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Narrativa Diária

Não escrever um romance na «horizontal», com a narrativa de peripécias que entretêm. Escrevê-lo na «vertical», com a vivência intensa do que se sente e perturba. Vergílio Ferreira

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Não escrever um romance na «horizontal», com a narrativa de peripécias que entretêm. Escrevê-lo na «vertical», com a vivência intensa do que se sente e perturba. Vergílio Ferreira

08
Mai16

Jorge Sampaio contradiz Durão Barroso

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Muitos não esquecem da Cimeira das Lajes em 2003 e das suas consequências nefastas. Foi nesta cimeira que George W. Bush, Tony Blair, José Maria Aznar e Durão Barroso decidiram a invasão militar do Iraque supostamente para «eliminar as armas de destruição maciça» naquele país, contra tudo e contra todos.

Sabia-se, de antemão, que a ameaça de «destruição maciça» não se encontrava no Iraque, mas na própria base militar das Lajes, onde, na sequência do ultimato lançado nos Açores, começaram a soprar os ventos de guerra e que deu início ao longo e penoso conflito militar. 

Em entrevista ao semanário Expresso e à SIC, Durão Barroso afirmou que consultou o Dr. Jorge Sampaio, então Presidente da República, tendo este concordado com a realização da Cimeira das Lajes, que esteve na origem da invasão do Iraque, numa tentativa de vincular Sampaio à Cimeira das Lages.

O antigo Presidente da República, Jorge Sampaio, num artigo publicado no Público, diz que foi «inspirado pela leitura dos semanários de fim de semana», o que o levou a «fazer uma breve revisitação dos anos 2002-2003», e explica a sua versão dos factos:

«Costuma dizer-se que a memória é seletiva e que os relatos históricos são construções narrativas», escreve Jorge Sampaio, para de imediato contrapor que «as chamadas fontes em história permitem colmatar lacunas e reconstituir factos passados».

Afirma Jorge Sampaio que recebeu um telefonema de Barroso a solicitar uma reunião urgente. «Para minha estupefação, tratava-se de me informar que havia sido consultado sobre a realização de uma cimeira nos Açores, essa mesma que, nesse mesmo dia, a Casa Branca viria a anunciar para 16 de março, daí a pouco mais de 48 horas», lê-se no texto. «Não é preciso ser-se perito em relações internacionais para se perceber que eventos deste tipo não se organizam num abrir e fechar de olhos», declara Sampaio, para acrescentar que «também não é preciso ser-se constitucionalista, para perceber que não cabe ao Presidente autorizar ou deixar de autorizar atos de política externa».

O antigo Presidente da República corrige, em seguida, a versão dos factos de Durão Barroso, para assegurar: «transmiti claramente que, tratando-se, como o meu interlocutor afiançava, de uma derradeira e essencial tentativa para a paz e evitar a guerra, nada teria a opor».

Durão Barroso, como é público e notório seguiu um percurso de «primeiro eu e depois o país». Como se sabe, não teve pejo em abandonar o país, num momento particularmente difícil, para ocupar um cargo na Europa. Não sei se Barroso terá arquitetado todo este esquema das Lages como grande dose de calculismo, na presunção de que isso lhe traria dividendos e lhe abrisse as portas da Comissão Europeia? Agora o que é um facto é que a sua ascensão após a Cimeira das Lajes foi evidente. Serviu para a construção do seu perfil internacional e catapultou-o para a presidência da Comissão Europeia.