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Narrativa Diária

Não escrever um romance na «horizontal», com a narrativa de peripécias que entretêm. Escrevê-lo na «vertical», com a vivência intensa do que se sente e perturba. Vergílio Ferreira

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26
Dez15

A morte de David Duarte tem que ter consequências

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David Duarte, de 29 anos, veio transferido numa sexta-feira do hospital de Santarém para o hospital de S. José com o diagnóstico de aneurisma. Esta instituição não dispunha de equipa de neurocirurgia durante o fim-de-semana desde 2014, devido aos cortes cegos feitos pelo anterior governo, pelo que o jovem teve de esperar por segunda-feira para realizar a cirurgia.

As recomendações internacionais apontam para uma intervenção nas primeiras 24 horas após a rutura da artéria. Essa resposta rápida permite reduzir os riscos associados a este quadro clínico. David Duarte esperou quase 60 horas por uma cirurgia.  Contudo, o jovem não resistiu e morreu antes de ser intervencionado.

A posição dos profissionais de saúde e as consequências para os utentes dos serviços de saúde eram conhecidas entre os responsáveis hospitalares. Há mais de um ano que não havia turnos de prevenção. E, nesse período, houve outras situações com o mesmo fim, este caso foi apenas mais mediatizado e teve  mais visibilidade na comunicação social. O BE, aliás, já havia alertado para esta situação.

O caso levou a Procuradoria-Geral da República a abrir uma investigação. Se da investigação se concluir que David Duarte morreu por falta de meios hospitalares, então o caso passará a ser tratado como homicídio negligente.

Na sequência desta tragédia, o presidente da Administração Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo, Luís Cunha Ribeiro, e os administradores hospitalares de Lisboa Central e Lisboa Norte demitiram-se.

Entretanto, o atual ministro da Saúde, Adalberto Fernandes, já deu autorização para os hospitais pagarem aos médicos especialistas de modo a que estes assegurem os fins-de-semana e feriados a fim de que estas situações sejam evitadas. A morte de David Duarte terá provocado o regresso aos valores que tinham sido cortados pelo anterior Governo.

Ontem, o ministro da Saúde considerou que nalguns casos, a restrição financeira foi longe demais, mas Adalberto Campos Fernandes insistiu também que neste caso não se trata apenas de um problema financeiro, mas também de organização de meios. Efetivamente, não se entende por que é que David Duarte não foi transferido para um hospital que tivesse disponíveis neurocirurgiões para realizar uma operação urgente? Muito menos se percebe como é que o S. José acedeu em receber o doente quando não dispunha de equipa de neurocirurgia? É bom que se apure todos estes factos.

Se os três responsáveis pelo funcionamento dos hospitais que se demitiram depois de conhecido o caso de David Duarte o tivessem feito logo em abril de 2014 quando foram confrontados com uma situação que os obrigava a não ter prevenção daquela especialidade, e aí talvez o assunto tivesse sido logo resolvido, como o foi agora e provavelmente ter-se-ia evitado algumas mortes, pelo que também devem ser responsabilizados por todas as ocorrências.

A morte de David Duarte tem que ter consequências, a culpa não pode, uma vez mais, 'morrer solteira'.