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Narrativa Diária

Não escrever um romance na «horizontal», com a narrativa de peripécias que entretêm. Escrevê-lo na «vertical», com a vivência intensa do que se sente e perturba. Vergílio Ferreira

Narrativa Diária

Não escrever um romance na «horizontal», com a narrativa de peripécias que entretêm. Escrevê-lo na «vertical», com a vivência intensa do que se sente e perturba. Vergílio Ferreira

19
Jun17

Quando a tragédia e as suas vitimas se transformam num reality show

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«Está aqui um corpo ao meu lado que ainda não foi recolhido apesar dos Bombeiros estarem muito perto», Judite de Sousa, TVI.

 

É verdade que os jornalistas merecem toda a nossa gratidão. Afinal prestam-nos um serviço inestimável: informam, reportam e explicam os acontecimentos, muitas vezes em condições adversas como no caso dos fogos que têm assolado o país.

 

Mas, infelizmente, nem todos os profissionais tem a melhor postura e sabem comportar-se adequadamente face às várias situações. A alguns jornalistas, desgraçadamente, falta-lhes bom senso e as noções deontológicas mais elementares. Foi o caso desta  reportagem da jornalista Judite de Sousa, Diretora-Adjunta de Informação da TVI, que foi tudo menos jornalismo. Foi algo inqualificável.

18
Jun17

Incêndio de Pedrogão Grande

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Ontem à noite fomos surpreendidos com esta tragédia descomunal. Fiquei perplexa quando começaram a passar em rodapé na televisão a notícia de que o incêndio de Pedrogão Grande tinha já vitimado 19 pessoas. Infelizmente este número tem vindo a aumentar e já foram contabilizadas 62 vítimas mortais.

 

As vítimas foram surpreendidas pelas chamas e encurraladas pelo incêndio, quando regressavam a casa. Vários corpos foram encontrados fora das viaturas ou nas margens da estrada, o que sugere que tentaram fugir das chamas, embora sem sucesso. Há ainda 54 feridos, cinco deles em estado grave.

 

Cerca de 700 homens estão no terreno a combater as chamas que atingem os concelhos de Pedrógão Grande, Figueiró dos Vinhos e Castanheira de Pêra, com quatro frentes de fogo ativas, duas delas de grande dimensão.

 

É natural que perante um incêndio com estas proporções, o mais mortal de sempre em Portugal, desde que há registos, e um dos maiores da história recente do país, procuremos entender as causas que estiveram na sua origem.

 

Porém, ainda é cedo para determinar, com rigor, as razões deste incêndio. Tudo indica que possa ter tido origem num conjunto de condições climatéricas particularmente adversas. As altas temperaturas, acima dos 40 graus, o vento que se fez sentir, a pouca humidade e uma «trovoada seca» poderão ter contribuído para este desfecho.

 

Para já parece estar afastada a hipótese de mão criminosa, mas como disse ainda é cedo para se perceber o que realmente aconteceu.

 

Por agora, o que interessa, no imediato, é extinguir o incêndio, tratar dos feridos, apoiar vítimas e familiares, auxiliar e render homenagem aos bombeiros que estão há horas no terreno a combater as chamas, saudar o esforço dos civis e a capacidade de reação das autoridades locais e nacionais.

 

Mas depois espero, sinceramente, que se apurem todas as responsabilidades até à exaustão e que se tomem as medidas adequadas para que uma tragédia como esta não se volte a repetir.

04
Set13

A Indústria dos Incêndios

«A evidência salta aos olhos: o país está a arder porque alguém quer que ele arda. Ou melhor, porque muita gente quer que ele arda. Há uma verdadeira indústria dos incêndios em Portugal. Há muita gente a beneficiar, directa ou indirectamente, da terra queimada. Oficialmente, continua a correr a versão de que não há motivações económicas para a maioria dos incêndios. Oficialmente continua a ser dito que as ocorrências se devem a negligência ou ao simples prazer de ver o fogo. A maioria dos incendiários seriam pessoas mentalmente diminuídas.

 Mas a tragédia não acontece por acaso. Vejamos:

1 - Porque é que o combate aéreo aos incêndios em Portugal é TOTALMENTE concessionado a empresas privadas, ao contrário do que acontece noutros países europeus da orla mediterrânica?

Porque é que os testemunhos populares sobre o início de incêndios em várias frentes imediatamente após a passagem de aeronaves continuam sem investigação após tantos anos de ocorrências?

Porque é que o Estado tem 700 milhões de euros para comprar dois submarinos e não tem metade dessa verba para comprar uma dúzia de aviões Cannadair?

Porque é que há pilotos da Força Aérea formados para combater incêndios e que passam o Verão desocupados nos quartéis?

Porque é que as Forças Armadas encomendaram novos helicópteros sem estarem adaptados ao combate a incêndios? Pode o país dar-se a esse luxo?

2 - A maior parte da madeira usada pelas celuloses para produzir pasta de papel pode ser utilizada após a passagem do fogo sem grandes perdas de qualidade. No entanto, os madeireiros pagam um terço do valor aos produtores florestais. Quem ganha com o negócio? Há poucas semanas foi detido mais um madeireiro intermediário na Zona Centro, por suspeita de fogo posto. Estranhamente, as autoridades continuam a dizer que não há motivações económicas nos incêndios...

3 - Se as autoridades não conhecem casos, muitos jornalistas deste país, sobretudo os que se especializaram na área do ambiente, podem indicar terrenos onde se registaram incêndios há poucos anos e que já estão urbanizados ou em vias de o ser, contra o que diz a lei.

4 - À redacção da SIC e de outros órgãos de informação chegaram cartas e telefonemas anónimos do seguinte teor: "enquanto houver reservas de caça associativa e turística em Portugal, o país vai continuar a arder". Uma clara vingança de quem não quer pagar para caçar nestes espaços e pretende o regresso ao regime livre.

5 - Infelizmente, no Norte e Centro do país ainda continua a haver incêndios provocados para que nas primeiras chuvas os rebentos da vegetação sejam mais tenros e atractivos para os rebanhos. Os comandantes de bombeiros destas zonas conhecem bem esta realidade.

 

Há cerca de um ano e meio, o então ministro da Agricultura quis fazer um acordo com as direcções das três televisões generalistas em Portugal, no sentido de ser evitada a transmissão de muitas imagens de incêndios durante o Verão. O argumento era que, quanto mais fogo viam no ecrã, mais os incendiários se sentiam motivados a praticar o crime... 

Participei nessa reunião. Claro que o acordo não foi aceite, mas pessoalmente senti-me indignado. Como era possível que houvesse tantos cidadãos deste país a perder o rendimento da floresta - e até as habitações - e o poder político estivesse preocupado apenas com um aspecto perfeitamente marginal? 

Estranhamente, voltamos a ser confrontados com sugestões de responsáveis da administração pública no sentido de se evitar a exibição de imagens de todos os incêndios que assolam o país.

Há uma indústria dos incêndios em Portugal, cujos agentes não obedecem a uma organização comum mas têm o mesmo objectivo - destruir floresta porque beneficiam com este tipo de crime.

Estranhamente, o Estado não faz o que poderia e deveria fazer:

1 - Assumir directamente o combate aéreo aos incêndios o mais rapidamente possível. Comprar os meios, suspendendo, se necessário, outros contratos de aquisição de equipamento militar.

2 - Distribuir as forças militares pela floresta, durante todo o Verão, em acções de vigilância permanente. (Pelo contrário, o que tem acontecido são acções pontuais de vigilância e combate às chamas).

3 - Alterar a moldura penal dos crimes de fogo posto, agravando substancialmente as penas, e investigar e punir efectivamente os infractores

4 - Proibir rigorosamente todas as construções em zona ardida durante os anos previstos na lei.

5 - Incentivar a limpeza de matas, promovendo o valor dos resíduos, mato e lenha, criando centrais térmicas adaptadas ao uso deste tipo de combustível.

6 - E, é claro, continuar a apoiar as corporações de bombeiros por todos os meios.

 

Com uma noção clara das causas da tragédia e com medidas simples mas eficazes, será possível acreditar que dentro de 20 anos a paisagem portuguesa ainda não será igual à do Norte de África. Se tudo continuar como está, as semelhanças físicas com Marrocos serão inevitáveis a breve prazo».

 

 Por José Gomes Ferreira

2013-08.29