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Narrativa Diária

Não escrever um romance na «horizontal», com a narrativa de peripécias que entretêm. Escrevê-lo na «vertical», com a vivência intensa do que se sente e perturba. Vergílio Ferreira

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09
Set16

Entrevista ao juiz Carlos Alexandre

 

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O juiz mais mediático do país que teve em mãos casos como a Operação Furacão, o Apito Dourado ou a Operação Marquês deu a sua primeira entrevista em televisão.

 

Dono de uma memória prodigiosa, sabe de cor as páginas dos processos e admite que o conhecimento adquirido lhe dá poder. Conhece «muita da realidade económica de alguns negócios de algumas operações bancárias, de algumas decisões políticas, de algumas decisões jurisprudenciais, o que se passa nos bastidores delas», mas nem por isso se considera perigoso.

 

Afirma não ter medo, até porque, como salienta, «se tivesse medo não me levantava da cama». «Eu apenas me reclamo de alguma coragem. Tenho tido alguma coragem de tomar algumas decisões».

 

Questionado sobre se sente observado explicou que acha que é escutado sobre várias formas: «Já me julgo um pouco conhecedor e já identifiquei várias vezes restolhar de papeis, água a marulhar, porque há pessoas que têm a possibilidade de ir para a praia nesta altura do ano e por vezes descuidam-se.».

 

Carlos Alexandre revelou ainda que há dez anos que não goza férias e ao fim-de-semana, tem por hábito fazer turnos extras no Tribunal de Instrução Criminal de Lisboa para estar atento à realidade do país e para pagar as contas ao final do mês. «Como eu não tenho amigos, amigos no sentido de pródigos, não tenho fortuna herdada de meus pais ou de meus sogros, eu preciso de dinheiro para pagar os meus encargos, porque, frisa, não tem dinheiro, nem contas bancárias em nome de amigos. Até porque amigos, segundo o próprio, são aqueles que aparecem meu funeral e mesmo assim só se não estiver a chover.

 

Confessa-se uma pessoa «isolada», «com poucos amigos», tipo «bicho-do-mato», sou o «saloio do Mação» (como alguns um dia terão dito), aceitando com normalidade as circunstâncias, mas tem perfeita consciência que se praticar erros grosseiros, ninguém na magistratura o vai «acolitar».

 

O juiz do Tribunal Central de Instrução Criminal revelou ontem à SIC ter tido problemas de saúdo e de ter estado internado em dezembro de 2014, devido a uma embolia pulmonar e que no ano passado foi a vez de um familiar próximo ter tido um problema grave. Garante que só esse tipo de problemas o poderão no futuro fazer repensar a Justiça como missão e sobre uma possível subida para a Relação, diz que não preenche alguns requisitos, entre os quais a frequência de seminários, publicação de livros, o que lhe retira valoração. «Eu trabalho horas a fio, não quero dizer que as pessoas que foram aos seminários não trabalhem», remata. Outro dos problemas é o facto de não ver grandes vantagens financeiras com essa subida.

 

Ora, fazendo aqui uma espécie de perfil psicológico deste «super juiz», eu diria que tem traços um bocado perturbadores, nomeadamente quando se reporta aos sons das escutas. Faz gala em dizer que não tem amigos e que é bicho do mato. Que até sente que os seus colegas o discriminam. Aceita uma quantidade de trabalho anormal que nenhum ser humano deveria suportar, facto que já havia referido aqui.

 

Evidentemente, com tantos processos com milhões de páginas e milhões de ficheiros para analisar parece óbvio que o juiz não tem tempo para refletir e ponderar bem as decisões que toma. Por isso mesmo prende preventivamente para ganhar tempo.

 

Deviam impedir que um juiz pudesse acumular tanto volume de trabalho. O resultado é justamente o atraso da justiça. O processo Marques é a prova disso mesmo.