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Narrativa Diária

Não escrever um romance na «horizontal», com a narrativa de peripécias que entretêm. Escrevê-lo na «vertical», com a vivência intensa do que se sente e perturba. Vergílio Ferreira

Narrativa Diária

Não escrever um romance na «horizontal», com a narrativa de peripécias que entretêm. Escrevê-lo na «vertical», com a vivência intensa do que se sente e perturba. Vergílio Ferreira

18
Out17

O discurso do Presidente da República teve consequências

 

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Finalmente a ministra da Administração Interna demitiu-se. Depois das palavras duras do Presidente da República, no seu discurso, parecia óbvio que a ministra já não teria grandes condições para se manter em funções.

 

Claro que a demissão de Constança Urbano de Sousa não vai recuperar as vidas humanas que se perderam nos quatro meses de incêndios. Mas, de certa forma, este foi o primeiro e único foco de incêndio que a ministra e o Governo conseguiram apagar.

 

Marcelo Rebelo de Sousa foi duro no puxão de orelhas ao Governo. Antes de pedir mudanças rápidas ao Executivo, o Chefe de Estado falou como cidadão: «Por muito que a frieza destes tempos cheia de números e chavões políticos convidem a banalizar, estes 100 mortos não mais sairão do meu pensamento, com o peso enorme na minha consciência como no meu mandato presidencial».

 

Para Marcelo, não há mais espaço para novas tragédias Exigiu ao Governo um «novo ciclo» que ponha na agenda a reforma da floresta e a prevenção de fogos como a prioridade, deixando claro que, se tal não acontecer, não hesitará em «exercer todos os seus poderes».

 

Mas disse mais, disse que tem de haver uma remodelação de responsáveis e exigiu ao Parlamento que se defina na moção de censura apresentada pelo CDS: «Se há, na Assembleia da República quem questione a atual capacidade do Governo para realizar estas mudanças inadiáveis e indispensáveis então que, nos termos da Constituição, esperemos que a Assembleia diga soberanamente se quer ou não manter este Governo».

 

Ao longo de todo o discurso, mesmo que de forma subliminar, o Presidente deixou várias críticas ao primeiro-ministro pela gestão política dos incêndios do fim-de-semana. Primeiro, numa mensagem sentida a falar para as pessoas afetadas pelos fogos afastando-se do registo usado na véspera pelo primeiro-ministro que se cingiu às medidas a adotar no futuro e que caiu mal na opinião pública.

 

Depois, perante o que aconteceu, Marcelo, o Presidente dos Afetos, fez jus ao epitáfio e pediu desculpas aos portugueses pelas vítimas dos incêndios, admitindo que houve falhas e que os portugueses não reconheceram nesses momentos segurança e confiança nos poderes do estado que não estiveram à altura dos acontecimentos.

 

Por fim, insistiu que os poderes públicos saíram «fragilizados» e quer que «o Governo retire todas, mas mesmo todas as consequências» tendo por base as conclusões do relatório da Comissão Técnica Independente. E pediu essa avaliação na discussão do Orçamento de 2018. «Se houver margens orçamentais, que se dê prioridade à floresta e a prevenção aos fogos», porque esta «é a última oportunidade para levarmos a sério a floresta» convertendo-a «em prioridade nacional». É preciso ter meios ou «será uma frustração nacional».

27
Set17

'Ti Celito'

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Marcelo Rebelo de Sousa foi a Luanda para assistir à posse do novo chefe de Estado angolano, João Loureço. Como já vem sendo habitual o Presidente da República tirou inúmeras selfies nos passeios que realizou por Luanda e mergulhou no Atlântico, acabado de chegar à capital angolana.

 

Mas se no meio do povo angolano ‘Ti Celito’ (nome por que é conhecido) foi recebido com abraços e afetos, a nível diplomático, apesar de Marcelo Rebelo de Sousa ter sido o único chefe de Estado europeu presente na ceromónia de investidura de João Lourenço, Portugal não figurou da lista de parceiros privilegiados por Angola, no discurso de tomada de posse do novo Presidente angolano.

 

O novo chefe de Estado, no seu primeiro discurso oficial, enumerou vários países que considera estratégicos para o governo angolano, como: «os Estados Unidos da América, República Popular da China, a Federação Russa, a República Federativa do Brasil, a índia, o Japão, a Alemanha, a Espanha, a Franca, a Itália, o Reino Unido, a Coreia do Sul e outros parceiros não menos importantes, desde que respeitem a nossa soberania», mas surpreendentemente, ou talvez não, não fez qualquer referência a Portugal, numa altura de tensão na relação entre os dois países, decorrente das investigações das autoridades portugueses a figuras do regime angolano.

 

Esta omissão a Portugal foi ainda mais notada, na medida em que Marcelo figurava como convidado de honra da cerimónia e de João Lourenço ter elencado o Reino Unido, a França, a Itália e Espanha como países europeus prioritários para as relações com Angola.

 

De sublinhar que a ida de Marcelo a Luanda tinha também por finalidade mitigar o clima de tensão entre os dois países, mas, tendo em conta a omissão de Portugal da lista de países com quem Angola quer contar para a sua estratégia governativa, a missão parece não ter corrido lá muito bem.

 

Marcelo, contudo, preferiu não comentar o discurso do seu homólogo angolano, afirmando que: «o fundamental é ter sentido, em todos os encontros, ontem e hoje, que o povo português é visto como um povo irmão e o Estado português é visto como um Estado irmão, relativamente ao povo e ao Estado angolano».

01
Set17

Cavaco Silva na Universidade de Verão do PSD

 

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O ex-presidente da República Cavaco Silva veio de Albufeira e interveio na Universidade de Verão do PSD que marcou a rentrée política do partido e que arrancou esta semana em Castelo de Vide.

 

Perante uma plateia de jovens do PSD, Cavaco lançou críticas veladas a Marcelo e ao Governo, arrasando a «verborreia frenética dos políticos» e aqueles que «piam» por jogada partidária. E afirmando que também há fake news em Portugal, não apenas «na América do senhor Trump».

 

Cavaco falou com a maior desfaçatez como se ele próprio não tivesse tido uma carreira política, como se ele não tivesse sido tudo o que um político  pode ser de mais relevante – ministro, primeiro-ministro e presidente da República.

 

Falou ainda como ele próprio não tivesse alimentado notícias falsas durante décadas, em todas as funções de governante que teve. Vê-lo a mencionar este assunto é, no mínimo, hilariante.

 

Quem não se lembra da famosa intentona de Belém? Em que um ex-assessor de Cavaco, Fernando Lima, acusou José Sócrates de vigiar Belém, vindo depois a provar-se que as suspeitas não tinham fundamento, ou a ocasião em que Cavaco assegurava ao país de que o BES estava sólido, persuadindo os cidadãos portugueses a participarem na operação de aumento de capital que, posteriormente, se revelou uma gigantesca fraude. Estas palavras de Cavaco aconteceram meras semanas antes de o BES ter falido.

 

Por tudo isto Cavaco na Universidade de Verão do PSD foi igual a ele próprio, como de resto a imprensa conservadora fez notar de forma cautelosa.

 

Cavaco apenas quis ajustar contas com o passado e foi essa mensagem negativa de revanchismo que passou a dezenas de jovens que ambicionam entrar na politica e que deveriam ter recebido uma mensagem de esperança no futuro

 

Devia ter ficado sossegado em Albufeira.

19
Mai17

Wishful thinking

 

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A economia portuguesa cresceu 2,8% no 1.º trimestre do ano, segundo o Instituto Nacional de Estatística (INE). Certamente embalado por esta onda de otimismo que tem assolado o país, o  Presidente da República referiu, numa conversa com deputados croatas, em Zagreb, que Portugal pode conseguir este ano um crescimento económico à volta de 3,2% e um défice de 1,4%.

 

As declarações  do Chefe de Estado foram captadas pela RTP que mais tarde interpelaram Marcelo sobre aqueles números. De salientar que o Governo previu um crescimento de 1,8%, Marcelo fala agora em 3,2%.

 

O Presidente da República diz que é apenas um dos cenários possíveis Portugal conseguir um défice mais baixo e um crescimento mais alto e que nunca divulgou estes dados porque «ninguém pode revelar uma realidade que não existe».

 

Pois é, mas uma coisa é desejar – desejamos todos – coisa bem diferente é acontecer. Convém não «embandeirar em arco» como o próprio Marcelo referiu há tempos a propósito do crescimento de 2,8% no 1º trimestre deste ano. 

 

 

28
Mar17

Aeroporto Cristiano Ronaldo

 

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A cerimónia de inauguração do aeroporto da Madeira com o nome de «Cristiano Ronaldo» está marcada para a próxima quarta-feira e contará com a presença de Marcelo Rebelo de Sousa e de António Costa, presidente da República e primeiro-ministro.

 

Contudo a escolha do nome do aeroporto feita pelo governo regional da Madeira, liderado por Miguel Albuquerque tem sido alvo de muitas críticas.

 

Se há muitos que defendem o nome do capitão da seleção outros, porém, criticam tal decisão. É o caso do embaixador e socialista Francisco Seixas da Costa que defende que aeroporto devia ter o nome de Alberto João Jardim.

 

Também Marcelo Rebelo de Sousa manifestou as suas dúvidas sobre a escolha e parte do PSD da Madeira defendia que a escolha recaísse em Alberto João Jardim, que liderou o governo regional da Madeira durante décadas.

 

Pois bem, eu não escolheria nem um nem outro, a minha preferência recaía em João Gonçalves Zarco que no ano de 1419 juntamente com Tristão Vaz Teixeira desembarcaram pela primeira vez no arquipélago da Madeira.

 

Mais tarde viriam a ser nomeados capitães-donatários nesta ilha – Zarco ficou com a capitania do Funchal e Vaz Teixeira com a do Machico –, com o objetivo de promover o seu povoamento e colonização.

 

Por este motivo, penso que o nome de «Gonçalves Zarco» assentaria que nem uma luva ao aeroporto do Funchal.

16
Fev17

Ainda o folhetim da Caixa Geral de Depósitos

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Já ninguém aguenta toda esta polémica em torno da CGD. Este folhetim da CGD que envolve Mário Centeno, Governo, Marcelo, António Domingues, Lobo Xavier e todos os partidos já cheira demasiado a chicana política.

 

É óbvio que o Governo geriu mal todo o processo de nomeação da antiga administração da CGD, assente no pressuposto de que um banco público pode ser gerido como um banco privado. Mas, em contrapartida, António Domingues, ao não perceber o que lhe era exigido enquanto presidente de um banco público, mostrou que não estava à altura do cargo para o qual tinha sido nomeado.

 

O caso já se arrasta há meses, mas há dias ganhou novo fôlego, graças a uns SMS comprometedores. Foram alegadamente mensagens trocadas entre Centeno e Domingues, que António Lobo Xavier levou a Marcelo, e que levaram Centeno a Belém e posteriormente a justificar-se perante os portugueses.

 

António Domingues já tinha deixado uma imagem muito negativa em todo este processo. Ao fazer chegar os SMS, ao Presidente da República, via António Lobo Xavier, piorou ainda mais a sua imagem e a do Conselheiro de Estado (que não devia ter-se prestado a tal papel).

 

O Presidente da República depois de ter dado o seu apoio a Mário Centeno e ao Governo, sentiu-se traído pelo ministro das Finanças, que lhe terá omitido as mensagens telefónicas que enviou a Domingues. Daí o comunicado da Presidência da República, que veio fragilizar ainda mais o ministro das Finanças, e a exigência de que Centeno se justificasse perante os portugueses, não obstante o apoio de Marcelo ao ministro, o que motivou a ira dos partidos da direita.

 

O PSD e o CDS, como habitualmente, continuaram a agitar a lama como se não tivessem, também eles, culpa neste processo (podiam ter resolvido a situação quando comandavam os destinos de Portugal, mas arrumaram o assunto para debaixo do tapete) e veem agora, quais virgens ofendidas, criticar o Governo.

 

São exatamente os mesmos que há tempos conviveram alegremente com as falsidades de Maria Luís Albuquerque no Parlamento que agora exigem a demissão de Mário Centeno e a divulgação das suas mensagens telefónicas. Pelo meio, como é evidente, tentam extrair dividendos políticos, ao mesmo tempo que fragilizam a Caixa Geral de Depósitos, põem em causa a sua recapitalização e ameaçam a estabilidade do sistema financeiro português.

 

Há casos assim em que, infelizmente, ninguém se sai bem na fotografia. 

24
Jan17

Marcelo: um ano de presidência

 

 

Marcelo Rebelo de Sousa tomou posse como Presidente da República há um ano. Marcelo, o presidente hiperativo teve uma agenda preenchidísssima no ano passado, a sua presença mediática foi praticamente diária.  

 

O «presidente dos afetos» inaugurou uma nova forma de exercer os seus poderes através de uma maior proximidade com os cidadãos e uma presença constante no espaço mediático.

 

Marcelo interpretou também de forma diferente a função presidencial e os poderes constitucionais com um acompanhamento contante da atividade governativa e parlamentar,  auscultando regularmente as instituições (partidos, confederações patronais e sindicais e o Conselho de Estado).

 

Realizou em 2016, 20 deslocações ao estrangeiro, três das quais foram visitas de Estado: a primeira  a Moçambique, e as outras  duas à Suíça e a Cuba – onde teve um encontro com Fidel Castro, um mês antes da morte do líder histórico cubano.

 

O Presidente da República ainda não sentiu necessidade de recorrer ao Tribunal Constitucional e utilizou três vezes o seu poder de veto, em relação a dois diplomas do parlamento sobre a gestação de substituição e a estatização dos transportes do Porto, os quais que acabariam por ser promulgados após alteração, bem como a um decreto do Governo sobre acesso a informação bancária.

23
Jan17

Balanço de um ano de Marcelo como Presidente

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Marcelo Rebelo de Sousa deu ontem a sua primeira grande entrevista  enquanto Presidente da República, agora que decorre um ano do seu mandato.

 

Marcelo defendeu, sem rebuço, o acordo de concertação social, tendo assumido que deu um forte contributo para a sua concretização. Quanto à descida da TSU, que PCP, BE, Verdes e PSD preparam-se para chumbar no Parlamento, Marcelo mostrou-se favorável, porquanto seria dado um sinal positivo para a economia e para o crescimento.

 

Questionado sobre a devolução de rendimentos, Marcelo respondeu com os números favoráveis da economia. Sublinhou que o investimento, as exportações e a formação de poupança são essenciais. E diz que o país precisa de um maior crescimento, adiantando que o défice deve ficar nos 2,2% do PIB, abaixo do valor histórico anunciado na semana passada por António Costa.

 

Quanto ao Novo Banco, disse que não cabia ao PR expressar nenhuma preferência, cabe ao BdP e ao Governo traçar os caminhos possíveis e há vários no entender do Marcelo, que acabou por dizer que preferia uma solução privada, sem custos para os contribuintes.

 

O que a entrevista do Presidente da República mostrou foi um Marcelo otimista, alinhado com as políticas do governo, manifestando nas entrelinhas que neste momento os interesses de ambos são convergentes. Defendeu a estabilidade governativa até final da legislatura, bem como da da oposição.

 

Assim, a menos que surja algo imprevisível, o governo pode dormir descansado e contar com o respaldo do Presidente. Pelo menos nos próximos tempos, a popularidade e a capacidade política de António Costa dependerá da forma como conseguir adaptar a agenda do governo aos interesses do Presidente da República.

 

Finalmente dizer que não gostei da forma agressiva com que os entrevistadores, Ricardo Costa e Bernardo Ferrão, interpelaram Marcelo. Não havia necessidade de serem tão cáusticos, nem de interromperem a despropósito o raciocínio do entrevistado, já que se não se tratava de um candidato eleitoral ou de um primeiro-ministro, tratava-se tão somente de fazer um balanço de um ano de Marcelo Rebelo de Sousa, enquanto Presidente da República.

27
Dez16

Marcelo reage à morte de George Michael

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O Presidente da República publicou esta segunda-feira na página oficial da Presidência uma nota onde lamenta a morte de George Michael, a quem classifica como «um compositor versátil e talentoso, com uma carreira de inequívoca qualidade».

 

Uma coisa era ter dito uma ou duas palavras de circunstância, coisa diferente é usar a página oficial da Presidência da República para lamentar a morte do cantor e, neste ponto tenho que concordar com Miguel Sousa Tavares que considerou este procedimento «deslocado e ridículo».

 

Sousa Tavares considera, ainda, que o estilo do Presidente da República «pode um dia voltar-se contra o próprio. A grande diferença entre Marcelo o comentador e Marcelo o Presidente é que antes o ouvíamos uma vez por semana e agora todos os dias. E também não acho que ninguém tenha de ter uma opinião todos os dias, não acho saudável. Acho que é uma hiperatividade que um dia pode ser prejudicial ao Presidente, no dia em que precisar de marcar uma diferença».

 

De facto, Marcelo, certamente fruto da sua agenda sobrecarregada, não parou para refletir que inaugurar padarias, falar sobre o fecho de teatros, emitir opiniões sobre morte de cantores pop, são atribuição que não cabem, nem devem caber, no âmbito das funções do Presidente da República.

 

Marcelo está, quanto a mim, a banalizar a função presidencial e, a continuar assim, corre o risco de cair na situação do seu antecessor, ainda que por razões opostas, ou seja, passar a figura decorativa, o que seria uma pena, porque Marcelo reune todas as condições para exercer o cargo com a dignidade que ele merece.