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Narrativa Diária

Não escrever um romance na «horizontal», com a narrativa de peripécias que entretêm. Escrevê-lo na «vertical», com a vivência intensa do que se sente e perturba. Vergílio Ferreira

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23
Mai15

Os Coches voltam a estar hoje na berlinda

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Depois muita controvérsia e de muitos atrasos o novo Museu dos Coches abre hoje as portas ao público com muita pompa e circunstância, 110 depois da sua abertura oficial.

O museu está localizado junto ao Tejo, em Belém. Ali poderão ser vistos coches, desde o séc. XVI até ao séc. XIX, adereços e fardas da época, incluindo 26 coches vindos do núcleo museológico de Vila Viçosa.

A coleção é considerada a mais notável do mundo, permitindo aos visitantes não só verificar a evolução técnica dos transportes de tração animal, como também apreciar a variada arte decorativa e a ornamentação detalhada dos veículos.

A ideia de trasladar os coches foi uma ideia peregrina de Santana Lopes, na altura Secretário de Estado da Cultura, quando ordenou a compra dos terrenos das antigas Oficinas Gerais do Material do Exército, onde viria a ser construído o novo edifício de Paulo Mendes da Rocha, arquiteto brasileiro e autor do projeto.

A escolha foi apenas consumada em 2008 por Manuel Pinho.  A ideia, ao que parece, era fazer também do edifício uma atração arquitetónica, à semelhança da Casa da Música ou do Museu de Serralves e a sua inauguração estava inicialmente prevista coincidir com a comemoração do centenário da República.

Como todas as grandes obras em Portugal, o novo Museu Nacional dos Coches tem estado envolto em polémica. Vários argumentos têm sido esgrimidos, desde o custo total da obra, que atingiu os 40 milhões de euros, suportados pelas receitas do Casino Lisboa, o timing da inauguração do espaço em plena campanha eleitoral, a localização escolhida e até a beleza do edifício, para alguns mais um «mamute branco» na capital.

Em 2008, António Costa, na altura presidente da Câmara de Lisboa, afirmou que construir um novo Museu dos Coches era perfeitamente dispensável. O edil argumentou não entender as razões avançadas de ser este o museu designado, com maior número de visitantes, para aplicar parte das contrapartidas do Casino de Lisboa. O atual secretário-geral do Partido Socialista nunca escondeu que gostaria de ver as contrapartidas do Casino aplicadas a outros projetos culturais na capital, designadamente no Museu das Descobertas ou no centro de cultura africana, ideias que nunca saíram do papel. No entanto, a Câmara Municipal de Lisboa acabou por dar um parecer favorável à proposta do Governo, na altura liderado por José Sócrates.

Também o atual secretário de Estado da Cultura, Jorge Barreto Xavier, disse, em 2013, que a construção do novo Museu dos Coches «foi um erro em termos de decisão», mas sublinhou que o novo Governo se decidiu pela sua conclusão e utilização futura. 

No mesmo ano, o presidente da direção da comissão nacional do Conselho Internacional de Museus, Luís Raposo, considerou mesmo que a construção do novo Museu Nacional dos Coches «foi um erro colossal de política cultural».

No meio da polémica, e já com o edifício praticamente pronto, falou-se até da possibilidade de o vir a afetar a outro museu, algo que nunca foi assumido publicamente.

Ora, sobre este tema existem várias reflexões que merecem ser feitas, a saber:

  • O Antigo Museu dos Coches era o museu nacional que mais visitante atraía, sendo que grande parte desse sucesso estava relacionada com facto de estar instalado no antigo Picadeiro Real. É essa carga histórica e esse simbolismo que vai desaparecer com esta nova localização que tanto poderá albergar o Museu dos Coches como outro museu ou qualquer serviço público;
  • A popularidade do antigo museu resultava em grande parte da sua localização e do próprio edifício do antigo Picadeiro Real. O que leva-nos a questionar a necessidade de um novo museu;
  • Num país em crise e marcado com uma austeridade a todos os níveis, só o novo-riquismo justifica gastar 40 milhões de euros num novo museu dos coches;
  • Finalmente o timing escolhido para esta inauguração. O atraso das obras motivado por problemas financeiros parece um falso motivo, sendo de encarar que o governo PSD/CDS pretenda fazer desta inauguração uma ação de propaganda e do museu a obra do mandato governamental.

Muito mais haveria que dizer, mas olhando em volta e pensando em Portugal, todo este processo espelha o pior do que se vai passando no nosso país.