Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Narrativa Diária

Não escrever um romance na «horizontal», com a narrativa de peripécias que entretêm. Escrevê-lo na «vertical», com a vivência intensa do que se sente e perturba. Vergílio Ferreira

Narrativa Diária

Não escrever um romance na «horizontal», com a narrativa de peripécias que entretêm. Escrevê-lo na «vertical», com a vivência intensa do que se sente e perturba. Vergílio Ferreira

16
Out17

Portugal a arder

 

 

mw-1920.jpg

 

15 de outubro de 2017, trinta graus foi a temperatura média do ar. Mais de 500 fogos ativos fizeram deste dia o «pior dia de incêndios do ano», segundo as palavras da porta-voz da Proteção Civil.

 

Depois de casas ardidas e aldeias evacuadas, a notícia de que haverá pelo menos 11 mortos, segundo informação avançada pela SIC Notícias. Entretanto o Correio da Manhã noticiou que haverá pelo menos 20 mortos, uma informação que a Proteção Civil não descarta.

 

Entretanto,  vinte e cinco estradas das regiões do Norte e Centro estavam hoje de manhã cortadas ao trânsito na sequência dos incêndios que estão a afetar várias zonas do país.

 

O calor excessivo que se tem feito sentir neste outono e a seca extrema, muito para além dos valores desejáveis para a época do ano, serão certamente uma das explicações possíveis,  mas não será a única.

 

Mão criminosa, essa desconfiança permanente que paira sempre há fogos, gente a enriquecer com a destruição da floresta, delapidando o património ambiental  e negligenciando a dimensão da tragédia das pessoas que nela vivem ou dela dependem para sobreviver.

 

E esta sensação de impotência do poder executivo para mudar o estado das coisas e a terrível impunidade vigente na sociedade portuguesa que nos revolta e entristece sempre que se verificam estas tragédias.

26
Jul17

Oportunismo mórbido

 20264745_10155447498888376_2977252219004788755_n.j

É vergonhoso o aproveitamento político que os partidos da Direita e alguma comunicação social estão a fazer com as vítimas do incêndio de Pedrogão.

 

A grande preocupação incide agora sobre a contabilidade dos mortos. Sobre a divulgação das listas com os nomes. É aberrante e doentia a obsessão com a devassa até das mortes. Parece que vale tudo. Nada nem ninguém merece respeito. Nem a memória dos mortos nem a as suas famílias.

 

Mas porventura existirá alguém interessado em esconder mortos? Por que o fariam e com que intenção? Será credível que as autoridades governamentais, depois de reconhecerem com base nas informações recolhidas e que lhe foram transmitidas, um número tão extraordinário como 64 vítimas, teriam interesse em esconder mais mortes, se comprovadas?

 

Interessante foi também o ultimato feito pelo PSD ao governo, através de Hugo Soares,  para a divulgação da lista de pessoas que  faleceram no incêndio de Pedrógão Grande com a ameaça de um pedido de urgência de uma reunião de líderes na AR.

 

Que dizer em relação a mais esta trapalhada de um partido (e do seu novo líder parlamentar), que deveria ter sentido de Estado e demonstrar que como maior partido da oposição é responsável.

 

Mas mais uma vez se veio a verificar o oportunismo político deste PSD que até das vítimas do infausto acontecimento se serviu, para tentar tirar dividendos políticos.

 

Só a silly season e a aproximação do período eleitoral justificam este desvario. Bem sei que o Diabo não dá sinais, mas socorrerem-se do inferno dos fogos também não parece uma boa estratégia.

19
Jul17

Por que não se acaba com o SIRESP?

 

1141352.jpg

Um mês depois da tragédia de Pedrogão Grande, o Sistema Integrado de Redes de Emergência e Segurança de Portugal (SIRESP) usado pela polícia, pelos bombeiros e por outras autoridades nacionais voltou a mostrar fragilidades em Alijó, tendo sido notícia nos últimos anos pelas falhas graves e gastos dispendiosos com a sua manutenção.

 

Quando falamos do SIRESP estamos a falar de uma operadora da Rede Nacional de Emergência e Segurança resultante da parceria público-privada promovida pelo Ministério da Administração Interna que tem como missão a conceção, fornecimento, montagem, construção, gestão e manutenção do Sistema Integrado de Redes de Emergência e Segurança de Portugal.

 

O maior acionista do SIRESP, com 33%, é a Galilei, outrora Sociedade Lusa de Negócios (SLN). Os outros acionistas são a PT Ventures (detida pela Altice), a Motorola, a Esegur (sociedade da CGD e do Novo Banco, então BES) e a Datacomp, uma tecnológica também pertencente à estrutura SLN/Galilei.

 

Desde a assinatura do acordo, no início de 2006, e até ao final de 2014, este sistema de comunicação nacional custou aos cofres do Estado 270 milhões de euros (IVA excluído).

 

A instalação do sistema começou por ser um projeto pensado e proposto por um Grupo de Trabalho constituído durante o governo de António Guterres.  A seguir, o governo do Santana Lopes adjudicou o contrato, já em gestão (o projeto viria a ser aprovado pelo ex-gestor da Plêiade, ligado à SLN e ao BPN, e ex-ministro do Governo PSD-CDS, Daniel Sanches, três dias depois da derrota destes dois partidos nas legislativas de 2005). Por fim, António Costa, então ministro da Administração Interna de José Sócrates, chegou a manifestar a intenção de rever as negociações iniciadas pelos executivos anteriores, decretando que fosse anulada a adjudicação do contrato, tendo por base um parecer da Procuradoria-geral da República. Mas acabou por fechar o contrato por 485,5 milhões de euros em maio de 2016 (52,5 milhões abaixo do valor adjudicado em fevereiro desse ano pelo ministro social-democrata Daniel Sanches).

 

Em 2006, o Tribunal de Contas concluiu que foram «claramente violadas as normas» do contrato de adjudicação do SIRESP. Uma violação «suscetível de se repercutir negativamente no resultado financeiro do contrato» e que fundamentava uma eventual recusa de visto. Porém, os juízes do Tribunal de Contas optararam por visar o contrato com recomendações, salientando as várias fragilidades do negócio.

 

Nesse ano, o Ministério Público chegou a abrir um inquérito à adjudicação feita por Daniel Sanches, mas dois anos depois foi arquivada. Entretanto, a SLN transformou-se em Galilei e prossegue a atividade empresarial. Um dos ativos do Grupo Galilei é a Datacomp, empresa de tecnologias de informação que detém uma participação de 9,55% na estrutura acionista do SIRESP. Com a privatização da Portugal Telecom, o Governo de então entregava a uma empresa privada a sua rede de comunicações, com todos os riscos que tal medida acarreta.

 

Após a tragédia de Pedrogão que vitimou 64 pessoas verificou-se um ‘passa-culpas’ entre entidades e governos, o que só contribuiu para agravar as desconfianças do SIRESP e aumentar o receio das populações perante os incêndios.O SIRESP continua a ser arma de arremesso entre o Governo e oposição.

 

Perante isto, é caso para perguntar, porque não se caba com o SIRESP? Um sistema que nunca cumpriu a função para a qual foi criado e que a a dimensão da tragédia de Pedrógão só cveio contribuir para por a descoberto as debilidades de um sistema de comunicação, que custou milhões aos cofres do Estado, mas que nunca se mostrou eficaz. Um processo de adjudicação intrincado que mostrou falhas graves logo na sua génese.

 

E como diz o povo: o que nasce torto, tarde ou nunca se endireita.

06
Jul17

Devem os ministros demitirem-se?

 

image_content_283541_20161028150832.jpg

Assunção Cristas pediu a demissão dos responsáveis pelas pastas da Defesa e da Administração Interna, na sequência do roubo de armas de Guerra em Tancos e da tragédia de Pedrógão Grande. Para a líder do CDS estes dois casos são exemplos da «crise de autoridade e de confiança», que fragilizam o país e para os quais têm de haver uma resposta.

 

Não querendo minimizar estes dois acontecimentos que na verdade são graves, como tive já oportunidade de referir, parece-me que em Portugal existe entre a classe política e alguma comunicação social a tendência de sempre que existe um problema de maior gravidade em qualquer área ou sector se levantar um coro de críticas ao governo, pedindo a cabeça do ministro da tutela.

 

É óbvio que as responsabilidades nos dois casos devem ser apuradas à exaustão e a culpa, se a houver, não pode morrer solteira, mas a demissão dos ministros para além do gáudio da oposição que benefícios trará ao país?

 

A demissão imediata seria certamente a saída mais fácil e mais cómoda para os eventuais responsáveis, porque livram-se de responsabilidades e caem no mundo do esquecimento, mas este não seria um ato de coragem, seria, pelo contrário, uma atitude de cobardia política, como aliás reconheceu a ministra da Administração Interna. Difícil é mesmo, quando algo acontece, ficar, arcar com as consequências, aceitar escrutínios sobre o que sucedeu e correu mal e, finalmente, depois de todo o balanço efetuado assumir ou não a decisão de se demitir. Parece-me que esta será a atitude correta.

 

Curiosamente ou talvez não, os que exigem a demissão dos ministros vangloriam-se com estas pequenas vitórias irrelevantes com a finalidade de fragilizar o governo  e assim alimentam a (baixa) política deste país.

28
Jun17

Juntos por Todos

2017-06-27-2017-06-27_220130.jpg

O MEO Arena recebeu ontem o concerto Juntos Por Todos, com transmissão ao vivo na RTP, SIC, TVI, em todas as rádios portuguesas e nas plataformas online. É a primeira vez que todas as televisões e rádios portuguesas garantem uma cobertura conjunta de um espetáculo. Sem dúvida um momento histórico.

 

A ajuda às vítimas dos fogos florestais de Pedrógão Grande e zonas limítrofes afetadas pelo flagelo conseguiu angariar um total de um milhão e 153 mil euros, dinheiro este que foi entregue à União das Misericórdias Portuguesas, com todos os artistas no palco e também os apresentadores dos três canais de televisão juntos.

 

O concerto encerrou com Salvador Sobral. Depois de uma interpretação intimista de A Case of You, de Joni Mitchel, o vencedor do festival da Eurovisão interpretou a canção que venceu o festival. Amar Pelos Dois  que foi entoada pelos 14 mil espectadores presentes no Meo Arena. Um momento muito emocionante e muito bonito.

 

Entretanto a meio do tema, e de forma surpreendente e inusitada, Salvador ao seu jeito, resolve mandar uma piada escatológica: «sempre que faço qualquer coisa vocês aplaudem. Vou mandar um peido para ver o que acontece». O público presente reagiu ao momento irreverente com palmas, gargalhadas, mas também com alguns assobios e naturalmente que as reações nas redes sociais não tardaram, com opiniões divididas.

27
Jun17

Suicídio Político

 

22578645_770x433_acf_cropped.jpg

Pedro Passos Coelho de visita a Pedrógão, acompanhado por deputados do PSD, declarou que o Estado falhou no apoio psicológico às vítimas do incêndio de Pedrógão Grande, adiantando ter tido conhecimento de que um suicídio terá ocorrido por falta desse apoio, situação entretanto negada pela Administração Regional de Saúde do Centro.

 

Como se percebe depois de 64 mortes num incêndio que coloca em causa o Estado e os serviços do Estado, só se compreende tal afirmação se a mesma fosse à "prova de bala". Não sendo, é uma afirmação grave, que um político minimamente responsável, sério e com sentido de Estado, nunca poderia proferir em direto.

 

Entretanto o provedor da Santa Casa da Misericórdia de Pedrogão Grande, João Marques, já fez mea culpa ao assumir que, involuntariamente, induziu Passos Coelho em erro e o líder do PSD já veio igualmente a público dizer que não devia ter divulgado uma informação que carecia de confirmação oficial.

 

Pedro Passos Coelho, um político experiente na comunicação política, não podia ter sido tão leviano. Mesmo que fosse o Provedor local a induzi-lo em erro, o líder do PSD devia ser o primeiro a exigir-lhe contenção, mas o oportunismo político fê-lo avançar e isso pode-lhe agora sair caro.

25
Jun17

Ainda os incêndios

1141688.jpg

 

Que o povo português é solidário já o sabíamos, mas a onda de solidariedade para com as vítimas dos incêndios de Pedrogão Grande superou todas as expectativas. Foram enviados alimentos, vestuário e produtos de primeira necessidade às aldeias afetadas e reforços de várias zonas do país e além-fronteiras.

 

Foram muitas as histórias comoventes que nos foram chegando daquela tragédia. Histórias de pavor e de aflição, de mães, de pais, de filhos, de avós, de tios. De quem partiu e de quem viu partir. De quem, de repente, viu-se sem nada. Dos que terão de recomeçar a reconstruir uma nova vida do zero. Há muita dor pelos que partiram, mas também para quem fica e que terá agora de renascer das cinzas.

 

Uma palavra de apreço aos bombeiros que, ano após ano, arriscam as suas vidas para salvar outras, numa luta incessante contra o fumo e os fogos que grassam em aldeias recônditas do país, sob temperaturas altíssimas.

 

Agora é tempo de tomar atitudes a outros níveis. Muito mais do que consequências políticas, espero que se tirem consequências e ensinamentos sobre a floresta. É preciso ouvir os entendidos na matéria, fazer a correta monitorização da gestão florestal e adequá-la às mudanças que os novos tempos trazem, não apenas nos que concerne à utilização dos solos, mas também no que toca às alterações climáticas.

 

É necessário apostar a montante na prevenção e não fazer apenas a gestão dos danos. A melhor forma que temos de honrar a memória das vítimas é mudar a forma como encaramos a floresta e a prevenção de incêndios.

19
Jun17

Quando a tragédia e as suas vitimas se transformam num reality show

19149223_1972974342933897_4090611478458512603_n.jp

 

«Está aqui um corpo ao meu lado que ainda não foi recolhido apesar dos Bombeiros estarem muito perto», Judite de Sousa, TVI.

 

É verdade que os jornalistas merecem toda a nossa gratidão. Afinal prestam-nos um serviço inestimável: informam, reportam e explicam os acontecimentos, muitas vezes em condições adversas como no caso dos fogos que têm assolado o país.

 

Mas, infelizmente, nem todos os profissionais tem a melhor postura e sabem comportar-se adequadamente face às várias situações. A alguns jornalistas, desgraçadamente, falta-lhes bom senso e as noções deontológicas mais elementares. Foi o caso desta  reportagem da jornalista Judite de Sousa, Diretora-Adjunta de Informação da TVI, que foi tudo menos jornalismo. Foi algo inqualificável.

18
Jun17

Incêndio de Pedrogão Grande

incendio_pedrogao_grande_foto_paulo_cunha_lusa_486

 

Ontem à noite fomos surpreendidos com esta tragédia descomunal. Fiquei perplexa quando começaram a passar em rodapé na televisão a notícia de que o incêndio de Pedrogão Grande tinha já vitimado 19 pessoas. Infelizmente este número tem vindo a aumentar e já foram contabilizadas 62 vítimas mortais.

 

As vítimas foram surpreendidas pelas chamas e encurraladas pelo incêndio, quando regressavam a casa. Vários corpos foram encontrados fora das viaturas ou nas margens da estrada, o que sugere que tentaram fugir das chamas, embora sem sucesso. Há ainda 54 feridos, cinco deles em estado grave.

 

Cerca de 700 homens estão no terreno a combater as chamas que atingem os concelhos de Pedrógão Grande, Figueiró dos Vinhos e Castanheira de Pêra, com quatro frentes de fogo ativas, duas delas de grande dimensão.

 

É natural que perante um incêndio com estas proporções, o mais mortal de sempre em Portugal, desde que há registos, e um dos maiores da história recente do país, procuremos entender as causas que estiveram na sua origem.

 

Porém, ainda é cedo para determinar, com rigor, as razões deste incêndio. Tudo indica que possa ter tido origem num conjunto de condições climatéricas particularmente adversas. As altas temperaturas, acima dos 40 graus, o vento que se fez sentir, a pouca humidade e uma «trovoada seca» poderão ter contribuído para este desfecho.

 

Para já parece estar afastada a hipótese de mão criminosa, mas como disse ainda é cedo para se perceber o que realmente aconteceu.

 

Por agora, o que interessa, no imediato, é extinguir o incêndio, tratar dos feridos, apoiar vítimas e familiares, auxiliar e render homenagem aos bombeiros que estão há horas no terreno a combater as chamas, saudar o esforço dos civis e a capacidade de reação das autoridades locais e nacionais.

 

Mas depois espero, sinceramente, que se apurem todas as responsabilidades até à exaustão e que se tomem as medidas adequadas para que uma tragédia como esta não se volte a repetir.

04
Set13

A Indústria dos Incêndios

«A evidência salta aos olhos: o país está a arder porque alguém quer que ele arda. Ou melhor, porque muita gente quer que ele arda. Há uma verdadeira indústria dos incêndios em Portugal. Há muita gente a beneficiar, directa ou indirectamente, da terra queimada. Oficialmente, continua a correr a versão de que não há motivações económicas para a maioria dos incêndios. Oficialmente continua a ser dito que as ocorrências se devem a negligência ou ao simples prazer de ver o fogo. A maioria dos incendiários seriam pessoas mentalmente diminuídas.

 Mas a tragédia não acontece por acaso. Vejamos:

1 - Porque é que o combate aéreo aos incêndios em Portugal é TOTALMENTE concessionado a empresas privadas, ao contrário do que acontece noutros países europeus da orla mediterrânica?

Porque é que os testemunhos populares sobre o início de incêndios em várias frentes imediatamente após a passagem de aeronaves continuam sem investigação após tantos anos de ocorrências?

Porque é que o Estado tem 700 milhões de euros para comprar dois submarinos e não tem metade dessa verba para comprar uma dúzia de aviões Cannadair?

Porque é que há pilotos da Força Aérea formados para combater incêndios e que passam o Verão desocupados nos quartéis?

Porque é que as Forças Armadas encomendaram novos helicópteros sem estarem adaptados ao combate a incêndios? Pode o país dar-se a esse luxo?

2 - A maior parte da madeira usada pelas celuloses para produzir pasta de papel pode ser utilizada após a passagem do fogo sem grandes perdas de qualidade. No entanto, os madeireiros pagam um terço do valor aos produtores florestais. Quem ganha com o negócio? Há poucas semanas foi detido mais um madeireiro intermediário na Zona Centro, por suspeita de fogo posto. Estranhamente, as autoridades continuam a dizer que não há motivações económicas nos incêndios...

3 - Se as autoridades não conhecem casos, muitos jornalistas deste país, sobretudo os que se especializaram na área do ambiente, podem indicar terrenos onde se registaram incêndios há poucos anos e que já estão urbanizados ou em vias de o ser, contra o que diz a lei.

4 - À redacção da SIC e de outros órgãos de informação chegaram cartas e telefonemas anónimos do seguinte teor: "enquanto houver reservas de caça associativa e turística em Portugal, o país vai continuar a arder". Uma clara vingança de quem não quer pagar para caçar nestes espaços e pretende o regresso ao regime livre.

5 - Infelizmente, no Norte e Centro do país ainda continua a haver incêndios provocados para que nas primeiras chuvas os rebentos da vegetação sejam mais tenros e atractivos para os rebanhos. Os comandantes de bombeiros destas zonas conhecem bem esta realidade.

 

Há cerca de um ano e meio, o então ministro da Agricultura quis fazer um acordo com as direcções das três televisões generalistas em Portugal, no sentido de ser evitada a transmissão de muitas imagens de incêndios durante o Verão. O argumento era que, quanto mais fogo viam no ecrã, mais os incendiários se sentiam motivados a praticar o crime... 

Participei nessa reunião. Claro que o acordo não foi aceite, mas pessoalmente senti-me indignado. Como era possível que houvesse tantos cidadãos deste país a perder o rendimento da floresta - e até as habitações - e o poder político estivesse preocupado apenas com um aspecto perfeitamente marginal? 

Estranhamente, voltamos a ser confrontados com sugestões de responsáveis da administração pública no sentido de se evitar a exibição de imagens de todos os incêndios que assolam o país.

Há uma indústria dos incêndios em Portugal, cujos agentes não obedecem a uma organização comum mas têm o mesmo objectivo - destruir floresta porque beneficiam com este tipo de crime.

Estranhamente, o Estado não faz o que poderia e deveria fazer:

1 - Assumir directamente o combate aéreo aos incêndios o mais rapidamente possível. Comprar os meios, suspendendo, se necessário, outros contratos de aquisição de equipamento militar.

2 - Distribuir as forças militares pela floresta, durante todo o Verão, em acções de vigilância permanente. (Pelo contrário, o que tem acontecido são acções pontuais de vigilância e combate às chamas).

3 - Alterar a moldura penal dos crimes de fogo posto, agravando substancialmente as penas, e investigar e punir efectivamente os infractores

4 - Proibir rigorosamente todas as construções em zona ardida durante os anos previstos na lei.

5 - Incentivar a limpeza de matas, promovendo o valor dos resíduos, mato e lenha, criando centrais térmicas adaptadas ao uso deste tipo de combustível.

6 - E, é claro, continuar a apoiar as corporações de bombeiros por todos os meios.

 

Com uma noção clara das causas da tragédia e com medidas simples mas eficazes, será possível acreditar que dentro de 20 anos a paisagem portuguesa ainda não será igual à do Norte de África. Se tudo continuar como está, as semelhanças físicas com Marrocos serão inevitáveis a breve prazo».

 

 Por José Gomes Ferreira

2013-08.29