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Narrativa Diária

Não escrever um romance na «horizontal», com a narrativa de peripécias que entretêm. Escrevê-lo na «vertical», com a vivência intensa do que se sente e perturba. Vergílio Ferreira

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Não escrever um romance na «horizontal», com a narrativa de peripécias que entretêm. Escrevê-lo na «vertical», com a vivência intensa do que se sente e perturba. Vergílio Ferreira

30.01.15

“Portugal não é a Grécia”

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 Portugal não é a Grécia

«Este foi o lema usado por muitos políticos portugueses durante a crise para transmitir aos parceiros europeus que não éramos irresponsáveis, incumpridores e caloteiros. Que não tínhamos abusado de regalias sociais, que não éramos teimosos e reivindicativos, que não éramos assim, preguiçosos e insolentes, como os galdérios dos gregos. Não, Portugal, não. Somos uma nação madura, responsável. Um país que assume os seus deveres. Disponível para respeitar todas as diretrizes da União Europeia, do Banco Central Europeu, do Fundo Monetário Internacional, de chanceleres sem voz e de mercados sem rosto, de qualquer instância superior existente ou em vias de aparecer. A eles nos vergamos.

Repitam comigo: Portugal não é a Grécia.

Como um miúdo careta da primeira fila na sala de aulas, culpámos o nosso colega rufia e mandrião, apontámos-lhe o dedo e delatámos: “Foi ele, eu não”. Afinal, nós éramos o bom aluno. O exemplo do latino arrependido para o qual todos os malditos gastadores deveriam olhar e seguir os passos. Assim, talvez sossegássemos os mercados, os credores irados que de um momento para o outro perceberam que vivíamos acima das nossas possibilidades. “Nós queremos pagar, senhores. Nem pedimos sequer uma renegociação. Os portugueses não partem montras nem bancos. Isso é coisa de gregos. Massacrem-nos a eles, a nós não”.

Portugal não é a Grécia. Mas quantos portugueses teriam gostado que Portugal fosse a Grécia no passado domingo?

Muitos, certamente. Não apenas aqueles que desde 2011 se indignaram perante a austeridade cega com que a Europa tentou solucionar uma crise de dívida, mas também os outros, alguns dos marrões da primeira fila. De repente, com a vitória do Syriza, alguns daqueles que se tinham afastado do colega grego ensaiaram um sorriso amarelo para fazer as pazes. De um dia para o outro, as televisões enalteceram um dia histórico, analistas evocaram uma nova esperança e até o PS passou a nutrir alguma simpatia. Sim, pela Grécia que não era como nós. Mas que agora nos abre uma possibilidade: a de recuperar o Estado social. Portugal não é a Grécia. Mas muitos portugueses seguem uma corrente inventada pelo grego Antístenes: o cinismo.

Da jornada do passado domingo, retenho a imagem das lágrimas de uma senhora, abraçada ao seu marido, aquando da divulgação das primeiras sondagens que garantiam a vitória do Syriza. Quanto sofrimento acumulado, quanta emoção. As lágrimas continham a esperança de ver os filhos regressar ao país e um desejo inflamado de voltar a sentir-se soberana, parte das escolhas na democracia grega. Lágrimas irracionais, dirão.

O Syriza não ganhou nada para além da oportunidade de ganhar alguma coisa. Vai ter de negociar, de ceder, de resolver fissuras internas. Vai ter sete mundos contra. As esperanças de triunfar são escassas. Mas, sim, há esperança. Portugal não é a Grécia. Há quanto tempo um português não chora por política? Não, não há esperança. As lágrimas continuam contidas. Assim como a soberania e a possibilidade dos nossos filhos voltarem para casa. Não podemos fazer parte da Europa que exaltou com a vitória do Syriza. Não merecemos fazer parte. Porque nunca tivemos coragem para perspetivar uma posição de força nem uma mudança política. Em Lisboa, voltaram a imperar os brandos costumes, a resiliência e o conservadorismo. Faltou coragem. De todos os países europeus afectados pela austeridade, Portugal foi o único que não viu crescer uma força política nova, um movimento de “indignados” com uma participação assinalável nem sequer um discurso reformador.

O Syriza poderá falhar mas ninguém tirará aos gregos o mérito de terem quebrado a barreira do medo e experimentado uma política nova. Em Portugal, vamos continuar a falar da coragem nas naus sem nos apercebermos que continuamos à deriva.

Vá lá, mais uma vez, até à exaustão: Portugal não é a Grécia.

Aqui nem vivemos assim tão mal. Tive a oportunidade de visitar aquela que é considerada uma das zonas mais pobres da Grécia: Perama, no subúrbio de Atenas. Vive-se uma grande crise humanitária. Mas não tão diferente daquela a que assisti quando visitei Setúbal. Mas aqui não vivemos assim tão mal, segredam-nos. Contentamo-nos com pouco. O Syriza promete aumentar o salário mínimo para 750 euros, o valor do salário médio português. Mas não vivemos assim tão mal. Em Atenas, discute-se o mesmo que aqui: os estágios que escondem os reais níveis de desemprego, a fuga de cérebros, a falta de cuidados hospitalares, os bancos alimentares.

Mas, aqui, venceu a propaganda: “Portugal não é a Grécia. Eles sofreram muito mais”.

É verdade que não temos neonazis nem grupos terroristas, que não nos partiram as praças nem incendiaram os bancos. A pasmaceira também tem virtudes. Em Lisboa, houve uma investida policial e abandonaram-se as ruas. E ainda se elogiou a santa paciência do corpo de intervenção, que só depois de uma hora de apedrejamentos por parte de meia dúzia de rapazes é que carregou sobre a multidão. Funcionou.

Os portugueses perderam a capacidade de confronto. Nem sequer conseguiram agarrar-se aos seus hábitos sociais, metamorfoseados durante a austeridade: a noite acaba mais cedo, as tavernas são gourmet e o fado já não é vadio. Tem-se medo de usar facas com cabo de madeira. Na Grécia, as leis europeias têm dificuldade em penetrar: não há ASAE, fuma-se em todo o lado, as licenças não são respeitadas. Para alguns, é carácter, para outros, má educação. Para o bem e para o mal, Portugal não é a Grécia. E não queremos nem Podemos, não temos políticos Cinco Estrelas nem sequer a Sinn Féin (Nós Próprios, o partido anti-austeridade irlandês).

Qualquer nova história que a Europa esteja a escrever, não será inventada aqui. Ficaremos limitados a copiá-la exemplarmente, tal como fazem os alunos marrões e sem criatividade, seguindo as pisadas do Syriza se a sua política triunfar ou cuspindo no atrevimento dos gregos se ela falhar. Somos mansos e ficaremos conhecidos como tal.

Portugal não é a Grécia.

Ou foi a Grécia que não quis ser Portugal? »

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