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Narrativa Diária

Não escrever um romance na «horizontal», com a narrativa de peripécias que entretêm. Escrevê-lo na «vertical», com a vivência intensa do que se sente e perturba. Vergílio Ferreira

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Não escrever um romance na «horizontal», com a narrativa de peripécias que entretêm. Escrevê-lo na «vertical», com a vivência intensa do que se sente e perturba. Vergílio Ferreira

01.03.16

E eis que novamente chega março

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«Março. Março é o mês da Primavera. Março é o mês em que, no dia 21, primeiro dia, nos restituem a hora que nos roubaram quando começou a anoitecer muito cedo.

Março é um mês em que pode haver calor. Mais: Março é um daqueles meses que, de vinte em vinte anos, leva as pessoas a dizer que já não há Primavera: só o Outono e o Inverno, seguidos pelo calor do Verão.

É uma mentira aprazível. Claro que haverá Primavera. E muita chuva. E frio atrasado. E, mesmo em Maio, a sensação que continua a ser Novembro.

O tempo e o clima - caso se consiga achá-los diferentes - enganam-nos sempre. Os meses estão mal divididos mas as estações do ano, fazendo muito mais sentido (por muito pouco que seja), dão-nos as incertezas mais pequenas de que precisamos para sobreviver, pensando que somos, de alguma maneira infinitésima e irrelevante, capazes de prever (até toscamente) o futuro efémero que nos espera durante muito pouco tempo, antes de se transformar noutra coisa que só vagamente previmos e tememos.

Abril dá águas mil mas Março é o mês em que a Primavera, por muito que padeça e se transfigure, mais transparece.

Atingimos Março. Os próximos sete meses serão os melhores deste ano e do seguinte. A sorte é uma questão de tempo. O tempo é uma questão de sorte.

O resto é vida: vida viva mas apagada, durante o ano todo, mas à espera de ser acesa e vivida.

Atingimos Março e as nossas vidas - sejam quais forem - renascem, pleonasticamente, mais uma vez».

Miguel Esteves Cardoso - Público