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Narrativa Diária

Não escrever um romance na «horizontal», com a narrativa de peripécias que entretêm. Escrevê-lo na «vertical», com a vivência intensa do que se sente e perturba. Vergílio Ferreira

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Não escrever um romance na «horizontal», com a narrativa de peripécias que entretêm. Escrevê-lo na «vertical», com a vivência intensa do que se sente e perturba. Vergílio Ferreira

05.02.15

«Senhor ministro, não me deixe morrer, eu quero viver»

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«Não me deixe morrer, eu quero viver», foi desta forma desesperada que José Carlos Saldanha, doente que aguarda tratamento contra a hepatite C, suplicou ao ministro da Saúde, durante uma audição que decorreu, esta quarta-feira, na Comissão Parlamentar da Saúde.

Quem viu esta peça no telejornal não pode certamente ficar indiferente a este apelo de José Carlos Saldanha pedindo ao ministro da Saúde que lhe disponibilize o milagroso medicamento Sovaldi, sem o qual não conseguirá sobreviver.

José Carlos Saldanha, acompanhado pelos filhos de duas doentes com hepatite C, uma das quais falecida recentemente, assistiu ao debate sobre o estado das urgências hospitalares, mas também sobre o acesso aos tratamentos contra a hepatite C.

Segundo declarou, o próprio doente terá proposto a Paulo Macedo custear metade tratamento, não tendo recebido qualquer resposta da parte do Ministério da Saúde.

José Carlos Saldanha foi entrevistado, na passada quinta-feira, no Jornal das 8, da TVI. Durante a entrevista, o doente revelou que espera há um ano que o pedido para o seu tratamento seja acolhido e falou de uma «guerra» que tem travado para poder aceder a este tratamento.

«Não sou um doente imaginário, sou real. A guerra tem sido grande e o meu tempo de antena é muito curto. [...] Existe uma cura e eu não percebo do que estão à espera.». «O senhor ministro olha para nós como números», afirmou.

O ministro da Saúde acabou por receber os familiares de duas doentes com hepatite C, tendo garantido que iria averiguar a razão de uma das doentes ter falecido sem receber um medicamento inovador.

David Gomes, o filho da doente falecida, quer saber a razão pela qual a mãe, «que pelos vistos era uma doente tão prioritária que acabou por morrer», não recebeu o fármaco.

O preço do Sovaldi (sofosbuvir) tem gerado muita polémica. É claro que 48000 euros é uma soma exorbitante, mas estamos a falar de vidas humanas, será que alguém já fez as contas sobre quanto custa, anualmente, cada um destes doentes ao Estado em internamentos e cuidados de saúde? Em lugar de estar a tratar doentes durante anos e anos com medicamentos paliativos que só aliviam os sintomas mas não curam a doença, não será mais razoável investir num medicamento com um grau de fiabilidade de 90% e devolver a saúde às pessoas? Quanto custa uma vida?

Eu entendo que o Estado tente negociar com a farmacêutica para que esta desça o preço do medicamento, aliás, há mesmo uma iniciativa da UE para que as negociações se façam com todos os Estados-membros a fim de aumentar o poder negocial, o que não entendo é que entretanto se deixem morrer pessoas.

O Infarmed pode e deve negociar os preços, mas não sem antes disponibilizar o tratamento aos doentes que dele necessitam. Não se pode de forma alguma negar o direito à vida de quem espera há anos por uma cura por questões meramente economicistas.