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Narrativa Diária

Não escrever um romance na «horizontal», com a narrativa de peripécias que entretêm. Escrevê-lo na «vertical», com a vivência intensa do que se sente e perturba. Vergílio Ferreira

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Não escrever um romance na «horizontal», com a narrativa de peripécias que entretêm. Escrevê-lo na «vertical», com a vivência intensa do que se sente e perturba. Vergílio Ferreira

28
Fev15

Discurso de Costa sob o signo da Cabra

A comunidade chinesa em Portugal comemorou no Casino da Póvoa de Varzim a entrada do ano da Cabra no calendário chinês, numa iniciativa onde a comunicação social não esteve presente.

No evento, Costa foi distinguido como personalidade do ano e proferiu um discurso onde, a dada altura, agradeceu o apoio do investimento chinês a Portugal, afirmando: «numa ocasião difícil para o país, em que muitos não acreditaram que o país tinha condições para enfrentar e vencer a crise, a verdade é que os investidores chineses disseram presente». Mas foi mais longe, ao dizer que a comunidade chinesa deu «um grande contributo para que Portugal pudesse estar hoje na situação em que está, bastante diferente daquela em que estava há quatro anos».

As considerações feitas por Costa acabaram por ser conhecidas, através de um artigo de opinião, no jornal Diário Económico, no qual o eurodeputado Nuno Melo fez eco das palavras do líder socialista. 

As declarações de António Costa foram encaradas com surpresa por alguns socialistas, nomeadamente por Alfredo Barroso que aproveitou o pretexto para se desvincular do partido socialista do qual é fundador, justificando deste modo a sua atitude: «nunca me passou pela cabeça que um secretário-geral do PS se atrevesse a prestar vassalagem à ditadura comunista e neoliberal da República Popular da China, e se atrevesse a declarar, sem o menor respeito por centenas de milhares de desempregados e cerca de dois milhões de portugueses no limiar da pobreza, que Portugal está hoje melhor do que há quatro anos». Em contrapartida,  a direita rejubilou, agarrando este filão para nunca mais o largar.

Vamos por partes: que o país está melhor hoje do que há 4 anos parece-me uma evidência que não oferece qualquer contestação, se nos lembrarmos que foi justamente em 2011 que recorremos à ajuda externa porque não conseguirmos financiar nos mercados, dados as altas taxas de juros e a nossa incapacidade de atrair investimento para o país. Nessa medida Portugal hoje está numa situação económica mais favorável, embora politica e socialmente não.

O objetivo que esteve subjacente à intervenção de Costa não era político, era económico: agradecer o investimento chinês significou, tão só, incentivar a mais investimento e não mostrar em público as nossas fragilidades (não era isso que se pretendia).

Acresce, que não apenas Portugal mas em praticamente em todo o mundo recorre-se ao investimento chinês, dado ter este país uma economia pujante em franco desenvolvimento. Só países ricos, com uma economia muito estável, podem deixar de o fazer. Será isso «prestar vassalagem à ditadura comunista e neoliberal da República Popular da China»? Não me parece.

O que me parece realmente é que PSD e CDS-PP estão a criar um facto político sobre este assunto ao descontextualizar umas palavras de uma cerimónia protocolar em que António Costa participou enquanto presidente da Câmara de Lisboa, proferindo afirmações que são irrefutáveis,pretendo com isso criar dividendos políticos eleitorais e assim desviar a atenção dos portugueses dos reais problemas do país.

A Liga dos Chineses em Portugal já veio lamentar a utilização do ano novo chinês como «ferramenta política» e acusou os políticos e a comunicação social de descontextualizarem parte do discurso do líder do PS sobre a evolução do país.