Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Narrativa Diária

Não escrever um romance na «horizontal», com a narrativa de peripécias que entretêm. Escrevê-lo na «vertical», com a vivência intensa do que se sente e perturba. Vergílio Ferreira

Narrativa Diária

Não escrever um romance na «horizontal», com a narrativa de peripécias que entretêm. Escrevê-lo na «vertical», com a vivência intensa do que se sente e perturba. Vergílio Ferreira

13
Jul17

«A crise é de António Costa ou de Passos Coelho?»

 

800.jpg

«O Governo de António Costa teve o seu momento mais difícil nas últimas semanas com a tragédia de Pedrógão Grande, uma história caricata de roubo de material militar que podia ser contada por Raul Solnado e saída, depois de um ano desse tema esquecido, de três secretários de Estado por terem viajado a convite da Galp.

 

Nos dois primeiros temas, há ainda muito por explicar. Algo que comissões independentes, não saídas do Parlamento, deviam contribuir para clarificar. Quanto às demissões, e não pondo em causa a importância e méritos dos que saem, é uma questão moral e não criminal.

 

Se durante um ano o Governo teve inúmeras vitórias e resultados positivos numa conjugação astral que tudo empurrava para o bem, nestas últimas semanas parecia que era o Diabo, para o qual preconizava Passos Coelho a sua entrada em cena, que estava em acção. Mas o PSD ganhou alguma coisa com isso? Não.

 

António Costa em São Bento comandou sempre a agenda política, tornando penosa a vida dos sociais-democratas na oposição. Estes, assentaram arraiais em termos de oposição nas questões de finanças. Utilizando para o combate o próprio líder e Maria Luís Albuquerque que, juntamente com Vitor Gaspar, foram os principais rostos da austeridade e de uma enorme pressão fiscal imposta aos portugueses.

 

Isso revelou-se um erro. Delfim Netto, ex-ministro brasileiro, dizia que o órgão mais sensível do corpo humano é o bolso. E o que é certo e sem sofismas é que os portugueses têm a percepção que hoje estão menos amarrados a uma austeridade sem sentido e levam uma vida ligeiramente melhor. Essa é a maior bandeira de António Costa e Passos Coelho não pode combater esta percepção, e a percepção é muito mais importante que a realidade na acção política.

 

O que se passou nestes últimos dias fez-me lembrar um filme de Billy Wilder, “Ace in the Hole” (também conhecido por “Big Carnival”). Ali, Kirk Douglas é um jornalista à deriva, que tem a oportunidade da sua carreira quando um homem cai numa gruta. E em vez de apressar o seu salvamento concebe um plano de adiar o seu resgate para que as primeiras páginas dos jornais lhe dêem a fama que perseguia. Este mau momento do Governo foi a tábua de salvação de uma oposição que não sobe nas sondagens e da qual os portugueses estão cansados.

 

Sim, de repente a imprensa esqueceu-se que Rui Rio anda em périplo pelo País a arregimentar tropas, nas autárquicas as duas maiores cidades são um desastre anunciado e no interior do PSD foram visíveis o espanto e a crítica contra o novo líder parlamentar já escolhido. Se há fragilidade momentânea do Governo, há um estado comatoso do maior partido da oposição que está sem garra e sem causas. Parece triste, abúlico, na ânsia por renovação mas com medo de desafiar o líder.

 

No debate do Estado da Nação, Luís Montenegro atacou, dizendo que «o Estado está a colapsar». Mas se assim é, porque o PSD não cai no coração dos portugueses? É isso que na São Caetano não percebem. Porque não há antídoto visível contra os bons resultados económicos. António Costa está para durar, aprendam a lidar com ele.».

 

Texto de Rui Calafate, ECO

12
Jul17

Copy Paste

ppc.jpg

Hoje,quando discursava no Parlamento, aquando do debate da Nação, Passos Coelho usou várias passagens de uma publicação que o seu ministro-adjunto e do Desenvolvimento Regional, Miguel Poiares Maduro havia postado, ontem, no Facebook, sem nunca citar o seu autor.

 

Bem sei que Passos estava autorizado por Poiares Maduro a fazê-lo, porém, dado que o conteúdo do post foi publicado no facebook na véspera, ficava bem ao líder do PSD revelar a fonte. Seria certamente mais elegante.

16
Mai17

Economia cresce 2,8% no 1º trimestre

naom_56b308bcc7606.jpg

 

Portugal teve um crescimento do PIB de 2,8% nos primeiros três meses do ano. Segundo os dados do INE ontem revelados, há dez anos que o Produto Interno Bruto não crescia tanto num trimestre. Sem dúvida uma excelente notícia para Portugal e para os portugueses. O contributo do turismo nas exportações de bens e serviços mais elevado que as importações foi determinante assim como a aceleração do investimento.

 

Estes dados levaram vários especialistas a apontar para a hipótese de o País registar em 2017 um crescimento acima de 2%, valor superior às últimas previsões do Governo e do Banco de Portugal, que já tinham apontada para 1,8% o crescimento da economia.

 

O primeiro-ministro António Costa congratulou-se com este número e defendeu que o crescimento de 2,8% mostra que «a confiança dos portugueses não era infundada» e que a combinação de políticas «está adequada».

 

Já o Presidente da República manifestou-se «feliz» com os números divulgados pelo INE, mas pediu que «não se embandeire em arco» para que se consiga manter este valor ao longo do ano, para que Portugal possa crescer «claramente acima dos 2%».

 

O PSD e o CDS por seu turno regozijaram-se com o crescimento de 2,8 por cento da economia portuguesa, mas consideraram que se trata de uma recuperação que se deve às reformas realizadas pelo Governo anterior. Na perspetiva da Direita o tímido crescimento de 2016 foi obra do governo de Costa, mas o crescimento de 2,8 no primeiro trimestre de 2017 já foi graças às reformas implementadas no governo PSD/CDS?

 

Recapitulando: para a Direita tudo aquilo que acontecer de positivo na economia portuguesa será resultado do seu governo, aquilo que correr mal ou menos bem será sempre da responsabilidade da Geringonça, independentemente da cronologia dos factos. Estamos esclarecidos!

 

07
Abr17

A Entrevista de Passos

 

2016-10-04-passos-jn.jpg

 

A entrevista de Passos Coelho nas SIC foi politicamente desinteressante.  Percebe-se. O problema do discurso do PSD é o vazio que ele encerra. Como é que o PSD pode vir defender a classe média, quando lhe aplicou doses cavalares de austeridade? Como é que se é contra o aumento dos impostos, quando o próprio os aumentou de forma desmedida? Como é que se critica o governo, quando se tem telhados de vidro?

 

A certa altura Passos Coelho reconheceu que o Governo atingiu realmente a meta do défice, mas diz que isso só foi possível porque «mudou de estratégia e recorreu a medidas extraordinárias», que, para ele, seriam o tal Plano “B”.

 

Acontece que o défice ficou nos 2,1% e, mesmo sem as receitas extraordinárias que todos os governos aplicam, ficaria, segundo a insuspeita Unidade Técnica de Apoio ao Orçamento (UTAO) da Assembleia da República, pelos 2,4%. Diga-se, em abono da verdade, que tal aconteceu sem aumento da carga fiscal, pelo contrário, até houve uma queda ligeira. As contas agora parecem suficientemente consolidadas para o Conselho De Finanças Públicas de Teodora Cardoso avançar com uma previsão de 1,75 de défice para 2017.

 

Resumindo: a única mensagem clara desta entrevista foi para o interior do partido, ao avisar os seus adversários políticos que não se demite caso tenha um mau resultado autárquico. Quanto ao resto…. Foi mais do mesmo.

10
Mar17

Duelo Parlamentar

 

passos_debate-925x578.jpg

 

Pedro Passos Coelho e António Costa voltaram a ter um momento de elevada crispação com troca de acusações duras, respaldados nos líderes dos respetivos grupos parlamentares. Os SMS, as offshores, os números do crescimento e a igualdade de género, o governador do BdP foram assuntos que dominaram o debate

 

Passos Coelho acusou o primeiro-ministro de querer «enlamear o anterior governo» no caso dos offshores quando sobre esta matéria, na opinião do próprio, «não existe nada que envolva responsabilidade política» do gabinete que dirigiu durante quatro anos. O ex-primeiro-ministro foi até mais longe e acusou Costa de lançar insinuações sobre o governo PSD/CDS, lamentando que este não tenha pedido desculpas por essa atitude.

 

A frase motivou gargalhadas do primeiro-ministro que classificou como «desfaçatez» de Passos Coelho, quando o facto foi admito pelo próprio Paulo Núncio, reclamando igualmente um pedido de desculpas.

 

Para António Costa, «ficou claro» que Passos «não está satisfeito por o país viver um bom clima de cooperação entre os órgãos de soberania» e de «paz social», e rejeitou que haja um clima de «crispação na Assembleia da República». «O que há é uma bancada ressabiada», concluiu.

 

O tom crispado resvalou às bancadas dos dois principais partidos. E a prova disso chegou do lado dos líderes dos dois maiores grupos parlamentares, Luís Montenegro, do PSD, e Carlos César, do PS, os quais não abdicaram de deitar achas na fogueira num debate já muito quente.

 

Entre repetidos pedidos de defesa da honra, Luís Montenegro, um esmero em matéria de educação, veio acusar Costa de ser «mal-educado com aqueles que no parlamento representam os portugueses».

 

Carlos César saiu em defesa de Costa e assegurou que o PS se sentia «ofendido quando se transforma a Assembleia da República num espaço de insulto e de intolerância e num espaço de guerrilha mediática».

 

O nome do governador do Banco de Portugal veio inevitavelmente à baila, em particular devido ao chamado caso BES. António Costa, adotou neste caso uma postura institucional na abordagem do tema, como se exige aliás no exercício das funções que ocupa, limitando-se a recordar que o governador foi nomeado pelo anterior executivo e que nessa ocasião criticou o que achou por bem, mas na qualidade de líder do PS. Hoje, assegurou, trabalha «de forma leal e construtiva com as instituições que existem e que estão em funções».

 

O bate boca entre Passos e Costa e dos seus apaniguados no último debate parlamentar foi pouco edificante. Recorde-se que este tipo de linguagem que se iniciou com Durão Barroso com o célebre «país de tanga» tem feito escola. Em vez de se discutir os problemas reais do país e esgrimirem-se argumentos políticos, trocam-se estes 'mimos' na arena parlamentar.

 

Não admira, pois, que os portugueses estejam cada vez mais divorciados da política e que engrossem os números da abstenção.

26
Fev17

Paulo Núncio assume responsabilidade política no caso das offshores

card_maria_luis_albuquerque_paulo_nuncio_050515.jp

O antigo secretário de Estado dos Assuntos Fiscais Paulo Núncio assumiu ontem a sua «responsabilidade política» pela não publicação de dados relativos às transferências de dinheiro para offshores, pedindo o abandono das suas funções atuais no CDS-PP, depois de José Azevedo Pereira, responsável pela Autoridade Tributária à época, vir desmentir o Paulo Núncio, atribuindo-lhe a responsabilidade pela não publicação das estatísticas sobre transferências no valor de dez mil milhões de euros para offshores, o que prova que este não foi um caso de somenos, muito menos um facto politico criado pelo PS para desviar as atenções da CGD.

 

Todavia, a assunção de responsabilidades de Paulo Núncio, a meu ver, não isenta os ministros da tutela – Vítor Gaspar e Maria Luís Albuquerque – e até mesmo o ex-primeiro-ministro, Passos Coelho, de assumirem a sua quota-parte de responsabilidade no caso.

 

A Constituição da República é clara ao afirmar, taxativamente, que os secretários de Estado respondem perante o Ministro da Tutela e este, por sua vez, perante o Primeiro-Ministro e no âmbito da responsabilidade política do Governo perante a Assembleia da República.

 

Assim sendo, a responsabilidade política do secretário de Estado Paulo Núncio pertence não apenas ao próprio, mas também aos ministros de quem dependeu, são pois estes os responsáveis políticos que devem ser chamados a prestar contas perante a Assembleia da República.

19
Fev17

As quintas feiras de Cavaco

8296626_Uv0rP.jpeg

 

Não li o livro de Cavaco Silva, nem tenciono ler, mas a julgar por alguns excertos que vão saindo na imprensa, são ilustrativos e demonstram bem o carácter do seu autor. A começar pelo título: «quinta-feira e outros dias».

 

Cavaco igual a si próprio. Vingativo, mesquinho. O livro não é mais do que um ajuste de contas camuflado com Sócrates.

 

Segundo a imprensa, Cavaco descreve as reuniões sonolentas com Mário Soares; os reiterados atrasos de Sócrates, em quem Cavaco não acreditava; a pontualidade de Pedro Passos Coelho que aguardava calado as perguntas do Presidente, mas isso aos portugueses, pouco ou nada interessa. Há certamente outros assuntos que os portugueses gostavam de ver respondidos, falo por mim, nomeadamente: sobre a sua participação como acionista na SLN, a detentora do BPN ou por que razão deu falsas esperanças aos depositantes do BES, quando afirmou que podiam confiar no banco dado que as folgas de capital eram mais que suficientes para cobrir a exposição que o banco tem à parte não financeira?

 

Cavaco sempre quis passar a ideia de si próprio como a de um honesto estadista, rigoroso e cumpridor dos seus deveres, afinal estamos perante uma pessoa sem qualquer pingo de sentido de Estado, divulgando conversas privadas na praça pública, sem pudor ou respeito com as pessoas envolvidas.

 

Trata-se de um livro de um autor despeitado que será para sempre recordado como o pior Presidente da República Português, um presidente de fação que estimulou ódios e atiçou intrigas. Não admira que tenha sido o Presidente da República com a mais baixa taxa de popularidade da democracia portuguesa.

16
Jan17

Passos Coelho e a TSU

passos+coelho+tvi.jpg

 

Bem sabemos que a «coerência» em política é um termo que não tem grande credibilidade, já que os políticos afirmam, com uma enorme facilidade, uma coisa e o seu contrário.

 

Vem a propósito da descida da TSU para as empresas que está prevista no acordo de concertação social, como forma de compensá-las pelo aumento do Salário Mínimo Nacional. Tanto o BE como o PCP admitiram levá-la ao parlamento, caso o Governo insista na sua redução e Passos Coelho, espantem-se, também admitiu votar contra esta proposta ao lado dos partidos que apoiam a «geringonça», afirmando perentoriamente: «Não peçam o nosso apoio para isso. Se dentro da maioria não se entendem para resolver este problema e forem os próprios partidos da maioria a levar a questão à Assembleia da República, o nosso voto não têm. Isso que fique claro».

 

Independentemente da bondade da medida, e eu tenho algumas dúvidas da sua eficácia, certo é que Pedro Passos Coelho enquanto primeiro-ministro, sempre defendeu a descida da TSU para as empresas, ao mesmo tempo que baixava salários, com a justificação de fomentar a criação de postos de trabalho. É de facto surpreendente vir agora mudar de posição ao sabor do vento e das conveniências.

 

É que afinal Passos Coelho, pese embora a bandeirinha na lapela e a suposta pose de Estado que aparenta, não é senão é um líder fraco, que necessita de recorrer reiteradamente ao tacticismo e ao oportunismo político.

 

Ao alinhar com a extrema-esquerda parlamentar para derrotar o Governo, o PSD desrespeita o acordo de concertação social, à semelhança da CGTP — o único parceiro social a ficar fora do acordo de concertação —, mostrando ser uma oposição irresponsável, movida por ódios e vinganças, ficando assim responsável pela não aprovação da proposta no Parlamento.

17
Dez16

O PSD e as eleições autáquicas

ng7574555.jpg

Depois da recusa de Pedro Santana Lopes, o PSD continua à procura de candidato à Câmara de Lisboa para as próximas eleições autárquicas.

 

Nesta altura, é esta a maior dor de cabeça que Passos Coelho tem para resolver. Há nomes como José Eduardo Martins e Laurinda Alves a serem testados em sondagens internas, mas que não convencem os dirigentes e por isso não há ainda qualquer decisão sobre o candidato.

 

Entretanto começam a surgir vozes que defendem que Passos Coelho é a escolha certa para Lisboa. Uma dessas vozes foi do vice-presidente do PSD-Lisboa, Rodrigo Gonçalves, que reforçou a ideia que é preciso apresentar «o melhor dos melhores» à Câmara de Lisboa, defendendo por isso a aposta no ex-primeiro-ministro.

 

Há no entanto opiniões contrárias dentro do partido e que são públicas, com militantes que apontam para uma coligação com o CDS e ainda outros mais virados para que a escolha deva recair num independente de prestígio, apoiado pelo PSD.

 

Responsáveis do PSD contactados dizem que a resposta ao repto lançado por Rodrigo Gonçalves ao líder deve ser encontrada nas palavras de Carlos Carreiras: Pedro Passo Coelho «é candidato a primeiro-ministro e não é candidato a presidente da Câmara de Lisboa».

 

Entretanto vários jornais de referência dão como certo o apoio do PSD a Assunção Cristas. É inaceitável que o maior partido do parlamento não tenha um candidato credível para apresentar, tendo que ir a reboque do CDS. O facto de apoiar Cristas já constitui em si mesmo uma derrota. 

 

Uma coisa é certa: está criada a crispação entre distrital e concelhia. A distrital inclina-se para o apoio a Assunção Cristas, a concelhia nem quer ouvir falar nisso. Pelo meio, resta uma indefinição cada vez mais criticada dentro do partido e que só deverá ser desfeita quando Passos anunciar o candidato a Lisboa que terá o apoio do PSD.

 

Esta indefinição que paira em torno dos candidatos para as principais autarquias é o pano de fundo que está a servir a Rui Rio para tentar ganhar protagonismo, mas na sombra há outros  candidatos que vão marcando terreno, como Paulo Rangel, José Pedro Aguiar-Branco e Luís Montenegro.

 

O facto de o Congresso de 2018 ainda estar longe, de Passos Coelho ter ganhado as eleições legislativas e de não dar sinais de querer abandonar a liderança faz com que haja particular cautela na forma como dirigentes e militantes abordem a questão da liderança.

 

Há ainda muitos que acham que Passos Coelho só poderá cair caso perca as próximas legislativas. Mas o certo é que a desorientação nas autárquicas está a deixar o PSD nervoso, e uma derrota no próximo ato eleitoral poderá aumentar a pressão que já se faz sentir em torno da liderança.

31
Out16

A gritaria sobre o ordenado do Presidente da CGD

 img_817x460$2016_07_01_20_53_12_288775.jpg

«A gritaria centra-se no ordenado do novo Presidente, numa festa da demagogia própria de um país que continua a não gostar de ver uma camisa lavada a um pobre.

  1. Foram sete cães a um osso, como diz o povo e sem ofensa. O osso é a CGD, que se transformou pelas piores razões numa algazarra política e mediática que não só impede que se pense a sério sobre o assunto como ameaça deitar abaixo uma solução penosamente negociada em Bruxelas e que garantia, pela primeira vez, uma gestão estritamente profissional do banco, tirando-a do eterno abraço do Bloco Central. A gritaria centra-se no ordenado do novo Presidente, numa festa da demagogia própria de um país que continua a não gostar de ver uma camisa lavada a um pobre. Seguiu-se a defesa apaixonada do Estado de Direito, que ficaria lesado caso Domingues não entregasse no TC a sua declaração de rendimentos. O povo gosta. As consequências, essas, não são para aqui chamadas. Pelo contrário, a gritaria pode ajudar a esquecer coisas passadas e bastante incómodas para os partidos do anterior Governo.
  2. Passos Coelho é o primeiro responsável pelo que se está a passar. Deixou, com a cumplicidade da troika europeia, que o sistema bancário português mergulhasse numa crise profunda, alegadamente para cumprir a regra nº 1 do breviário neoliberal segundo a qual o Estado não tem nada a ver com o que se passa na banca. Em caso de falência, o problema é dela. Consegue dizer tranquilamente que o actual Governo está a dar cabo do sistema financeiro. A sua ideia sobre o banco público é que, provavelmente, nem sequer devia existir. E, em caso de existir, deveria ser “salvo” por capitais privados, para influenciar o accionista principal. Com que vantagem? Passos não actualizou o breviário, depois da queda do Lehman Brothers, em Setembro de 2008. A administração americana também disse que o assunto não era com ela e foi elogiada por deixar cair um dos maiores bancos de investimento do mundo. Só se pôde vangloriar uma semana. O resto da história, sabemo-la demasiado bem. Sabemos também que o sistema financeiro europeu está muito longe de ter os seus problemas resolvidos. Apenas a Inglaterra e os EUA já fizeram o que era preciso, com muito dinheiro público e regras novas (no caso americano).
  3. O Governo de Costa herdou uma situação próxima do colapso nos bancos. Era preciso salvar a Caixa com dinheiro público, contra as regras de Bruxelas sobre as ajudas de Estado. A argumentação foi difícil mas, coisa rara, teve ganho de causa. Pela primeira vez, a administração da instituição passou a ser inteiramente profissional. Acabaram as “Cardonas” (o CDS também teve direito à sua fatia do bolo) ou os “Varas”, fruto de uma regra não escrita segundo a qual a Caixa devia ser gerida por uma administração negociada entre PS e PSD: de preferência, um presidente do PSD quando o PS estava no Governo e vice-versa. Isto não quer dizer que alguns dos gestores que passaram pelo conselho de administração não fossem competentes. Houve-os, de facto. Mas a mácula partidária sempre pairou sobre as suas decisões. Da mesma maneira que houve sempre um debate político sobre se o Estado devia manter um banco público. São legítimas as diferentes posições. Mas a prudência foi sempre aconselhando a manutenção da Caixa nas mãos do Estado, e hoje por maioria de razão. A crise financeira acelerou o processo de internacionalização da banca privada, demasiado pequena e dispersa para sobreviver, passando a sua propriedade para capitais angolanos, chineses e espanhóis. Mas nada disso interessa. Interessa que a questão de fundo seja diluída em várias frentes de combate. E é exactamente o que está a acontecer. Depois do ordenado são as declarações de rendimentos dos gestores que devem ser entregues no Constitucional. Usam-se grandes palavras como o Estado de Direito e a democracia, embora haja pareceres jurídicos distintos. E, à falta de melhor, ainda há ao seu alcance uma qualquer comissão parlamentar de inquérito, em nome da transparência para pôr tudo em pratos limpos. Para retirar credibilidade à Caixa parece que vale tudo.
  4. Já quanto ao vencimento do presidente da Caixa, PPC esqueceu o breviário e juntou-se a Catarina Martins. Tem a legitimidade de quem é contra os bancos públicos e, portanto, os grandes ordenados devem ficar apenas para os privados. Assunção Cristas conseguiu, mesmo assim, ultrapassá-lo em matéria de demagogia, quando disse que um país com pensões tão baixas não podia permitir-se um salário desta natureza. Esqueceu-se do que o Governo a que pertenceu fez às pensões pequenas e remediadas, deixando um lastro de injustiça e de impotência que só mesmo quem o viveu pode testemunhar. Quanto ao polémico salário, com sorte António Domingues leva menos de 15 mil euros para casa. Seria preciso alguém que tivesse feito um voto de pobreza ou, então, ser absolutamente incompetente, para aceitar um ordenado inferior ao do Presidente. Também seria de desconfiar que o novo presidente chegasse à Caixa sem qualquer património, depois de uma carreira de 25 anos no BPI.
  5. É verdade que somos um país profundamente desigual em ternos europeus. Ainda não conseguimos vencer a armadilha da pobreza. Mantemos como herança um défice de educação que não existe na maioria dos nossos parceiros mais ricos. Temos um tecido empresarial onde predominam as pequenas empresas sem qualquer capacidade de gestão e muitas médias que sofrem do mesmo mal. Temos um salário mínimo que é uma vergonha, mas que terá de ser combatido a sério pelo aumento da produtividade do trabalho (mais tecnologia, mais educação, melhor gestão). Ficámos ainda mais pobres com esta crise que assentou o seu ajustamento na redução dos rendimentos do trabalho e das pensões. A decência é necessária mas a demagogia não. Não é o salário do presidente da Caixa que aumenta as desigualdades.
  6. E já que estamos à volta da Caixa, vale a pena recordar qual foi a reacção de muita gente quando o BCE resolveu vetar as escolhas de alguns dos administradores não executivos, que incluíam nomes tão respeitáveis e competentes como Leonor Beleza. As dúvidas levantadas em Frankfurt sobre a sua capacidade de gestão ou a recomendação de cursos acelerados no INSEAD é, pura e simplesmente, inadmissível. Mas deu imenso gozo a muita gente, sempre entusiasmada com a última chicotada que levamos da Europa, a confirmar como não valemos nada.

A irresponsabilidade é de tal ordem que ainda corremos o risco de ver a solução para a Caixa soçobrar, dando mais uma machadada na credibilidade ainda muito frágil do sistema financeiro. Vê-se e não se acredita. Ou então está aqui uma das explicações para nossa aparente incapacidade de criar uma sociedade mais ricas e mais igual.».

Teresa de Sousa - jornal Público