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Narrativa Diária

Não escrever um romance na «horizontal», com a narrativa de peripécias que entretêm. Escrevê-lo na «vertical», com a vivência intensa do que se sente e perturba. Vergílio Ferreira

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Não escrever um romance na «horizontal», com a narrativa de peripécias que entretêm. Escrevê-lo na «vertical», com a vivência intensa do que se sente e perturba. Vergílio Ferreira

25
Abr14

Memórias do 25 de Abril

Aparentemente iria ser um dia como tantos outros. Levantar-me cedo e pôr-me a caminho do liceu, não muito longe de casa. Lembro-me que estranhei não haver grande movimento na rua, mas não atribui grande importância ao facto. Quando cheguei ao liceu, obviamente não havia aulas. Tinha havido uma revolução para derrubar a ditadura!

As notícias eram seguidas pela rádio, sintonizada na Rádio Clube Português. Os comunicados transmitidos pelos militares revolucionários davam conta da evolução dos acontecimentos, e começavam sempre com a inesquecível frase «aqui, posto de Comando das Forças Armadas». Apesar da minha formação política ser inexistente percebi que o mundo ia finalmente mudar e que nada voltaria a ser como antes.

Na madrugada de 25 Abril de 1974, um grupo de militares comandados por Otelo Saraiva de Carvalho instalou um posto de comando do movimento golpista no quartel da Pontinha, em Lisboa. Mas, o golpe militar do dia 25 de Abril teve a colaboração de vários regimentos militares que desenvolveram uma ação concertada de norte a sul do país.

A senha foi a canção «E depois do Adeus», de Paulo de Carvalho, pelos Emissores Associados de Lisboa, emitida por João Paulo Diniz. Este era um dos sinais previamente combinados pelos elementos, que desencadearam a tomada de posições da primeira fase do golpe de estado. O segundo sinal é dado pela canção «Grândola, Vila Morena» de José Afonso, transmitida pelo programa Limite, da Rádio Renascença, que confirma o golpe e marca o início das operações. Ao contrário de «E Depois do Adeus», muito em voga por ter vencido o Festival RTP da Canção desse ano, «Grândola, Vila Morena» era proibida no tempo do Estado Novo, pois, segundo o governo, fazia alusão ao comunismo.

Da Escola Prática de Cavalaria de Santarém partiram tropas comandadas pelo Capitão Salgueiro Maia a quem coube um papel crucial: a ocupação do Terreiro do Paço às primeiras horas da manhã e posteriormente o cerco do Largo do Carmo para abrir fogo sobre o quartel da GNR, com vista à rendição de Marcelo Caetano. No quartel estavam, além de Caetano, mais dois ministros do seu Governo.

Durante o dia, a população de Lisboa foi-se juntando aos militares. E o que era um golpe de Estado transformou-se numa verdadeira revolução. A certa altura, uma senhora começou a distribuir cravos pela população. Os soldados enfiavam o pé do seu cravo no cano das espingardas e os civis punham a flor ao peito. Por isso ficou conhecida como a «Revolução dos Cravos» e cravo vermelho tornou-se o símbolo da Revolução de Abril de 1974.

Ao fim da tarde, A RTP interrompeu a emissão e foi anunciado, pela voz do locutor Fernando Balsinha, que se preparava uma edição especial do Telejornal. Em seguida, Fialho Gouveia lê uma declaração do Movimento a fim de acalmar os ânimos.

Entretanto, no Largo do Carmo cresce a agitação e a população concentrava-se junto ao portão. Francisco Sousa Tavares em cima de uma chaimite tentou convencer a população a desocupar a zona para permitir a retirada. Uma viatura blindada encostava-se à porta de armas para receber Marcelo Caetano e os seus ministros. Viveram-se momentos de tensão no largo Carmo. As forças de Salgueiro Maia chegaram a disparar contra a fachada do quartel para forçar a rendição de Marcelo Caetano, mas não houve «derramamento de sangue». Depois de expirar o prazo concedido para a rendição anunciado por megafone pelo capitão Salgueiro Maia, Marcelo Caetano finalmente entregou-se e pediu que um oficial do MFA de patente não inferior a coronel se apresentasse no quartel. O poder foi entregue ao General António de Spínola, que não fazia parte do MFA, para que o «poder não caísse na rua». As forças de Maia levantaram o cerco e formaram uma coluna que os conduziu  ao Regimento de Engenharia 1, na Pontinha. Logo atrás seguia, numa viatura civil, António de Spínola, longamente ovacionado pela multidão.

À Baixa da cidade começaram entretanto a afluir centenas de pessoas aplaudindo as Forças Armadas e gritando slogans como «o povo unido nunca mais será vencido».

No próprio dia da Revolução, foi ainda decretada a destituição do Presidente da República e do governo, bem como a dissolução da Assembleia Nacional e do Conselho de Estado.

No dia seguinte, 26 de Abril, foi finalmente apresentada a Junta de Salvação Nacional, que incluiu o capitão-de-fragata Rosa Coutinho, coronel Galvão de Melo, general Costa Gomes, brigadeiro Silvério Marques, capitão-de-mar-e-guerra Pinheiro de Azevedo e o general Manuel Diogo Neto. Marcelo Caetano, o Presidente Américo Tomás bem como outros dois elementos do anterior Governo partiram da Portela com destino à ilha da Madeira e daí seguiram para o Brasil.

Nesse dia verificou-se igualmente a rendição da PIDE/DGS e começou a libertação dos presos políticos de Caxias e Peniche.

Dois dias após a revolução, a 27 de Abril de 1974, a Junta de Salvação Nacional decreta e aprova um decreto-lei que instituía o «1 de Maio» como feriado Nacional, sendo considerado desde então, como o «Dia do Trabalhador».

Um ano depois, a 25 de Abril de 1975, realizaram-se as primeiras eleições livres. Os portugueses votaram pela primeira vez em democracia, podendo fazer as suas opções em liberdade.

O 25 de Abril de 1974 foi uma das datas mais marcantes da História recente do nosso País. Para além de todas as movimentações militares que marcaram este dia e das modificações políticas, económicas e sociais que se seguiram, o 25 de Abril de 1974, também teve um grande impacto nas alterações culturais do nosso país nos últimos 40 anos, alterações, essas, marcadas pelos movimentos sociais e manifestações culturais, cujas conquistas mais importantes foram: a liberdade de expressão e de pensamento sob qualquer forma; liberdade de manifestação; liberdade de reunião e de associação; liberdade de organização politica; liberdade sindical; salário mínimo nacional; fim da guerra colonial e reconhecimento do direito à independência dos povos colonizados; igualdade de direitos; eleições livres e direito de voto aos maiores de 18 anos; direito à justiça; independência e dignificação do poder judicial; direito à educação; direito à cultura; direito à habitação; direito ao trabalho; direito à reforma; direito à saúde; direito à greve; poder local democrático; politica social essencialmente na defesa dos interesses da classe trabalhadora e aumento da qualidade da vida de todos os portugueses, entre outros.