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Narrativa Diária

Não escrever um romance na «horizontal», com a narrativa de peripécias que entretêm. Escrevê-lo na «vertical», com a vivência intensa do que se sente e perturba. Vergílio Ferreira

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16.04.16

O Bloco de Esquerda e a igualdade de género

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O Bloco de Esquerda, com um sentido de oportunidade único, num afã na luta contra a discriminação e pela igualdade e paridade de direitos, apresentou na Assembleia da República um projeto de resolução para mudar o nome do «Cartão do Cidadão» para «Cartão de Cidadania», por considerarem que a atual designação do documento «não respeita a identidade de género de mais de metade da população portuguesa».

No projeto de resolução que já foi entregue na Assembleia da República, os deputados do BE defendem que a «designação não deve ficar restrita à formulação masculina, que não é neutra, e deve, pelo contrário, beneficiar de uma formulação que responda também ao seu papel identificação afetiva e simbólica, no mais profundo respeito pela igualdade de direitos entre homens e mulheres».

Acontece que, gramaticalmente falando, o termo «cidadão» é um substantivo abstrato que não faz distinção de género. Do mesmo modo, quando nos referimos aos «portugueses» estamos implicitamente a considerar a população portuguesa no seu todo (homens e mulheres), não sendo necessário, por isso, fazer a discriminação entre ambos os sexos.

Se porventura se acatasse a pretensão do Bloco de Esquerda em alterar o cartão para «cartão da cidadania», estar-se-ia justamente a incorrer na discriminação inversa porque «cidadania» é, como sabemos um substantivo feminino.

A este respeito, apenas me ocorre dizer: «Calem-se», título de um texto de Miguel Esteves Cardoso, sobre este tema, que li há tempos no Público e que passo a citar:

 « (…) Todos nós, seja de que sexo ou de que sexualidade formos, somos portugueses. Somos o povo português ou a população ou a nação portuguesa.

Como somos todos portugueses quando alguém fala em "portugueses e portuguesas" está a falar duas vezes das mulheres portuguesas. As mulheres estão obviamente incluídas nos portugueses. Mas, ao falar singularmente das portuguesas, está-se propositadamente a excluir os homens, como se as mulheres fossem portugueses de primeiro (ou de segundo, tanto faz) grau.

Somos todos seres humanos. As mulheres não são seres humanas. Quando se fala na língua portuguesa não se está a pensar apenas na língua que falam as portuguesas. É a língua dos portugueses e doutros povos menos idiotas.

"Portuguesas e portugueses" não é apenas um erro e um pleonasmo: é uma estupidez, uma piroseira e uma redundância que fede a um machismo ignorante e desconfortavelmente satisfeitinho.

Somos todos portugueses e basta».

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