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Narrativa Diária

Não escrever um romance na «horizontal», com a narrativa de peripécias que entretêm. Escrevê-lo na «vertical», com a vivência intensa do que se sente e perturba. Vergílio Ferreira

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Não escrever um romance na «horizontal», com a narrativa de peripécias que entretêm. Escrevê-lo na «vertical», com a vivência intensa do que se sente e perturba. Vergílio Ferreira

18.01.15

Por que é que tantos são Charlie e quase nenhum é Baga?

 

Charge_Juniao_12_01_2014_Charlie_Hebdo_vs_NigeriaB

Durante os últimos dias tenho lido aqui e ali que os media deram grande visibilidade aos ataques de Paris e praticamente ignoraram o que passa na Nigéria.

Na verdade, na mesma altura do atentado ao jornal Charlie Hebdo, na Nigéria, o Boko Haram, numa ofensiva para controlar uma cidade nigeriana de Baga, fez mais de 2000 mortes.

No dia a seguir, ao mesmo tempo que todos tínhamos os olhos postos em Paris, quando um terrorista fez reféns um grupo de pessoas num supermercado, três mulheres suicidas mataram mais de 20 pessoas na Nigéria.

Por que é que tantos são Charlie e quase nenhum é Baga?

Na minha opinião há algumas explicações que nos ajudam a perceber essa diferença de tratamento entre as duas chacinas: o facto de o ataque de Paris ter acontecido num país europeu aqui tão perto,é uma circunstância que nos impressiona  e que não nos coloca a salvo de podermos ser nós também vítimas de um atentado semelhante e nessa medida toca-nos mais. A circunstância de quase em simultâneo estes acontecimentos entraram-nos pela casa dentro, através da televisão e das redes sociais, também contribui para que o choque seja maior. O caso de vermos, pouco tempo depois de ter acontecido, a execução do polícia Ahmed num passeio de uma rua em Paris, é um ‘murro no estômago’ que atinge-nos com alguma violência, pois apercebemo-nos mais facilmente que podia acontecer connosco. Afinal, Paris é logo aqui ao lado!

Depois, o facto de tanto na Nigéria, como na Síria, no Iraque e no Afeganistão existir uma guerra civil, envolvendo vários grupos e vária etnias, há alguns anos, quer queiramos, quer não, vulgariza as tragédias que ocorrem nesses países. A circunstância de diariamente ser noticiados atentados naqueles países, ao fim de algum tempo leva-nos a encarar as mortes no Médio Oriente, as explosões na Palestina, as trocas de tiros no Leste da Ucrânia, as execuções no norte do México deixam como uma não notícia porque tornam-se banais, é no fundo o modus vivendi daqueles países.

Mas quando acontece uma tragédia, um ataque terrorista mais perto de nós, em países onde supostamente reina a paz, sem acontecimentos desta natureza, isto choca-nos e mobiliza-nos.

Não tenho dúvidas que se em França os ataques terroristas começassem a ser constantes, seriam provavelmente tratados com o mesmo nível de atenção e mobilização pelo resto do mundo, como os ataques recentes da Nigéria.

Somos muito influenciados pelos acontecimentos da atualidade que são divulgados nos media e através da Internet. É por isso que já ninguém se recorda muito bem dos ataques dos talibans a uma escola no Paquistão, que fizeram pelo menos 141 mortos, na grande maioria crianças, assim como ninguém valoriza muito a situação vivida no Leste da Ucrânia, porque outros acontecimentos passaram a ser notícia.

Isto para concluir que é injusto que o mundo apenas se revolte com os atentados de França, quando crimes bem maiores acontecem diariamente no resto do mundo e que apenas têm direito a uma pequena ‘nota de rodapé’.

Mas é compreensível que os casos sejam tratados de forma diferente, porque sendo iguais na sua essência, são diferentes quanto à forma como são percecionados.