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Narrativa Diária

Não escrever um romance na «horizontal», com a narrativa de peripécias que entretêm. Escrevê-lo na «vertical», com a vivência intensa do que se sente e perturba. Vergílio Ferreira

Narrativa Diária

Não escrever um romance na «horizontal», com a narrativa de peripécias que entretêm. Escrevê-lo na «vertical», com a vivência intensa do que se sente e perturba. Vergílio Ferreira

06
Set17

«Passos perdido no seu labirinto»

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 «“Não aceitamos o ambiente de intolerância em que só se discute o futuro segundo a perspectiva do pensamento dominante”. Nesta frase, grave e grandiloquente, dita por Pedro Passos Coelho no encerramento da Universidade de Verão do PSD, cabem por inteiro os dramas da sua liderança e os fracassos da sua oposição. O que a marca não é tanto o horror do “ambiente de intolerância”, que existe e a cada passo vai dando um ar de guerra tribal à vida pública. O que a torna importante é o reconhecimento da impotência de Pedro Passos Coelho e do PSD em contrariar a “perspectiva do pensamento dominante”. Fora do poder, o principal partido da oposição admite que o domínio das palavras, das ideias ou dos projectos capazes de suscitar a atenção dos portugueses e de marcar o debate público não lhe pertence. O admirável país novo de António Costa é uma máquina oleada e à prova de bala-as sondagens confirmam-no.

 

Talvez seja o impulso desta impotência que leva alguns responsáveis do PSD a dizer em público o que nenhum militante social-democrata diria em privado há apenas meia dúzia de anos. Não estão apenas em causa as alarvidades de André Ventura em Loures sobre os ciganos ou sobre os imigrantes – que associa o partido ao perigo populista e xenófobo e manda às malvas o pouco que resta da doutrina personalista e humanista do velho PSD. A tolerância de Passos Coelho ao “ambiente de intolerância” em Loures é apenas o sintoma mais grave de um partido que pressente a necessidade de gritar para se fazer ouvir. Vejam-se as declarações de Paulo Rangel sobre uma alegada responsabilidade moral do Governo nas mortes de Pedrógão. Ou o tom rancoroso de Aníbal Cavaco Silva sobre os “pios” da esquerda na mesma universidade de Verão.

 

O PSD não domina o pensamento porque se afundou no ressentimento. Vários colunistas o disseram nos últimos dias e é a consequência dessa forma de vida que vale a pena reflectir. Porque o PSD, um partido crucial, deixou de ser uma mola influente na política. Tornou-se o bombo da festa. Este fim-de-semana, Pedro Nuno Santos lamentava ao Sol que, “ao fim destes dois anos”, o PSD “não tenha percebido nada do que está a acontecer em Portugal e continue a cometer erros”. No meio do cinismo, o novo guru da esquerda do PS tem razão. O PSD não deu conta que a aliança sagrada das esquerdas mudou radicalmente o quadro da política. Não percebeu que o “discurso dominante”, feito de facilidades e de paternalismo pagos pelos impostos, é música celestial para os portugueses. Não percebeu que o eleitorado tem a memória curta e detesta rebobinar os tempos da crise. Não percebeu que os portugueses precisavam de distensão. Que o diabo não virá enquanto a Europa crescer, o Banco Central Europeu ajudar e houver folga para redistribuir as verbas libertadas pela excepcional conjuntura da economia.

 

Neste desnorte, as ciladas que António Costa a cada passo organiza são sempre um sucesso. Quando o PSD é desafiado a fazer parte de consensos em matérias como os investimentos públicos ou os fundos comunitários, bem sabemos que em causa está uma provocação. Mas, nestes apelos cínicos à responsabilidade, o PSD não se pode remeter à condição birrenta dos partidos de protesto. Tem de ir a jogo, como aliás aqui explicou João Miguel Tavares. Tem de mostrar as suas ideias e as suas prioridades. Exigindo que os consensos sobre o betão se alarguem à Saúde, à Segurança Social ou à Justiça que, como Passos Coelho disse e bem, são reformas muito mais importantes para o futuro do que a discussão sobre mais estradas ou rotundas. Ao optar pela intransigência, Passos Coelho pode convencer os militantes mais radicais, sempre dispostos a ver a política como um braço-de-ferro para homens de fala grossa e barba rija. Mas dificilmente chegará ao eleitorado flutuante que, apreciando firmeza e ideias claras, exige principalmente que os partidos se empenhem na resolução dos problemas do país.

 

Passos Coelho, porém, não entende que a crítica sistemática e negativa é cimento para a consolidação do “pensamento dominante”. Ao barricar-se no contra e no queixume deixa-se ficar refém do lado menos útil da sua biografia política. Cola-se ao passado e desiste do futuro. O primeiro-ministro que governou na pior conjuntura económica em muitas décadas, que geriu o ajustamento inevitável, que, melhor ou pior, manteve um rumo que acabou na saída da troika em 2014 torna-se assim presa fácil dos clichés que a esquerda lhe vai colando. Passos é um dos mais preciosos activos do PS, do Bloco e do PCP porque se tornou um alvo parado num tempo que já acabou. É fácil o “pensamento dominante” colá-lo a um putativo excesso de austeridade aplicado por ideologia ou capricho. É fácil situá-lo como autor de uma governação que, por oposição à actual, fez questão de espremer os portugueses voluntária e gratuitamente.

 

Com o Bloco e o PCP a encherem com mestria o campo do poder e da oposição, o PSD devia olhar para o lado e ver como Assunção Cristas consegue temperar melhor a faceta contestatária com a faceta construtiva – ainda esta semana lá veio uma proposta para baixar o IRC. A melhor maneira de mostrar a suposta incongruência da “geringonça” seria provar que em questões essenciais como a da iniciativa privada, a do peso do Estado, a da responsabilidade fiscal ou das relações com a Europa, o PSD tem muito mais a dialogar com o PS do que o Bloco ou o PCP. E isso só se conseguiria se a direita liderada pelo PSD se assumisse “como motor reformista do país”, afirmando-se como uma alternativa “na apresentação de ideias inovadoras por sector, com bons think tanks ou até um governo sombra”, como escreveu por estes dias Alexandre Homem Cristo no Observador.

 

Ficando preso ao ressentimento, Pedro Passos Coelho afunda-se. Cada vez mais sozinho no PSD, a braços com escolhas duvidosas para as autárquicas, preso à imagem do neoliberal punitivo que queria erguer um Portugal novo a golpes de austeridade, carregando às costas menos-valias de um certo passado recente (com Cavaco Silva à cabeça), incapaz de articular um projecto coerente para o futuro, Passos parece perdido, abandonado e cansado. Um dia, quando a História se sobrepuser ao jornalismo, quando a propaganda sobre o passado recente se despir da emoção, talvez seja visto como o homem que salvou o país de um tormento como o da Grécia. Mas a política não se faz de profecias. Hoje, que é o que conta, Pedro Passos Coelho é um líder perdido no seu labirinto. No próximo congresso do PSD não deixará de haver quem lhe queira apontar a saída.».

 

Manuel Carvalho - Público

19
Ago17

Na mouche!

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«Esta semana, um tweet abalou as redes sociais. João Quadros, “humorista e homem de esquerda” partilhou com o mundo aquilo que considerou ser “uma boa piada” e rezava assim:

“Eu a pensar que só havia uma cabeça rapada em casa do Passos”.

Uma piada, para merecer o nome, tem de fazer rir. Francamente não conheço ninguém que tenha sequer esboçado um sorriso perante isto.

Eu, como mulher de esquerda, senti-me profundamente envergonhada. Acabrunhada, é a expressão certa.

O humor tem limites? É uma discussão interessante. Mas podemos começar por chegar a um acordo: o humor tem de ter graça. O Quadros tem o direito de escrever uma coisa destas?

Pois claro que tem. Isso nem está em causa. Terá também em consequência (e tem) arcabouço para lidar com as críticas.

Aquilo que mais me surpreendeu na “piada” do Quadros foi, como já disse, a falta dela (e ele até me costuma fazer rir) e depois, a flagrante falta de inteligência em se apresentar assim numa bandeja, nu e frágil, perante todos os seus inimigos ideológicos que, por norma, até são os meus. Essa parte custa muito.

E assim, com um tweet, mergulhou de cabeça no lodo dos porcos que sempre combateu. Tudo por uma “boa piada” que, lá está, foi tudo menos boa.

As redes sociais incendiaram-se, os insultos subiram de tom, ameaçaram-lhe o filho, prometeram-lhe tareia e, por uma “boa piada”, colocou-se ao nível de diálogo dos verdadeiros racistas, xenófobos e misóginos que por aí andam.

Uma boa piada não se explica, a não ser que não seja boa. Sendo que esta é péssima. Quadros devia explicá-la. E devia, em simultâneo, pedir desculpa a Laura Ferreira. Engolia o orgulho e fazia aquilo que, pressinto, saiba intimamente que deve fazer.

E agora Laura.

Porque no meio de tudo isto está uma mulher que não foi tida nem achada.

No meio disto, está uma mulher que se chama Laura Ferreira porque (facto público) nunca quis adoptar o nome do marido.

Chama-se Laura Ferreira, é mulher e negra. Encontra–se, por isso, no grupo de pessoas mais discriminadas por todo o globo. Nascer mulher já determina viver em desigualdade. Nascer mulher e negra sentencia uma dupla discriminação.

O que sei eu sobre Laura?

Pouco. Sabemos todos e todas muito pouco porque sempre optou por não se expor. Sei que é fisioterapeuta, nasceu na Guiné e é mãe de duas raparigas.

Sei que é doente oncológica e por isso perdeu o cabelo. E não o sei porque a própria o tenha partilhado publicamente. Sei-o porque por vezes lhe tiram fotos à socapa, invadindo a sua intimidade, lá está, por ser “mulher  de”.

Sei que tem um sorriso bonito porque das poucas vezes que aparece publicamente, está sempre a sorrir. E sei por intuição e empatia de vida que às vezes lhe deve ser muito difícil sorrir.

Laura Ferreira optou sempre por não cumprir um papel público e muito menos político. Não dá entrevistas, mal aparece (e sempre foi assim, não é de agora). Resguardou-se sempre. Recusou ser “mulher de”.

Quis ser apenas Laura. E é.

Tem por isso todo o direito a estar sossegada, a não ser incomodada.

E é também por isso miserável que possa servir de pretexto para ataques  ao marido.

E é também por isso que este tweet do Quadros me revoltou, entristeceu e envergonhou. É que aqui não pode haver dois pesos e duas medidas: se fosse o Sinel de Cordes ( “humorista e homem de direita”) a fazer esta piada, a esmagadora maioria dos meus amigos far-lhe-ia a folha em três segundos, nessas mesmas redes sociais.

Laura foi utilizada como punchline de uma “boa piada” – que é péssima by the way – para ser reduzida a “mulher de”.

Não é a primeira, nem será a última. “Mulher de”, “Filha de”, “Irmã de”, “Namorada de” reflexos de um sexismo latente numa sociedade estruturalmente machista. À esquerda, à direita, não me interessa. Machista.

Laura quis ser só Laura. E é.

Eu cá envio-lhe um abraço cúmplice e fico a aguardar (sentada) o pedido de desculpas que lhe ficam a dever, e através dela, no fundo, a todas nós.

Rita Ferro Rodrigues»

13
Jul17

«A crise é de António Costa ou de Passos Coelho?»

 

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«O Governo de António Costa teve o seu momento mais difícil nas últimas semanas com a tragédia de Pedrógão Grande, uma história caricata de roubo de material militar que podia ser contada por Raul Solnado e saída, depois de um ano desse tema esquecido, de três secretários de Estado por terem viajado a convite da Galp.

 

Nos dois primeiros temas, há ainda muito por explicar. Algo que comissões independentes, não saídas do Parlamento, deviam contribuir para clarificar. Quanto às demissões, e não pondo em causa a importância e méritos dos que saem, é uma questão moral e não criminal.

 

Se durante um ano o Governo teve inúmeras vitórias e resultados positivos numa conjugação astral que tudo empurrava para o bem, nestas últimas semanas parecia que era o Diabo, para o qual preconizava Passos Coelho a sua entrada em cena, que estava em acção. Mas o PSD ganhou alguma coisa com isso? Não.

 

António Costa em São Bento comandou sempre a agenda política, tornando penosa a vida dos sociais-democratas na oposição. Estes, assentaram arraiais em termos de oposição nas questões de finanças. Utilizando para o combate o próprio líder e Maria Luís Albuquerque que, juntamente com Vitor Gaspar, foram os principais rostos da austeridade e de uma enorme pressão fiscal imposta aos portugueses.

 

Isso revelou-se um erro. Delfim Netto, ex-ministro brasileiro, dizia que o órgão mais sensível do corpo humano é o bolso. E o que é certo e sem sofismas é que os portugueses têm a percepção que hoje estão menos amarrados a uma austeridade sem sentido e levam uma vida ligeiramente melhor. Essa é a maior bandeira de António Costa e Passos Coelho não pode combater esta percepção, e a percepção é muito mais importante que a realidade na acção política.

 

O que se passou nestes últimos dias fez-me lembrar um filme de Billy Wilder, “Ace in the Hole” (também conhecido por “Big Carnival”). Ali, Kirk Douglas é um jornalista à deriva, que tem a oportunidade da sua carreira quando um homem cai numa gruta. E em vez de apressar o seu salvamento concebe um plano de adiar o seu resgate para que as primeiras páginas dos jornais lhe dêem a fama que perseguia. Este mau momento do Governo foi a tábua de salvação de uma oposição que não sobe nas sondagens e da qual os portugueses estão cansados.

 

Sim, de repente a imprensa esqueceu-se que Rui Rio anda em périplo pelo País a arregimentar tropas, nas autárquicas as duas maiores cidades são um desastre anunciado e no interior do PSD foram visíveis o espanto e a crítica contra o novo líder parlamentar já escolhido. Se há fragilidade momentânea do Governo, há um estado comatoso do maior partido da oposição que está sem garra e sem causas. Parece triste, abúlico, na ânsia por renovação mas com medo de desafiar o líder.

 

No debate do Estado da Nação, Luís Montenegro atacou, dizendo que «o Estado está a colapsar». Mas se assim é, porque o PSD não cai no coração dos portugueses? É isso que na São Caetano não percebem. Porque não há antídoto visível contra os bons resultados económicos. António Costa está para durar, aprendam a lidar com ele.».

 

Texto de Rui Calafate, ECO

12
Jul17

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Hoje,quando discursava no Parlamento, aquando do debate da Nação, Passos Coelho usou várias passagens de uma publicação que o seu ministro-adjunto e do Desenvolvimento Regional, Miguel Poiares Maduro havia postado, ontem, no Facebook, sem nunca citar o seu autor.

 

Bem sei que Passos estava autorizado por Poiares Maduro a fazê-lo, porém, dado que o conteúdo do post foi publicado no facebook na véspera, ficava bem ao líder do PSD revelar a fonte. Seria certamente mais elegante.

16
Mai17

Economia cresce 2,8% no 1º trimestre

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Portugal teve um crescimento do PIB de 2,8% nos primeiros três meses do ano. Segundo os dados do INE ontem revelados, há dez anos que o Produto Interno Bruto não crescia tanto num trimestre. Sem dúvida uma excelente notícia para Portugal e para os portugueses. O contributo do turismo nas exportações de bens e serviços mais elevado que as importações foi determinante assim como a aceleração do investimento.

 

Estes dados levaram vários especialistas a apontar para a hipótese de o País registar em 2017 um crescimento acima de 2%, valor superior às últimas previsões do Governo e do Banco de Portugal, que já tinham apontada para 1,8% o crescimento da economia.

 

O primeiro-ministro António Costa congratulou-se com este número e defendeu que o crescimento de 2,8% mostra que «a confiança dos portugueses não era infundada» e que a combinação de políticas «está adequada».

 

Já o Presidente da República manifestou-se «feliz» com os números divulgados pelo INE, mas pediu que «não se embandeire em arco» para que se consiga manter este valor ao longo do ano, para que Portugal possa crescer «claramente acima dos 2%».

 

O PSD e o CDS por seu turno regozijaram-se com o crescimento de 2,8 por cento da economia portuguesa, mas consideraram que se trata de uma recuperação que se deve às reformas realizadas pelo Governo anterior. Na perspetiva da Direita o tímido crescimento de 2016 foi obra do governo de Costa, mas o crescimento de 2,8 no primeiro trimestre de 2017 já foi graças às reformas implementadas no governo PSD/CDS?

 

Recapitulando: para a Direita tudo aquilo que acontecer de positivo na economia portuguesa será resultado do seu governo, aquilo que correr mal ou menos bem será sempre da responsabilidade da Geringonça, independentemente da cronologia dos factos. Estamos esclarecidos!

 

07
Abr17

A Entrevista de Passos

 

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A entrevista de Passos Coelho nas SIC foi politicamente desinteressante.  Percebe-se. O problema do discurso do PSD é o vazio que ele encerra. Como é que o PSD pode vir defender a classe média, quando lhe aplicou doses cavalares de austeridade? Como é que se é contra o aumento dos impostos, quando o próprio os aumentou de forma desmedida? Como é que se critica o governo, quando se tem telhados de vidro?

 

A certa altura Passos Coelho reconheceu que o Governo atingiu realmente a meta do défice, mas diz que isso só foi possível porque «mudou de estratégia e recorreu a medidas extraordinárias», que, para ele, seriam o tal Plano “B”.

 

Acontece que o défice ficou nos 2,1% e, mesmo sem as receitas extraordinárias que todos os governos aplicam, ficaria, segundo a insuspeita Unidade Técnica de Apoio ao Orçamento (UTAO) da Assembleia da República, pelos 2,4%. Diga-se, em abono da verdade, que tal aconteceu sem aumento da carga fiscal, pelo contrário, até houve uma queda ligeira. As contas agora parecem suficientemente consolidadas para o Conselho De Finanças Públicas de Teodora Cardoso avançar com uma previsão de 1,75 de défice para 2017.

 

Resumindo: a única mensagem clara desta entrevista foi para o interior do partido, ao avisar os seus adversários políticos que não se demite caso tenha um mau resultado autárquico. Quanto ao resto…. Foi mais do mesmo.

10
Mar17

Duelo Parlamentar

 

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Pedro Passos Coelho e António Costa voltaram a ter um momento de elevada crispação com troca de acusações duras, respaldados nos líderes dos respetivos grupos parlamentares. Os SMS, as offshores, os números do crescimento e a igualdade de género, o governador do BdP foram assuntos que dominaram o debate

 

Passos Coelho acusou o primeiro-ministro de querer «enlamear o anterior governo» no caso dos offshores quando sobre esta matéria, na opinião do próprio, «não existe nada que envolva responsabilidade política» do gabinete que dirigiu durante quatro anos. O ex-primeiro-ministro foi até mais longe e acusou Costa de lançar insinuações sobre o governo PSD/CDS, lamentando que este não tenha pedido desculpas por essa atitude.

 

A frase motivou gargalhadas do primeiro-ministro que classificou como «desfaçatez» de Passos Coelho, quando o facto foi admito pelo próprio Paulo Núncio, reclamando igualmente um pedido de desculpas.

 

Para António Costa, «ficou claro» que Passos «não está satisfeito por o país viver um bom clima de cooperação entre os órgãos de soberania» e de «paz social», e rejeitou que haja um clima de «crispação na Assembleia da República». «O que há é uma bancada ressabiada», concluiu.

 

O tom crispado resvalou às bancadas dos dois principais partidos. E a prova disso chegou do lado dos líderes dos dois maiores grupos parlamentares, Luís Montenegro, do PSD, e Carlos César, do PS, os quais não abdicaram de deitar achas na fogueira num debate já muito quente.

 

Entre repetidos pedidos de defesa da honra, Luís Montenegro, um esmero em matéria de educação, veio acusar Costa de ser «mal-educado com aqueles que no parlamento representam os portugueses».

 

Carlos César saiu em defesa de Costa e assegurou que o PS se sentia «ofendido quando se transforma a Assembleia da República num espaço de insulto e de intolerância e num espaço de guerrilha mediática».

 

O nome do governador do Banco de Portugal veio inevitavelmente à baila, em particular devido ao chamado caso BES. António Costa, adotou neste caso uma postura institucional na abordagem do tema, como se exige aliás no exercício das funções que ocupa, limitando-se a recordar que o governador foi nomeado pelo anterior executivo e que nessa ocasião criticou o que achou por bem, mas na qualidade de líder do PS. Hoje, assegurou, trabalha «de forma leal e construtiva com as instituições que existem e que estão em funções».

 

O bate boca entre Passos e Costa e dos seus apaniguados no último debate parlamentar foi pouco edificante. Recorde-se que este tipo de linguagem que se iniciou com Durão Barroso com o célebre «país de tanga» tem feito escola. Em vez de se discutir os problemas reais do país e esgrimirem-se argumentos políticos, trocam-se estes 'mimos' na arena parlamentar.

 

Não admira, pois, que os portugueses estejam cada vez mais divorciados da política e que engrossem os números da abstenção.

26
Fev17

Paulo Núncio assume responsabilidade política no caso das offshores

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O antigo secretário de Estado dos Assuntos Fiscais Paulo Núncio assumiu ontem a sua «responsabilidade política» pela não publicação de dados relativos às transferências de dinheiro para offshores, pedindo o abandono das suas funções atuais no CDS-PP, depois de José Azevedo Pereira, responsável pela Autoridade Tributária à época, vir desmentir o Paulo Núncio, atribuindo-lhe a responsabilidade pela não publicação das estatísticas sobre transferências no valor de dez mil milhões de euros para offshores, o que prova que este não foi um caso de somenos, muito menos um facto politico criado pelo PS para desviar as atenções da CGD.

 

Todavia, a assunção de responsabilidades de Paulo Núncio, a meu ver, não isenta os ministros da tutela – Vítor Gaspar e Maria Luís Albuquerque – e até mesmo o ex-primeiro-ministro, Passos Coelho, de assumirem a sua quota-parte de responsabilidade no caso.

 

A Constituição da República é clara ao afirmar, taxativamente, que os secretários de Estado respondem perante o Ministro da Tutela e este, por sua vez, perante o Primeiro-Ministro e no âmbito da responsabilidade política do Governo perante a Assembleia da República.

 

Assim sendo, a responsabilidade política do secretário de Estado Paulo Núncio pertence não apenas ao próprio, mas também aos ministros de quem dependeu, são pois estes os responsáveis políticos que devem ser chamados a prestar contas perante a Assembleia da República.

19
Fev17

As quintas feiras de Cavaco

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Não li o livro de Cavaco Silva, nem tenciono ler, mas a julgar por alguns excertos que vão saindo na imprensa, são ilustrativos e demonstram bem o carácter do seu autor. A começar pelo título: «quinta-feira e outros dias».

 

Cavaco igual a si próprio. Vingativo, mesquinho. O livro não é mais do que um ajuste de contas camuflado com Sócrates.

 

Segundo a imprensa, Cavaco descreve as reuniões sonolentas com Mário Soares; os reiterados atrasos de Sócrates, em quem Cavaco não acreditava; a pontualidade de Pedro Passos Coelho que aguardava calado as perguntas do Presidente, mas isso aos portugueses, pouco ou nada interessa. Há certamente outros assuntos que os portugueses gostavam de ver respondidos, falo por mim, nomeadamente: sobre a sua participação como acionista na SLN, a detentora do BPN ou por que razão deu falsas esperanças aos depositantes do BES, quando afirmou que podiam confiar no banco dado que as folgas de capital eram mais que suficientes para cobrir a exposição que o banco tem à parte não financeira?

 

Cavaco sempre quis passar a ideia de si próprio como a de um honesto estadista, rigoroso e cumpridor dos seus deveres, afinal estamos perante uma pessoa sem qualquer pingo de sentido de Estado, divulgando conversas privadas na praça pública, sem pudor ou respeito com as pessoas envolvidas.

 

Trata-se de um livro de um autor despeitado que será para sempre recordado como o pior Presidente da República Português, um presidente de fação que estimulou ódios e atiçou intrigas. Não admira que tenha sido o Presidente da República com a mais baixa taxa de popularidade da democracia portuguesa.

16
Jan17

Passos Coelho e a TSU

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Bem sabemos que a «coerência» em política é um termo que não tem grande credibilidade, já que os políticos afirmam, com uma enorme facilidade, uma coisa e o seu contrário.

 

Vem a propósito da descida da TSU para as empresas que está prevista no acordo de concertação social, como forma de compensá-las pelo aumento do Salário Mínimo Nacional. Tanto o BE como o PCP admitiram levá-la ao parlamento, caso o Governo insista na sua redução e Passos Coelho, espantem-se, também admitiu votar contra esta proposta ao lado dos partidos que apoiam a «geringonça», afirmando perentoriamente: «Não peçam o nosso apoio para isso. Se dentro da maioria não se entendem para resolver este problema e forem os próprios partidos da maioria a levar a questão à Assembleia da República, o nosso voto não têm. Isso que fique claro».

 

Independentemente da bondade da medida, e eu tenho algumas dúvidas da sua eficácia, certo é que Pedro Passos Coelho enquanto primeiro-ministro, sempre defendeu a descida da TSU para as empresas, ao mesmo tempo que baixava salários, com a justificação de fomentar a criação de postos de trabalho. É de facto surpreendente vir agora mudar de posição ao sabor do vento e das conveniências.

 

É que afinal Passos Coelho, pese embora a bandeirinha na lapela e a suposta pose de Estado que aparenta, não é senão é um líder fraco, que necessita de recorrer reiteradamente ao tacticismo e ao oportunismo político.

 

Ao alinhar com a extrema-esquerda parlamentar para derrotar o Governo, o PSD desrespeita o acordo de concertação social, à semelhança da CGTP — o único parceiro social a ficar fora do acordo de concertação —, mostrando ser uma oposição irresponsável, movida por ódios e vinganças, ficando assim responsável pela não aprovação da proposta no Parlamento.