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Narrativa Diária

Não escrever um romance na «horizontal», com a narrativa de peripécias que entretêm. Escrevê-lo na «vertical», com a vivência intensa do que se sente e perturba. Vergílio Ferreira

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Não escrever um romance na «horizontal», com a narrativa de peripécias que entretêm. Escrevê-lo na «vertical», com a vivência intensa do que se sente e perturba. Vergílio Ferreira

13
Abr15

Presidenciais

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«1 Presidenciais: a violência dos ataques ao homem é invulgar e inexplicável. Não falo de Vasco Pulido Valente - para quem não existe um único português capaz do que quer que seja. Nem de José Lello, já batizado de "porteiro de discoteca" do PS - que, além de não deixar entrar, ainda distribui umas cacetadas em quem embirra. Ou de Sérgio Sousa Pinto - que destila arrogância gratuita nas redes sociais, como se uma página de Facebook fosse a sala de jantar lá de casa. Não é a reação de talibãs do regime que surpreende.

É a incomodidade do regime em si mesmo. Esta aversão por instinto. A repulsa aos que não são como nós. Não há benefício da dúvida para o "homem que não existe". Sampaio da Nóvoa já foi mais insultado numa semana do que Passos Coelho em todo o mandato. E porquê? Que mal fez? Que crime cometeu? Portugal é a ópera do malandro, "joga pedra na Geni", que se sacrifique o inofensivo transexual, a prostituta, para que a hipócrita e corrompida sociedade saia ilesa dos seus próprios pecados.

Já se decidiu que o candidato é mau. Que o pensamento é balofo. O reitor é sovado na praça pública. O pacato foi constituído arguido sem culpa formada. Ah, é verdade: não é político, nunca se viu na política, não foi deputado, sindicalista, não passou por um partido, é um ausente sem causas que se fez presente em iniciativas partidárias de circunstância. O Congresso do Costa. A homenagem a Cunhal. O "não pagamos" do Bloco. E o homem que não existe transforma-se, afinal, numa alforreca avermelhada.

É uma contradição estranha, matar o que ainda não nasceu. Estamos a assistir à mais recente tentativa de um aborto político.

E o senhor professor nem sequer ainda disse o que queria - embora seja evidente que queira alguma coisa. Enquanto Henrique Neto e Paulo Morais já se anunciaram. E Carvalho da Silva já se insinuou. À esquerda não faltam hipóteses, mas a estes estranhamente ninguém insulta ou sequer presta atenção. Qual é o problema então de Sampaio da Nóvoa?

Da idade já se falou, mas há um Neto que é mais velho. E do seu quase-anonimato, como se o candidato Morais fosse muito conhecido de Valongo para baixo. Páginas de jornais, opiniões definitivas, julgamentos de carácter.

Não é propriamente Sampaio da Nóvoa que está sob escrutínio tão duro e inflamado. Tirocínio aos 60 anos, com todo o direito para avançar. Não é candidato para vencer, não é problema dele. O problema é do partido que, pelos vistos, o vai apoiar. O problema é o partido que não tem mais ninguém para lançar.

É então do PS que se fala, quando se ataca Sampaio da Nóvoa. A onda rosinha contra o Nóvoa é, afinal de contas, uma outra forma de os socialistas expressarem o desespero que sentem diante do camarada Costa.

2 É a esquerda que está perdida, não é o putativo candidato a sua perdição. É a falha de propostas para as legislativas. A ausência de soluções para as presidenciais. A incapacidade de marcar a agenda do país. É um gigantesco buraco negro instalado no Largo do Rato que está a deixar os socialistas portugueses à beira de um ataque de nervos.

Não houvesse PS por detrás de Nóvoa e o ex-reitor estava a ser tão notado nestas presidenciais prematuras quanto o "ninja de Gaia", que também é candidato a Belém.

Assim se entende a virulência da opinião publicada contra Sampaio da Nóvoa e a forma como olimpicamente ignoram todos os outros.

Senão, pessoas tão inteligentes e informadas - que há anos se angustiam com a falta de renovação da classe política, que denunciam a chegada à arena de aldrabões e oportunistas, que atacam os "jotinhas" promovidos e já formatados, que acertam nas razões da fragmentação dos sistemas partidários por essa Europa fora - não seriam os mesmos que agora dedicam tanto tempo e não medem adjetivos para enxovalhar este outsider.

Sampaio da Nóvoa é sério, é uma pessoa decente e nada fez para merecer tamanha ira contra si. E "pertencer ao sistema", "viver no sistema", "ser o sistema" não serve de qualquer garantia para eleger um bom presidente da República - sabemos bem disso, basta estar atento e ter memória recente. Além disso, é preciso insistir, é mesmo importante sublinhar que fora do sistema pode surgir algo bastante pior - é só ver, por exemplo, o que está a acontecer em França.

Para os meus pares que publicam opinião, um singelo conselho: poupem artilharia com Nóvoa, pode vir a ser necessária para outras circunstâncias, essas, sim, verdadeiramente dramáticas. Seria reconfortante acreditar que Portugal está fora das tendências fragmentárias, sejam elas de natureza populista, nacionalista e até totalitárias. Infelizmente não está fora, está apenas atrasado.

Para a esquerda desvairada, um incentivo descomprometido: que ganhem coragem para assumir que aquilo que verdadeiramente vos irrita não é um personagem que parece saído da série dos Simpsons, mas a vossa própria incapacidade. O insulto até dá uma certa cor à política. Mas pior do que política com bafio é a política que insulta por interposta pessoa. E o PS está a revelar alguns cobardes com ar de macho.

E, por fim, para quem lê este texto, uma confissão pessoal: não votarei Sampaio da Nóvoa. Não me dá o direito de insultar uma pessoa que respeito. E que o merece».

Sérgio Figueiredo, Diretor de Informação da TVI