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Narrativa Diária

Não escrever um romance na «horizontal», com a narrativa de peripécias que entretêm. Escrevê-lo na «vertical», com a vivência intensa do que se sente e perturba. Vergílio Ferreira

Narrativa Diária

Não escrever um romance na «horizontal», com a narrativa de peripécias que entretêm. Escrevê-lo na «vertical», com a vivência intensa do que se sente e perturba. Vergílio Ferreira

01
Set17

Cavaco Silva na Universidade de Verão do PSD

 

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O ex-presidente da República Cavaco Silva veio de Albufeira e interveio na Universidade de Verão do PSD que marcou a rentrée política do partido e que arrancou esta semana em Castelo de Vide.

 

Perante uma plateia de jovens do PSD, Cavaco lançou críticas veladas a Marcelo e ao Governo, arrasando a «verborreia frenética dos políticos» e aqueles que «piam» por jogada partidária. E afirmando que também há fake news em Portugal, não apenas «na América do senhor Trump».

 

Cavaco falou com a maior desfaçatez como se ele próprio não tivesse tido uma carreira política, como se ele não tivesse sido tudo o que um político  pode ser de mais relevante – ministro, primeiro-ministro e presidente da República.

 

Falou ainda como ele próprio não tivesse alimentado notícias falsas durante décadas, em todas as funções de governante que teve. Vê-lo a mencionar este assunto é, no mínimo, hilariante.

 

Quem não se lembra da famosa intentona de Belém? Em que um ex-assessor de Cavaco, Fernando Lima, acusou José Sócrates de vigiar Belém, vindo depois a provar-se que as suspeitas não tinham fundamento, ou a ocasião em que Cavaco assegurava ao país de que o BES estava sólido, persuadindo os cidadãos portugueses a participarem na operação de aumento de capital que, posteriormente, se revelou uma gigantesca fraude. Estas palavras de Cavaco aconteceram meras semanas antes de o BES ter falido.

 

Por tudo isto Cavaco na Universidade de Verão do PSD foi igual a ele próprio, como de resto a imprensa conservadora fez notar de forma cautelosa.

 

Cavaco apenas quis ajustar contas com o passado e foi essa mensagem negativa de revanchismo que passou a dezenas de jovens que ambicionam entrar na politica e que deveriam ter recebido uma mensagem de esperança no futuro

 

Devia ter ficado sossegado em Albufeira.

19
Fev17

As quintas feiras de Cavaco

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Não li o livro de Cavaco Silva, nem tenciono ler, mas a julgar por alguns excertos que vão saindo na imprensa, são ilustrativos e demonstram bem o carácter do seu autor. A começar pelo título: «quinta-feira e outros dias».

 

Cavaco igual a si próprio. Vingativo, mesquinho. O livro não é mais do que um ajuste de contas camuflado com Sócrates.

 

Segundo a imprensa, Cavaco descreve as reuniões sonolentas com Mário Soares; os reiterados atrasos de Sócrates, em quem Cavaco não acreditava; a pontualidade de Pedro Passos Coelho que aguardava calado as perguntas do Presidente, mas isso aos portugueses, pouco ou nada interessa. Há certamente outros assuntos que os portugueses gostavam de ver respondidos, falo por mim, nomeadamente: sobre a sua participação como acionista na SLN, a detentora do BPN ou por que razão deu falsas esperanças aos depositantes do BES, quando afirmou que podiam confiar no banco dado que as folgas de capital eram mais que suficientes para cobrir a exposição que o banco tem à parte não financeira?

 

Cavaco sempre quis passar a ideia de si próprio como a de um honesto estadista, rigoroso e cumpridor dos seus deveres, afinal estamos perante uma pessoa sem qualquer pingo de sentido de Estado, divulgando conversas privadas na praça pública, sem pudor ou respeito com as pessoas envolvidas.

 

Trata-se de um livro de um autor despeitado que será para sempre recordado como o pior Presidente da República Português, um presidente de fação que estimulou ódios e atiçou intrigas. Não admira que tenha sido o Presidente da República com a mais baixa taxa de popularidade da democracia portuguesa.

07
Jun16

Marques Mendes contra a reposição das 35 horas

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Marques Mendes discorda da reposição das 35 horas de trabalho semanal na Função Pública, considerando-a mesmo «uma das medidas mais gravosas que o Governo tomou», além de, segundo o comentador, poder ser considerada «inconstitucional».

 

Ora, quando vigoravam 35 horas de trabalho semanais para a administração pública e 40 para o sector privado, nessa altura, ninguém discutiu a inconstitucionalidade da lei, porquê agora se levantam estas dúvidas de constitucionalidade?

 

E já agora uma pequena curiosidade recordada por Francisco Louçã, no Público:

 

« É que a lei das 35 horas não é de ontem, durou vinte e cinco anos. Foi aliás elaborada por um governo de Cavaco Silva. E agora peço aos leitores e leitoras que se deitem a adivinhar quem era o Secretário de Estado da Presidência do Conselho de Ministros desse governo em 1988, quem era o governante que tinha por função coordenar a produção legislativa do governo, verificar as leis, preparar a sua redacção final. Ou seja, de quem é esta lei das 35 horas, a tal lei antiga e cavaquista que agora se tornou abusiva, errada, desigualitária, que deita por terra as grandiosas “reformas estruturais” a que Pátria aspira?

 

Pois se disse Marques Mendes adivinhou».

 

Há coisas fantásticas, não há?

 

03
Mar16

«Há dias assim»

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Socorro-me do balanço feito pelo bloquista João Semedo feito na sua página de facebook, a propósito das notícias que vieram hoje a público deste pequeno 'retângulo' à beira mar plantado: 

«HÁ DIAS ASSIM

Manuel Damásio, ex-presidente do Benfica, detido pela PJ por suspeita de branqueamento de capitais e tráfico de influências.

Maria Luís Albuquerque, contratada para administradora do grupo internacional que comprou dívida ao Banif no período em que a ex-ministra era responsável pelo banco.

José Manuel Coelho, deputado na Assembleia Legislativa da Madeira, despiu-se no parlamento regional, protestando contra a penhora do seu vencimento.

Cavaco Silva, preside à reunião do Conselho de Ministros dedicada às políticas do Mar a uma semana de deixar Belém.

Sónia Melo, cientista portuguesa, suspensa de funções após ter sido acusada de manipulação de dados.

Henrique Raposo, apresenta livro sobre o Alentejo em sessão vigiada pela PSP.

Uff, fico-me por aqui. Que país este...»

19
Fev16

Cavaco Silva condecora Sousa Lara

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Para fim de festa e à laia de despedida, Cavaco Silva consegue achincalhar ainda mais a função presidencial.

Só deste modo se compreende que tenha condecorado António Sousa Lara com a Ordem do Infante D. Henrique, destinada a premiar todos aqueles que tenham «prestado serviços relevantes a Portugal, no país e no estrangeiro».

E que serviços relevantes foram esses? Enquanto subsecretário de Estado da Cultura 1992 vetou a apresentação do livro de José Saramago, O Evangelho Segundo Jesus Cristo, à candidatura a um prémio europeu, por considerar que atentava contra a moral cristã. O escritor viria a ser galardoado em 1998 com o prémio Nobel.

Na sequência desta decisão, qualificada por Saramago como um ato de censura feito por Sousa Lara e pelo então primeiro-ministro, Cavaco Silva, o escritor acabaria por entrar em litígio com o Estado português, optando por ir viver de forma permanente para a ilha espanhola de Lanzarote. No entender de Saramago, o veto à sua obra decorreu de uma retaliação do Governo PSD às suas posições e convicções ideológicas.

Também como vice-reitor da Universidade Moderna, António Sousa Lara foi condenado a dois anos e meio de prisão, pena que ficou suspensa por dois anos.

Quem será o próximo galardoado? Dias Loureiro? Duarte Lima ou Oliveira e Costa?

Está à vista a necessidade de alterar a constituição e limitar os poderes aos presidentes em final do mandato. Tal como existem impedimentos constitucionais relativos ao fim do exercício da magistratura presidencial, também a capacidade de distribuição de prebendas deveria estar incluída nesse pacote de limitações.

07
Jan16

A estratégia de Marcelo

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Marcelo Rebelo de Sousa (MRS) tenta a todo o custo captar votos à esquerda e à direita. Foi isso mesmo que assistimos no frente-a-frente com Marisa Matias. Afinal, ficamos agora a saber que Marcelo Rebelo de Sousa é favorável à adoção por casais do mesmo sexo, desde que, segundo ele, «esteja garantido do ponto de vista técnico a proteção da criança», não interessa que seja um adotante, dois, «um casal do mesmo sexo ou de sexo diferente, isso é irrelevante». Como procedia então se já estivesse no lugar de Cavaco Silva? MRS foi perentório «Não vejo razão para não promulgar», respondeu.

Relativamente a outra questão fraturante – o aborto – o moderador pergunta a MRS que faria ao diploma de revogação das taxas moderadoras, recordando que ele assinara a iniciativa de movimentos pró-vida para impor essas taxas. Marcelo, nem pestaneja: «não vejo razão para não promulgar». Porque segundo o candidato «uma coisa é a posição enquanto cidadão, outra enquanto Presidente». Marisa Matias recorda-lhe então que em relação ao aborto, ele foi o responsável por um referendo que atrasou dez anos a despenalização, levando à humilhação das mulheres, em julgamentos como o de Aveiro. MRS contrapõe lembrando que como presidente do PSD era apenas «um líder minoritário de oposição», e que foi afinal Jorge Sampaio – o último Presidente de esquerda – a decidir.

Marcelo vai mais longe, neste debate em que pareceu ter como alvo o eleitorado de esquerda, fazendo tábua rasa das opções ideológicas, assegurando que com ele em Belém não terá que tomar qualquer iniciativa legislativa no sentido de questionar a lei que despenaliza o aborto em vigor que segundo ele demonstra a vontade da maioria dos portugueses.

Uma resposta a lembrar a célebre rábula de Ricardo Araújo Pereira («- É crime? - É. - Mas o que é que acontece? - Nada!»).

O chumbo do Tribunal Constitucional aos cortes nos salários e pensões previstos no Orçamento do Estado para 2012 foi outro dos temas que motivou uma troca mais acesa de argumentos entre os dois candidatos, com Marisa Matias a dizer que Marcelo Rebelo de Sousa discordou da decisão dos juízes do Tribunal Constitucional. De imediato, o professor respondeu: «Não critiquei, disse que alguns dos fundamentos jurídicos [apresentados] eram discutíveis". E acrescentou: «Eu concordei com a decisão do Tribunal Constitucional”.

Marcelo diz que não disse, mas disse. Afinal o que disse Marcelo Rebelo de Sousa no dia 22 de janeiro de 2012, na TVI? [...] «Passa pela cabeça de alguém que a maioria dos Juízes do Tribunal Constitucional chumbe o Orçamento de Estado? Que significa chumbar a execução do acordo da troika, parar o financiamento a Portugal e colocar Portugal numa situação crítica em relação à Europa? Era o que faltava. Passa pela cabeça de alguém? Em homenagem de uma interpretação muito rígida e fixista da Constituição. Isto lembra ao careca?» Afinal lembra o careca…

Marisa Matias podia ter arrumado a questão se tivesse obrigado o seu opositor a dizer como teria procedido se fosse PR em 2012. Não o fazendo, deixou-o na sua praia a dissertar sobre aspetos técnicos do pedido de fiscalização sucessiva e da decisão subsequente do Constitucional. Foi pena que em vez de obrigá-lo a mostrar que espécie de Presidente quer ser, deixassem brilhar o comentador e o académico.

Já houve eleições mais e menos disputadas, mas não me lembro de eleições em que a função presidencial fosse tão desvalorizada e tão esvaziada. E este é talvez o aspeto mais trágico desta campanha.

Marcelo Rebelo de Sousa, porque as sondagens lhe são favoráveis, quer chegar a Belém sem se comprometer. Não entusiasma ninguém porque preferiu desaparecer, fazer-se de morto. Acontece que o aspeto marcante dum presidente da república enquanto instituição é a de ser sufragada pelo voto em função de um conjunto de ideias e não em função da simpatia. Marcelo pretende, enquanto candidato, distribuir sorrisos, apagar o seu passado e pairar acima da política em que sempre participou, para dar a entender que é um candidato independente. Seria bom que assumisse as suas posições e a sua história. Porque se assim não for, não fará qualquer diferença tê-lo a ele ou qualquer outro em Belém. Ao candidato a presidente da república exige-se muito mais, não pode ter um papel meramente decorativo. Já bastaram estes dez anos com Cavaco Silva e espero que os portugueses tenham aprendido a lição.

09
Dez15

Entrevista de Marcelo Rebelo de Sousa na SIC

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Não assisti em direto à entrevista, mas depois, instigada por uma amiga, vi no dia seguinte e gostei.

Gostei sobretudo da sua atitude, da resposta pronta, da forma inteligente e acutilante com que respondeu a todas as perguntas. Gostei de alguns reparos que fez a Cavaco, ainda que subtis. Gostei que tivesse declarado que Cavaco era passado e ele queria ser o futuro.

Gostei que afirmasse não rejeitar apoios à sua candidatura mas, sem ficar a dever favores a ninguém. Gostei que tivesse dito que prescindiria de cartazes na campanha.

Gostei que garantisse que se for eleito que fará todos os possíveis para que o governo de António Costa seja duradouro porque isso é bom para o país. Gostei que afirmasse que o Presidente da República não tem que ter estados de alma em relação ao Governo que está em funções. Gostei que deixasse claro que o Presidente da República não tem que assumir as dores dos partidos. Deve estar acima destes.

Gostei que mostrasse abertura total para o diálogo e para o acompanhamento regular com os membros do governo. Gostei que tivesse afirmado que pretende ouvir e contactar pessoalmente os cidadãos. Gostei que prometesse envolver-se ativamente na governação, correndo até o risco de ser «hiperativo». 

No fundo é tudo isto que se espera de um Presidente da República. Que exerça a sua magistratura de influência em prol do bem comum.

Ainda não decidi o meu voto. Mas uma coisa eu sei: na hipótese de existir uma segunda volta entre Marcelo e Maria de Belém o meu voto irá seguramente para o Professor.

27
Nov15

Cavaco nunca desilude!

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Cavaco Silva deu ontem posse ao XXI Governo Constitucional. O Presidente da República acabou por empossar o Governo que não queria, garantiu lealdade institucional ao novo primeiro-ministro, mas não cooperação, lembrando-lhe que mantem intactos todos os  poderes que a Constituição lhe confere, exceto a possibilidade de dissolver a Assembleia da República, designadamente o poder de demitir o Governo. Na prática, o Presidente da República anunciou que estará vigilante e à mínima coisa poderá derrubar o governo de António Costa nas semanas que lhe restam de mandato.

António Costa já ia preparado para este tipo de oratória, tão própria de Cavaco e não estremeceu com o sermão. Sublinhou que o Governo não tem de responder ao Presidente e atribuiu à Assembleia da República maior soberania, porque é ela, afirmou, que tem «a exclusiva competência» para julgar o programa de governação.

Cavaco nunca abdicando da sua pose institucional que aliás sempre o caracterizou, deixou bem claras as mesmas advertências quanto, por exemplo, aos compromissos internacionais na União Europeia. Foi uma das questões que os acordos à esquerda levantaram e que na sua opinião «não foram totalmente dissipadas» e indicou que só deu posse a António Costa por não ter alternativa.

No fundo Cavaco foi igual a ele próprio. Fez um discurso a pensar exclusivamente na sua biografia, para memória futura, para dizer que “eu bem avisei”. Enfim, o habitual.