutros mantenho dúvidas. Numa análise a todas as acusações que lhe tinham sido feitas conclui, em fevereiro de 2010: "No meio desta histeria, que torna o debate político insuportável - é já quase sinal de cedência escrever sobre qualquer outro assunto que não seja José Sócrates -, a falta de rigor e de apego à verdade de que o primeiro-ministro é acusado parece ter tomado conta do país inteiro. Interessa saber se José Sócrates fez o que se diz que ele fez. Mas, se não levarem a mal, a verdade dos factos pode, de vez enquanto, ter voto na matéria." Sobre esses casos, podem ler texto que aqui refiro. Chega e sobra. Não é com eles que quero perder tempo.

É normal que se investiguem primeiros-ministros e dificilmente me veem a comprar teses de cabalas e campanhas negras. Mas ninguém negará que nunca, sobre um governante, saíram tantas notícias de pequenos casos de forma tão insistente. Sobretudo não me lembro de terem sobrevivido tanto tempo a qualquer esclarecimento, bom ou mau. Compare-se o caso do Freeport - que durou anos - com o da Tecnoforma, que passou desapercebido a quase todos os portugueses. Acho que posso dizer com rigor, sem ter de tomar partido, que nunca um primeiro-ministro em Portugal foi tão atacado como José Sócrates. Nada escapou: da sua vida intima ao património da sua família, do seu percurso profissional e académico à forma como exerceu os seus cargos políticos anteriores. Até escutas ao primeiro-ministro a oposição de direita quis que o país ouvisse, coisa que nunca alguém se atreveu a propor em qualquer outro caso. A verdade é esta: pequenos pormenores da vida de Sócrates ainda hoje vendem mais jornais do que venderia a biografia mais intima de Passos Coelho.

Porque gera tantos ódios José Sócrates? Os que o odeiam responderão com rapidez que faliu o país. Nessa não me apanham mesmo. Até porque a "narrativa" tem objetivos políticos e ideológicos que ultrapassam em muito a figura do ex-primeiro-ministro, o que revela até que ponto podem ser estúpidos os ódios pessoais de uma esquerda que, por mero oportunismo de momento, comprou uma tese que agora justifica todo o programa ideológico deste governo.

É pura e simplesmente falso que Sócrates tenha falido o país. E isto não é matéria de opinião. Sócrates faliu o país da mesma forma que todos os que eram primeiros-ministros entre 2008 e 2010 em países periféricos europeus o fizeram. Até 2008 todos os indicadores financeiros do Estado, a começar pela dívida pública, e todos os indicadores da economia seguiam a trajetória negativa que vinha desde a entrada de Portugal no euro (ou até desde o início da convergência com o marco, que lhe antecedeu), verdadeiro desastre económico que ajuda a explicar uma parte não negligenciável da situação em que estamos. A narrativa que esta crise se deve ao governo anterior, além de esbarrar com todos os factos (o truque tem sido o de juntar o aumento da dívida anterior e posterior a 2008 e assim esconder a verdadeira natureza dessa dívida), esbarra com a evidência do que se passa nos países que estavam em situação semelhante à nossa e não tiveram Sócrates como primeiro-ministro. Posso escrever tudo isto com uma enorme serenidade: fui opositor de Sócrates e sempre disse o que estou a dizer agora.

Também nada de fundamental, até 2008, distinguia, para o mal e para o bem, os governos de Sócrates dos anteriores. O que era diferente correspondia às pequenas diferenças entre os governos do PS e do PSD, que já poderiam ter sido detectadas em Guterres. O que era igual, conhecemos bem e podemos identificar em Barroso, Guterres ou Cavaco. Em todos eles houve decisões financeiras desastrosas - das PPP à integração de fundos de pensões privados na CGA, da venda ruinosa de ativos a maus investimentos públicos. Em todos eles houve interesses, tráficos de influências, mentiras, medidas demagógicas e eleitoralistas. Sócrates foi apenas mais um.

Há uma parte deste ódio que surgiu à posteriori (sim, vale a pena recordar que Sócrates venceu duas vezes as eleições). Perante a crise, o país precisava de encontrar um vilão da casa. Como escrevi, irritando até muitas pessoas de esquerda, em Outubro de 2010, ainda Sócrates era primeiro-ministro: "São sempre tão simples os dilemas nacionais: encontra-se um vilão, espera-se um salvador. Sócrates foi um péssimo primeiro-ministro? Seria o último a negá-lo. Mas, com estas opções europeias e a arquitetura do euro, um excelente governo apenas teria conseguido que estivéssemos um pouco menos mal. Só que discutir opções económicas e políticas dá demasiado trabalho. Discutir a Europa, que é 'lá fora', é enfadonho. É mais fácil reduzir a coisa a uma pessoa. Seria excelente que tudo se resumisse à inegável incompetência de Sócrates. Resolvia-se já amanhã." O único acerto a fazer é que, perante este governo, a avaliação de incompetências passou para um outro patamar.

Sócrates acabou por servir, nesta crise, para muitas cortinas de fumo. A de quem quis esconder as suas próprias responsabilidades passadas. A de quem queria impor uma agenda ideológica radical e tinha de vender uma "narrativa" que resumia a história portuguesa aos últimos 9 anos e esta crise a um debate sobre a dívida pública. E a de quem, sendo comentador, economista ou jornalista, e tendo fortes limitações na sua bagagem política, foi incapaz de compreender a complexidade desta crise e optou por uma linha um pouco mais básica: o tiro ao Sócrates. Não lhes retiro o direito ao asco. Eu tenho o mesmo pelo atual primeiro-ministro. Mas não faço confusões e já o escrevi várias vezes: Passos sai, Seguro entra e, se não houver um enfrentamento com a troika, fica tudo exatamente na mesma. Porque o problema não é exclusivamente português e, mantendo o país no atual quadro europeu, depende muito pouco do nosso governo.

Há outra explicação para o ódio que Sócrates provoca. As novas gerações da direita portuguesa são, depois de décadas na defensiva, de uma agressividade que Portugal ainda não conhecia. A que levou à decapitação da direção de Ferro Rodrigues, através do submundo da investigação criminal e do submundo do jornalismo, representado, desde sempre, pelo jornal "Correio da Manhã". A mesma que tratou de criar um cerco de suspeição que transformou, durante seis anos, a política nacional num debate quase exclusivamente em torno do carácter do primeiro-ministro. Um primeiro-ministro que, como tantos políticos em Portugal, se prestou facilmente a isso. Um cerco que fez com que poucos se dessem ao trabalho de perceber o que estava a acontecer na Europa desde 2008 e como isso viria a ser trágico para nós. Andávamos entretidos a discutir escutas e casos.

Foi esta direita que, irritada pela iminência de perder prematuramente o poder que tinha reconquistado há apenas três anos, espalhou o boato sobre a suposta homossexualidade de Sócrates. Pedro Santana Lopes veio, em reação à entrevista de Sócrates ao EXPRESSO, dizer que essa campanha vinha do PS. Tenho boa memória e recordo-me das indiretas no debate entre Santana e Sócrates, na SIC. Lembro-me também de Santana ter passado uma campanha a insistir para que Sócrates tomasse posição sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo, quando isso ainda nem era debate e sabendo-se o boato que corria. Lembro-me ainda de, num inédito mas muito conveniente comício de mulheres do PSD, em Famalicão, em plena campanha, uma ter dito isto: "Ele [Santana] ainda é do tempo em que os homens escolhiam as mulheres para suas companheiras... bem hajam os homens que amam as mulheres!" E de, entusiasmado, Santana Lopes ter rematado, em declarações aos jornalistas: "O outro candidato [Sócrates] tem outros colos, estes colos sabem bem". Todos sabem como Santana importou, através de um publicitário brasileiro, uma determinada forma de fazer política. Felizmente, como se viu pelo seu resultado, não funcionou.

Goste-se ou não do estilo, Sócrates é, muitas vezes, de uma violência verbal inabitual em Portugal. Ele é, como se definiu na entrevista a Clara Ferreira Alves, anguloso. E voltou a prová-lo, nesta conversa, de forma eloquente. Num País habituado a políticos redondos isso choca. Ainda mais quando se trata de um líder do centro-esquerda, por tradição cerimoniosa e pouco dotada de coragem política. Sócrates, pelo contrário, tem, e isso nunca alguém lhe negou, uma extraordinária capacidade de confronto e combate. O estilo público de Guterres, Sampaio, Ferro Rodrigues e Seguro (muito diferentes entre si em tudo o resto) é aquele com o qual a direita gosta de se confrontar. A aspereza de Sócrates deixa-a possuída, irritada, quase invejosa. A ele não podiam, como fizeram com Guterres, acusar de indecisão e excesso de diálogo. Sócrates acertou na mouche: ele é o líder que a direita gostaria de ter.

Também a maioria dos portugueses tende a gostar de um estilo autoritário, mas sonso, que nunca diz claramente ao que vem, de que Cavaco Silva é talvez o exemplo mais acabado. Diz-se, ou costumava dizer-se, que Cavaco é previsível. Mas ele não é previsível por ser fiel às suas convicções, que nós desconhecemos quais sejam. É previsível porque quer sempre corresponder ao arquétipo do político nacional: moderado, ajuizado, prudente, asceta e severo. Apesar de, na realidade, no seu percurso cívico e político pouco ou nada corresponder a estas características. Pelo contrário, Sócrates corresponde, na sua imagem pública, ao oposto de tudo isto.

Não é o primeiro político português a fugir ao modelo do líder austero e sacrificado, que Salazar impôs ao imaginário nacional e que Cunhal, Eanes, Cavaco ou Louçã acabaram por, mesmo que involuntariamente, reproduzir. Já Soares fugira desse estilo e se apresentara emotivo, imprevisível e bon vivant. O que mudou desde então? Tudo. A exposição pública, o escrutínio da imprensa, o poder de disseminação do boato. Ainda assim, arrisco-me a dizer que se há um político português vivo que consegue arrebatar mais paixões, sejam de amor ou de ódio, do que José Sócrates ele é Mário Soares. À sua direita e à sua esquerda.

Mas há uma enorme diferença entre Soares e Sócrates: o estatuto. Que resulta da idade, do currículo político e do tempo histórico em que foram relevantes. E, para tentar resumir, é esta diferença que ainda faz Sócrates correr. Acho que ele não se importa nada de ser odiado pela direita e por parte da esquerda. O que o incomoda é isso não corresponder a um papel histórico que, mal ou bem, lhe seja reconhecido. É não ter atingido um estatuto em que ser odiado por muitos não só é normal como recomendável. No fundo, move-se pelo mesmo que todos os políticos que ambicionaram mais do que uma pequena carreira: o sonho da imortalidade. E essa é, entre outras, uma das razões porque não compro o retrato do pequeno bandido que enriqueceu com uns dinheiros dum outlet em Alcochete. Parece-me que a sua ambição é muito maior. Por isso, façamos-lhe justiça de acreditar que também serão maiores e, quem sabe, mais nobres os seus pecados.»

Daniel Oliveira, Expresso, 24 Outubro 2013

24
Out13

Segundo resgate ou programa cautelar?

O ministro da Economia, Pires de Lima, garantiu nesta segunda-feira em entrevista à Reuters que o Governo quer negociar um segundo resgate com Bruxelas e que o executivo conta começar as negociações deste programa nos primeiros meses de 2014. Chamou-lhe «plano cautelar», a costumeira questão semântica, apesar do Primeiro-Ministro «dar o dito por não dito» ontem no debate semanal na Assembleia da República.

Um novo resgate ou um novo programa de assistência financeira significa um conjunto de medidas e metas que têm de ser obrigatoriamente observadas pelo país resgatado,  sendo o instrumento ao qual se recorre quando não há quaisquer possibilidade do país regressar aos mercados no período pós-troika. Foi o que aconteceu com a Grécia quando se perspetivava o final do primeiro programa de assistência financeira, acordado em Maio de 2010.

Ao invés, um programa cautelar a realizar no período pós-troika assenta no pressuposto de que o país beneficiário reúne o mínimo de requisitos para se financiar nos mercados. Essa avaliação é feita com base em critérios firmados num período anterior de acesso aos mercados internacionais de capitais em termos aceitáveis, e uma dívida pública e de uma posição externa sustentável. Como o próprio nome sugere, pretende-se prevenir a entrada nos mercados, com uma espécie de seguro, inspirado em  linhas de crédito do FMI, semelhante ao cenário que se antecipa para a Irlanda: um empréstimo cautelar para minimizar os riscos na transição para um quadro de financiamento autónomo. Estes foram, aliás, pensados no auge da crise do euro para evitar que a Espanha ou a Itália chegassem a situações limite em que, perante o recuo dos mercados, tivessem também de ser resgatados – opção que acarretaria custos financeiros e políticos incomportáveis para os próprios países, bem como para a  Zona Euro. Mas o que está em causa  em ambos os casos é uma  terceira entidade a assumir compromissos, os quais implicam ficar como credor de Portugal – seja diretamente, no caso de um segundo resgate, ou indiretamente, no caso da medida cautelar.

Portugal prepara-se para seguir as pisadas da Irlanda no próximo ano, no quadro da preparação do fim do programa oficial, que termina, como se sabe,  em Junho de 2014. É neste contexto que surgem as recentes as declarações do ministro Pires de Lima.

Mas atentamos no caso nacional. Portugal precisará de aproximadamente 30 mil milhões de euros no próximo ano.  Obteremos dos nossos credores oficiais o que pudermos e soubermos negociar. Aqui é a questão do juro que se impõe. O juro é menor no resgate do que no mercado. No decurso do nosso programa de ajustamento, o melhor juro que conseguimos, a médio prazo, foi quase de 6%, um valor insustentável para a nossa economia. O que pagamos de juro à troika é cerca de metade do que pagámos ao mercado. Com o défice elevado, a dívida elevada e sem crescimento económico, Portugal representa um risco elevado e o mercado financeiro far-nos-á pagar caro o seguro desse risco.

Mas o problema também deve ser avaliado noutra perspetiva. Um segundo resgate cola Portugal à Grécia. Significa, igualmente, a continuidade no mesmo modelo e tem como consequências uma quebra significativa na confiança dos consumidores e dos empresários que queiram investir no país.  A questão da confiança aqui não deve ser encarada como uma questão de somenos. Um programa cautelar, uma saída gradual, pode ter um impacto positivo na confiança dos agentes. Será naturalmente mais fácil atrair capital estrangeiro para um país que merece a confiança dos credores europeus do que para um país em estado continuado de resgate, com a inerente instabilidade social e política.

Mas, independentemente da solução que viermos a adotar, uma coisa temos certa. A austeridade manter-se-á. Ou seja: é sempre necessário tomar medidas que garantam condições a Portugal para pagar a sua dívida e honrar os seus compromissos .

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