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Narrativa Diária

Não escrever um romance na «horizontal», com a narrativa de peripécias que entretêm. Escrevê-lo na «vertical», com a vivência intensa do que se sente e perturba. Vergílio Ferreira

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24
Jan15

Passos aplaudiu a compra de dívida por parte do BCE, mas nem sempre foi dessa opinião

O Banco Central Europeu (BCE) anunciou que vai comprar mensalmente 60 mil milhões de euros de dívida pública e privada até setembro de 2016.

A decisão do BCE foi tomado para travar a espiral deflacionária e repor a inflação próximo dos 2%, devido à descida abrupta do preço dos barris de petróleo juntamente com a recessão europeia decorrente das medidas de austeridade que destruíram o mercado interno, o tecido económico-social e o poder de compra dos países da zona euro.

Neste sentido o plano de Mário Draghi só peca por tardio. Ao executivo cabe acolher com entusiasmo as medidas do BCE e desenvolver políticas ativas para potenciar as vantagens da desvalorização do Euro, capitalização da banca, mutualização de parte da dívida pública, compra de dívida pública e consequentemente redução do juro e do custo do serviço da dívida.

Se bem que os benefícios vão ser indiretos. Para que tudo isto resulte para o comum dos cidadãos, é necessário que o governo retome uma política de apoio à economia, quer no lançando investimentos reprodutivos, quer apoiando o relançamento da indústria. Estas medidas do BCE têm de ser encaradas como uma oportunidade de acelerar o crescimento das exportações, o crescimento económico, a redução do desemprego e melhoria do bem-estar social.

Pedro Passos Coelho aplaudiu a decisão de Draghi. Mas nem sempre teve este entendimento.

Aliás, António Costa apontou essa mudança de opinião do primeiro-ministro que anteriormente se manifestara contra a compra de dívida pública por parte do BCE.

Com efeito, em Novembro de 2011, Cavaco Silva tinha defendido uma atuação por parte do BCE que se assemelha muito com a que foi anunciada esta semana por Maria Draghi e que até na altura mereceu a aprovação de Francisco Louçã. O Presidente disse que o BCE devia manifestar «disponibilidade para uma intervenção ilimitada no mercado secundário da dívida pública daqueles países que sendo solventes enfrentam problemas de liquidez».

Um dia depois destas declarações, o primeiro-ministro fez questão de discordar publicamente com o Presidente, assumindo que «se o BCE tivesse por função resolver o problema dos países indisciplinados, imprimindo mais euros, pura e simplesmente esse seria um péssimo sinal». O que o BCE vai fazer agora, em termos simples, é imprimir mais euros para recomprar dívida no mercado secundário e assim baixar os juros dos títulos soberanos e fazer subir a inflação, tal como Cavaco Silva afirmara.

Em Junho de 2012, no Parlamento, em resposta ao líder do PS António José Seguro, Passos Coelho opôs-se à compra de dívida por parte do BCE e explicava porquê: «Se o senhor deputado entende que o BCE deve atuar em mercado secundário com programas mais intensos de compra de títulos de dívida soberana dos diversos países (…) deixe-me dizer-lhe: não concordo e não preciso de pedir licença a ninguém - nem em Portugal, nem na Europa – para lhe dizer aquilo que penso. Não aceito essa visão porque em primeiro lugar não cabe ao BCE em circunstância nenhuma exercer um papel de monetização dos défices europeus».

Já mais recentemente, em Maio de 2014, o Primeiro-Ministro insistiu que estaria contra a compra de dívida pública pelo BCE em larga escala porque, e cito, «é importante que a economia europeia recupere pelos seus próprios meios». Ou seja, Passos foi sempre adversário desta medida e contrário à mudança de orientação da política europeia.

Hoje, ou porque a memória é curta ou porque lhe convém assumir outra posição política sobre o mesmo assunto, tentou passar a ideia que não tinha dito aquilo que disse, afirmando: «nunca me manifestei contra o programa do BCE, antes pelo contrário» e referiu que é «bem-vinda» a decisão do BCE de comprar dívida pública e que espera que ela «seja tão eficaz quanto se deseja».

Mas como o vídeo comprova, não restam dúvidas…