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Narrativa Diária

Não escrever um romance na «horizontal», com a narrativa de peripécias que entretêm. Escrevê-lo na «vertical», com a vivência intensa do que se sente e perturba. Vergílio Ferreira

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Não escrever um romance na «horizontal», com a narrativa de peripécias que entretêm. Escrevê-lo na «vertical», com a vivência intensa do que se sente e perturba. Vergílio Ferreira

07
Jan16

A estratégia de Marcelo

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Marcelo Rebelo de Sousa (MRS) tenta a todo o custo captar votos à esquerda e à direita. Foi isso mesmo que assistimos no frente-a-frente com Marisa Matias. Afinal, ficamos agora a saber que Marcelo Rebelo de Sousa é favorável à adoção por casais do mesmo sexo, desde que, segundo ele, «esteja garantido do ponto de vista técnico a proteção da criança», não interessa que seja um adotante, dois, «um casal do mesmo sexo ou de sexo diferente, isso é irrelevante». Como procedia então se já estivesse no lugar de Cavaco Silva? MRS foi perentório «Não vejo razão para não promulgar», respondeu.

Relativamente a outra questão fraturante – o aborto – o moderador pergunta a MRS que faria ao diploma de revogação das taxas moderadoras, recordando que ele assinara a iniciativa de movimentos pró-vida para impor essas taxas. Marcelo, nem pestaneja: «não vejo razão para não promulgar». Porque segundo o candidato «uma coisa é a posição enquanto cidadão, outra enquanto Presidente». Marisa Matias recorda-lhe então que em relação ao aborto, ele foi o responsável por um referendo que atrasou dez anos a despenalização, levando à humilhação das mulheres, em julgamentos como o de Aveiro. MRS contrapõe lembrando que como presidente do PSD era apenas «um líder minoritário de oposição», e que foi afinal Jorge Sampaio – o último Presidente de esquerda – a decidir.

Marcelo vai mais longe, neste debate em que pareceu ter como alvo o eleitorado de esquerda, fazendo tábua rasa das opções ideológicas, assegurando que com ele em Belém não terá que tomar qualquer iniciativa legislativa no sentido de questionar a lei que despenaliza o aborto em vigor que segundo ele demonstra a vontade da maioria dos portugueses.

Uma resposta a lembrar a célebre rábula de Ricardo Araújo Pereira («- É crime? - É. - Mas o que é que acontece? - Nada!»).

O chumbo do Tribunal Constitucional aos cortes nos salários e pensões previstos no Orçamento do Estado para 2012 foi outro dos temas que motivou uma troca mais acesa de argumentos entre os dois candidatos, com Marisa Matias a dizer que Marcelo Rebelo de Sousa discordou da decisão dos juízes do Tribunal Constitucional. De imediato, o professor respondeu: «Não critiquei, disse que alguns dos fundamentos jurídicos [apresentados] eram discutíveis". E acrescentou: «Eu concordei com a decisão do Tribunal Constitucional”.

Marcelo diz que não disse, mas disse. Afinal o que disse Marcelo Rebelo de Sousa no dia 22 de janeiro de 2012, na TVI? [...] «Passa pela cabeça de alguém que a maioria dos Juízes do Tribunal Constitucional chumbe o Orçamento de Estado? Que significa chumbar a execução do acordo da troika, parar o financiamento a Portugal e colocar Portugal numa situação crítica em relação à Europa? Era o que faltava. Passa pela cabeça de alguém? Em homenagem de uma interpretação muito rígida e fixista da Constituição. Isto lembra ao careca?» Afinal lembra o careca…

Marisa Matias podia ter arrumado a questão se tivesse obrigado o seu opositor a dizer como teria procedido se fosse PR em 2012. Não o fazendo, deixou-o na sua praia a dissertar sobre aspetos técnicos do pedido de fiscalização sucessiva e da decisão subsequente do Constitucional. Foi pena que em vez de obrigá-lo a mostrar que espécie de Presidente quer ser, deixassem brilhar o comentador e o académico.

Já houve eleições mais e menos disputadas, mas não me lembro de eleições em que a função presidencial fosse tão desvalorizada e tão esvaziada. E este é talvez o aspeto mais trágico desta campanha.

Marcelo Rebelo de Sousa, porque as sondagens lhe são favoráveis, quer chegar a Belém sem se comprometer. Não entusiasma ninguém porque preferiu desaparecer, fazer-se de morto. Acontece que o aspeto marcante dum presidente da república enquanto instituição é a de ser sufragada pelo voto em função de um conjunto de ideias e não em função da simpatia. Marcelo pretende, enquanto candidato, distribuir sorrisos, apagar o seu passado e pairar acima da política em que sempre participou, para dar a entender que é um candidato independente. Seria bom que assumisse as suas posições e a sua história. Porque se assim não for, não fará qualquer diferença tê-lo a ele ou qualquer outro em Belém. Ao candidato a presidente da república exige-se muito mais, não pode ter um papel meramente decorativo. Já bastaram estes dez anos com Cavaco Silva e espero que os portugueses tenham aprendido a lição.

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