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Narrativa Diária

Não escrever um romance na «horizontal», com a narrativa de peripécias que entretêm. Escrevê-lo na «vertical», com a vivência intensa do que se sente e perturba. Vergílio Ferreira

Narrativa Diária

Não escrever um romance na «horizontal», com a narrativa de peripécias que entretêm. Escrevê-lo na «vertical», com a vivência intensa do que se sente e perturba. Vergílio Ferreira

26.07.17

Oportunismo mórbido

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É vergonhoso o aproveitamento político que os partidos da Direita e alguma comunicação social estão a fazer com as vítimas do incêndio de Pedrogão.

 

A grande preocupação incide agora sobre a contabilidade dos mortos. Sobre a divulgação das listas com os nomes. É aberrante e doentia a obsessão com a devassa até das mortes. Parece que vale tudo. Nada nem ninguém merece respeito. Nem a memória dos mortos nem a as suas famílias.

 

Mas porventura existirá alguém interessado em esconder mortos? Por que o fariam e com que intenção? Será credível que as autoridades governamentais, depois de reconhecerem com base nas informações recolhidas e que lhe foram transmitidas, um número tão extraordinário como 64 vítimas, teriam interesse em esconder mais mortes, se comprovadas?

 

Interessante foi também o ultimato feito pelo PSD ao governo, através de Hugo Soares,  para a divulgação da lista de pessoas que  faleceram no incêndio de Pedrógão Grande com a ameaça de um pedido de urgência de uma reunião de líderes na AR.

 

Que dizer em relação a mais esta trapalhada de um partido (e do seu novo líder parlamentar), que deveria ter sentido de Estado e demonstrar que como maior partido da oposição é responsável.

 

Mas mais uma vez se veio a verificar o oportunismo político deste PSD que até das vítimas do infausto acontecimento se serviu, para tentar tirar dividendos políticos.

 

Só a silly season e a aproximação do período eleitoral justificam este desvario. Bem sei que o Diabo não dá sinais, mas socorrerem-se do inferno dos fogos também não parece uma boa estratégia.

14.02.17

Dia São Valentim

 

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Diz que hoje é dia de São Valentim. Não há como fugir. Rádios, televisões e imprensa escrita bombardeam-nos literalmente há uns dias com sugestões e propostas.

 

Sobre esta comemoração sabe-se que foi evento importado dos países anglo-saxónicos pelos comerciantes para incrementar as vendas que começavam a diminuir em janeiro após o Natal.

 

Mas hoje ao passar no facebook, dei de caras com este texto do Grande Júlio Isidro e que gostaria de partilhar convosco:

 

«NO AMOR NÃO HÁ FÉRIAS....
Nem feriados, nem pontes, nem tolerância de ponto,nem baixa por doença e muito menos licença sem vencimento.
No amor, namora-se a tempo inteiro.
No amor não há São Valentim para dizer que é hoje, não te esqueças de comprar qualquer coisa com um coração a decorar, o jantarinho num restaurante cheio de casais a namorar e empregados afogueados de tanto trabalho para servirem amor, das entradas até à sobremesa.
Cá em casa namora-se com contrato de exclu...sividade e até tem graça quando as miúdas nos surpreendem numa troca furtiva de carinho.
Como gostamos de esparguete, brincamos muitas vezes com a cena de namoro do filme "A dama e o vagabundo" e eu assumo-me mesmo no papel de cão outrora vadio, e agora de estimação.
Há 25 anos que envelheço ao lado da minha namorada, definitivamente a última. E ela sabe das minhas angústias por sentir que um dia destes o namoro acaba por falta de comparência.
Entretanto, desejo ao São Valentim muita sorte e bons negócios porque com smoking ou em pijama continuamos a fazer muitos jantarinhos de namorados de fresca data.
Se toda a gente namorasse, seduzisse e cativasse o próximo, este mundo era um coração em ponto grande.
São Valentim é quando dois quiserem
».

 

 

 

10.12.16

A coabitação entre Belém e São Bento

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As boas relações entre Marcelo Rebelo de Sousa e António Costa estão a deixar a direita aziada. Mesmo os portugueses estranham, porque não estavam habituados a verem o Presidente da República e o primeiro-ministro exibirem uma cumplicidade que vai além da relação institucional entre órgãos de soberania.

 

Marcelo Rebelo de Sousa e António Costa conhecem-se desde os tempos da faculdade: o primeiro-ministro foi aluno do atual presidente da República na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa. E nunca esconderam a simpatia que têm um pelo outro.

 

O PSD apoiou Marcelo à Presidência da República por ser um candidato ganhador, mas também na convicção de repor o poder que havia perdido com a solução governativa encontrada pelo Parlamento e liderada por Costa. Contudo, isso não aconteceu. Pelo contrário, Marcelo tem vindo a afastar-se de Passos Coelho e a aproximar-se cada vez mais de Costa.

 

O estado de graça que Marcelo usufrui junto dos portugueses favorece o governo de António Costa. Não apenas porque a omnipresença do Presidente ocupa o espaço mediático, mas também porque o facto de aparecerem muitas vezes juntos em vários eventos e visitas no estrangeiro, enfraquece as críticas da direita e irrita sobremaneira o PSD.

 

António Costa como político hábil que é, percebeu há muito, que esta prática protagonizada por Marcelo, de vestir a pele de comentador e falar sobre atualidade política, assim que um jornalista lhe põe um microfone à frente, que à primeira vista poderia ser intrusiva da ação governativa, poder-lhe-ia ser favorável, sendo uma mais-valia no clima de crispação política e contribui em muito para a solidez e estabilidade do governo.

 

Ao contrário, a gritaria dos partidos da direita e a inconsistência e incoerência do seu discurso, tem o efeito contrário, isto é, une ainda mais a esquerda ao Presidente.

 

Neste perspetiva, Marcelo tem sido o verdadeiro guarda-chuva de Costa, que tem tido no Presidente da República um parceiro estratégico importante para a saúde política do governo e da geringonça. A imagem das duas mais altas figuras de Estado debaixo do mesmo guarda-chuva, em Paris, no dia de Portugal é a metáfora simbólica desta coabitação quase perfeita, muito embora considere que quando Marcelo achar que é oportuno roer a corda ao governo, o fará sem o mínimo problema.

28.10.16

Um dia aziago

 

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Há notícias que são como como um «murro no estômago». Situações que estão longe da nossa imaginação, talvez por julgarmos que nunca irão acontecer.  Ontem foi um dia aziago, desapareceram dois homens brilhantes. Muito diferentes, mas ambos distintos e excelentes nas suas áreas e que eu admirava sobremaneira.

 

Um, João Lobo Antunes, era e uma referência no mundo da ciência e da medicina – um príncipe da medicina – foi um neurocirurgião brilhante. Adorava a escrita e a música, era um pensador livre e humanista. Mandatário das candidaturas de Jorge Sampaio e Cavaco Silva a Belém, conselheiro de Estado, professor, presidente do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida, Prémio Pessoa em 1996, a vida João Lobo Antunes deixa uma marca forte áreas distintas.

 

O Jaime Fernandes era um príncipe da rádio. Tinha uma voz magnifica, uma das melhores vozes radiofónicas, era um grande profissional da comunicação, marcou uma época na rádio, nos idos de 80 e 90. Foi um grande amante da música, que sempre divulgou e promoveu.

 

São baixas graves, irremediáveis. Claro que o mundo não pára e haverá certamente novos valores a surgir. Mas para nós, que os conhecíamos e admirávamos, o nosso mundo fica mais pobre. Cada vez vai ficando mais pobre…

29.07.16

Media franceses deixam de publicar imagens de terroristas

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 (imagem do Expresso)

 

Os ataques terroristas que têm marcado a atualidade internacional colocam um enorme desafio aos  órgãos de comunicação.

 

Sabe-se que há uma relação estreita entre terrorismo e comunicação social, dado que o primeiro não tem razão para subsistir sem o segundo. Porque um ato terrorista só assume determinada importância se for difundido pelos media.

 

Esta relação entre meios de comunicação e terrorismo atinge uma dimensão estratégica, na medida em que gera uma interdependência entre as partes. Por um lado, a necessidade de divulgação mediática alimenta o terrorismo para que este atinja níveis de terror globais, por outro, há uma necessidade subjacente da opinião pública e da indústria de conteúdos que reclama uma produção desmedida por parte dos media.

 

A principal questão aqui prende-se em conseguir um equilíbrio entre a liberdade de informar e o respeito pelas vítimas, evitando,  a chamada  «glorificação póstuma»  dos atos cometidos por indivíduos considerados como terroristas, seja qual for a sua motivação, e evitar, assim, «colocar os terroristas ao nível das vítimas».

 

Se em Portugal, Espanha, Itália em França (neste último caso, até há bem pouco tempo), fotografias, nomes e perfis dos autores dos atentados são divulgadas sem qualquer limitação nos diversos meios de comunicação, países europeus como a Suíça escolheram há algum tempo evitar a difusão das imagens dos terroristas.

 

Neste momento alguns meios de comunicação franceses como o Le Monde, a BFM-TV e a Europe 1, após o ataque à igreja de in Saint-Etienne-du-Rouvray decidiram igualmente que não vão mais divulgar os rostos dos atacantes.

 

Parece-me uma ideia sensata e inteligente que deveria ser replicada pelos órgãos de comunicação de outros países.

03.03.16

«Há dias assim»

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Socorro-me do balanço feito pelo bloquista João Semedo feito na sua página de facebook, a propósito das notícias que vieram hoje a público deste pequeno 'retângulo' à beira mar plantado: 

«HÁ DIAS ASSIM

Manuel Damásio, ex-presidente do Benfica, detido pela PJ por suspeita de branqueamento de capitais e tráfico de influências.

Maria Luís Albuquerque, contratada para administradora do grupo internacional que comprou dívida ao Banif no período em que a ex-ministra era responsável pelo banco.

José Manuel Coelho, deputado na Assembleia Legislativa da Madeira, despiu-se no parlamento regional, protestando contra a penhora do seu vencimento.

Cavaco Silva, preside à reunião do Conselho de Ministros dedicada às políticas do Mar a uma semana de deixar Belém.

Sónia Melo, cientista portuguesa, suspensa de funções após ter sido acusada de manipulação de dados.

Henrique Raposo, apresenta livro sobre o Alentejo em sessão vigiada pela PSP.

Uff, fico-me por aqui. Que país este...»

20.10.15

Género Epistolar

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Parece estar institucionalizada em Portugal uma nova forma de fazer política, refiro-me à forma de comunicação adotada pela Coligação PSD/CDS e o PS.

Em vez de os líderes dos partidos se reunirem com vista a um entendimento para a formação de um novo governo, adotaram o género epistolar dando trabalho aos correios.

Lamentável!

28.09.15

E assim vai a campanha eleitoral…

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«Por cá, alguém que não conhecesse o país suporia que foi o PS que esteve no Governo nos últimos quatro anos. Da direita à esquerda só se discute o PS, o programa do PS, as promessas do PS, os cortes na segurança social do PS, o acordo da troika que o PS assinou, o plano secreto que o PS tem para se aliar à CDU e ao BE para não deixar o centro-direita governar. (...) E ninguém debate os últimos quatro anos, os 485 mil emigrantes (...), os cortes nos salários da Função Pública e nas pensões dos reformados, a desmotivação completa dos funcionários públicos, o desemprego, o emprego que está a ser criado (90% é precário), os 50% de portugueses que ganham menos de 8000 euros por ano, o facto de estarmos a trabalhar mais 200 horas por ano e a ganhar em média menos 300 euros, o descalabro na educação (...), a miséria que se vive no Serviço Nacional de Saúde (...), os medicamentos que faltam nas farmácias e só estão disponíveis daí a dois dias, a machadada que levou a ciência e investigação, os problemas que se continuam a verificar na justiça, a inexistência de respostas ao envelhecimento da população (em 2014 já havia mais de 4.000 pessoas acima dos 100 anos em Portugal e há 595 mil portugueses com mais de 80 anos), a irrelevância do ministro dos Negócios Estrangeiros, a fragilidade da ministra da Administração Interna, as múltiplas garantias de Passos Coelho que foram sempre desmentidas por decisões do próprio Passos Coelho, o programa da coligação que não se discute porque não existe, etc, etc.»

NICOLAU SANTOS, Expresso, 2015.09.28

Isto decorre, há que dize-lo, não apenas de uma habilidosa estratégia da PAF (o balanço destes últimos quatro anos de governação está praticamente arredado da campanha eleitoral. As propostas concretas da PAF para o futuro, também); da errada opção do PS (que devia concentrar-se mais no seu programa); mas essencialmente da paupérrima cobertura mediática que a generalidade dos meios de comunicação social difundem, designadamente as televisões.

06.09.15

O circo está montado...

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José Sócrates esteve em prisão preventiva 288 dias no Estabelecimento Prisional de Évora, no âmbito da chamada Operação Marquês, indiciado por fraude fiscal qualificada, branqueamento de capitais e corrupção passiva para ato ilícito, tendo sido agora colocado em prisão domiciliária, cinco dias antes do final do prazo da reavaliação da medida de coação preventiva (9 de Setembro), sem que ainda tenha sido deduzida qualquer acusação.

Segundo a imprensa, o procurador Rosário Teixeira  «não promoveu a fiscalização da medida por meios eletrónicos», ainda que tivesse invocado o perigo de fuga, mas desta vez o juiz Carlos Alexandre decretou prisão domiciliária, sem pulseira eletrónica, por considerar que, «face à prova reunida desde a última reapreciação, se mostra reforçada a consolidação dos indícios, o que diminui o perigo de perturbação do inquérito». Os advogados de defesa de Sócrates já afirmaram ser «insuficiente» esta alteração na medida de coação imposta ao ex-primeiro-ministro e anunciaram que vão recorrer da decisão. 

As eleições legislativas decorrerão daqui a menos de um mês, mas nos próximos dias a notícia que irá marcar a atualidade gira em torno de José Sócrates e é inevitável que este assunto tenha impacto na campanha eleitoral. Apesar das cautelas dos partidos políticos que procuraram separar as águas entre o poder político e o poder judicial, ao contrário de Paulo Rangel que afirmou categoricamente que este estava instrumentalizado por aquele, o ruído permanecerá como pano de fundo até porque Sócrates tem afirmado que é um preso político e que o arrastamento de todo este processo tem como principal objetivo impedir que o partido socialista vença as próximas eleições.

O circo mediático está de novo montado no nº 33 da Rua Abade Faria, casa onde atualmente reside o ex-primeiro-ministro ̶  cujo exemplo acabado foi o episódio insólito do estafeta que transportava uma pizza para Sócrates  ̶  e não tardará a ser visitada por todos os seus amigos, por socialistas da ala socrática e não faltarão as habituais entrevistas à comunicação social. A garantia, aliás, já foi dada ontem mesmo por um dos seus advogados, João Araújo, em conferência de imprensa adiantando que o ex-primeiro-ministro vai «oportunamente» falar «de viva voz».  

Tudo isto, fatalmente, causará danos ao PS e a António Costa. Apesar de todos os esforços do líder socialista para se demarcar da Operação Marquês que envolve Sócrates, assegurando reiteradamente que a justiça e a política não devem confundir-se e que o período governativo que conduziu Portugal ao terceiro resgate financeiro não está desta vez sob escrutínio, porque já foi objeto de sufrágio, a presença do ex-primeiro-ministro sobrepor-se-á a tudo o mais.