Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Narrativa Diária

Não escrever um romance na «horizontal», com a narrativa de peripécias que entretêm. Escrevê-lo na «vertical», com a vivência intensa do que se sente e perturba. Vergílio Ferreira

Narrativa Diária

Não escrever um romance na «horizontal», com a narrativa de peripécias que entretêm. Escrevê-lo na «vertical», com a vivência intensa do que se sente e perturba. Vergílio Ferreira

08.03.16

No dia internacional da Mulher

1948047_789800304453997_402277897181237775_n.jpg

«Hoje esqueçam as flores. Ainda que sejam rosas. Dadas com carinho, até. Esqueçam o carinho, sim? Apanhem as vossas meias sujas do chão. Já está? Foi fácil, não foi? Não é física quântica. É só o B-E-Bá da vida de qualquer adulto. E, neste caso, pode ser o vosso gesto dedicado ao dia da Mulher.

Se quiserem ir mais longe, juntem as vossas meias sujas com a outra roupa toda que está no cesto, ponham-na na máquina. Não perguntem – por favor não perguntem – qual é o programa ou a quantidade de pó, se se põe no tambor ou na gaveta. Depois, estendam-na. Com molas, no fio, direitinha. Não façam de tontos, não a amarfanhem. Como se quem sabe mudar um pneu não pudesse saber como estender roupa num fio. Apanhem-na mal seque, e olhem para o tempo que faz. Não é preciso ser meteorologista para saber se vai ou não chover, nem físico para perceber que a roupa vai ficar molhada. Organizem-se. E a seguir, vá, passem-na a ferro. Arrumem-na sem misturar as meias com as cuecas.

É pouco? Talvez não seja. Assim como a caridade, também o feminismo começa em casa. Pouco se presta atenção a esta questão, tantas vezes relegada para a intimidade doméstica, para aquilo de que ninguém fala, ou gosta de falar. E, no entanto, é aqui que tudo começa: a desigualdade, a diferença de tarefas, a tradição que empurra as mulheres para terem de desempenhar tarefas corriqueiras, perdendo, assim, o tempo para se dedicarem a algo que seja mais importante para elas.

Quantas mulheres, dessas executivas, em cargos de chefia, ombreando com qualquer pessoa em eficiência e qualidade, chegam a casa e se transformam em escravas do lar – desculpem as palavras duras, mas são para serem melhor percebidas – têm de pensar no que vão fazer para o jantar enquanto os maridos esperam por ele refastelados no sofá? Imaginem o que isso faz a uma pessoa, ao amor próprio de uma pessoa. E, claro, o efeito que tem nas imagens que a sociedade perpetua, nos estereótipos que se vão reproduzindo ao longo dos tempos.

Já há até, imaginem, estudos científicos sobre o tema. No ano passado, provou-se que o tempo que uma mulher passa a fazer trabalhos informais – que não são contabilizados como trabalho – é sete vezes mais do que o dos homens. E isto é especialmente agudo em Portugal, onde, segundo a Pordata, “a taxa de atividade, que representa a percentagem de pessoas com mais de 15 anos empregada ou à procura de emprego, é de 58,8%, (entre as mulheres) das mais altas a nível europeu”. Perceberam o efeito que pode ter, a partir de hoje, apanharem as vossas meias?»

Catarina Carvalho, diretora

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2017
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2016
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2015
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2014
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2013
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D