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Narrativa Diária

Não escrever um romance na «horizontal», com a narrativa de peripécias que entretêm. Escrevê-lo na «vertical», com a vivência intensa do que se sente e perturba. Vergílio Ferreira

Narrativa Diária

Não escrever um romance na «horizontal», com a narrativa de peripécias que entretêm. Escrevê-lo na «vertical», com a vivência intensa do que se sente e perturba. Vergílio Ferreira

06.09.17

«Passos perdido no seu labirinto»

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 «“Não aceitamos o ambiente de intolerância em que só se discute o futuro segundo a perspectiva do pensamento dominante”. Nesta frase, grave e grandiloquente, dita por Pedro Passos Coelho no encerramento da Universidade de Verão do PSD, cabem por inteiro os dramas da sua liderança e os fracassos da sua oposição. O que a marca não é tanto o horror do “ambiente de intolerância”, que existe e a cada passo vai dando um ar de guerra tribal à vida pública. O que a torna importante é o reconhecimento da impotência de Pedro Passos Coelho e do PSD em contrariar a “perspectiva do pensamento dominante”. Fora do poder, o principal partido da oposição admite que o domínio das palavras, das ideias ou dos projectos capazes de suscitar a atenção dos portugueses e de marcar o debate público não lhe pertence. O admirável país novo de António Costa é uma máquina oleada e à prova de bala-as sondagens confirmam-no.

 

Talvez seja o impulso desta impotência que leva alguns responsáveis do PSD a dizer em público o que nenhum militante social-democrata diria em privado há apenas meia dúzia de anos. Não estão apenas em causa as alarvidades de André Ventura em Loures sobre os ciganos ou sobre os imigrantes – que associa o partido ao perigo populista e xenófobo e manda às malvas o pouco que resta da doutrina personalista e humanista do velho PSD. A tolerância de Passos Coelho ao “ambiente de intolerância” em Loures é apenas o sintoma mais grave de um partido que pressente a necessidade de gritar para se fazer ouvir. Vejam-se as declarações de Paulo Rangel sobre uma alegada responsabilidade moral do Governo nas mortes de Pedrógão. Ou o tom rancoroso de Aníbal Cavaco Silva sobre os “pios” da esquerda na mesma universidade de Verão.

 

O PSD não domina o pensamento porque se afundou no ressentimento. Vários colunistas o disseram nos últimos dias e é a consequência dessa forma de vida que vale a pena reflectir. Porque o PSD, um partido crucial, deixou de ser uma mola influente na política. Tornou-se o bombo da festa. Este fim-de-semana, Pedro Nuno Santos lamentava ao Sol que, “ao fim destes dois anos”, o PSD “não tenha percebido nada do que está a acontecer em Portugal e continue a cometer erros”. No meio do cinismo, o novo guru da esquerda do PS tem razão. O PSD não deu conta que a aliança sagrada das esquerdas mudou radicalmente o quadro da política. Não percebeu que o “discurso dominante”, feito de facilidades e de paternalismo pagos pelos impostos, é música celestial para os portugueses. Não percebeu que o eleitorado tem a memória curta e detesta rebobinar os tempos da crise. Não percebeu que os portugueses precisavam de distensão. Que o diabo não virá enquanto a Europa crescer, o Banco Central Europeu ajudar e houver folga para redistribuir as verbas libertadas pela excepcional conjuntura da economia.

 

Neste desnorte, as ciladas que António Costa a cada passo organiza são sempre um sucesso. Quando o PSD é desafiado a fazer parte de consensos em matérias como os investimentos públicos ou os fundos comunitários, bem sabemos que em causa está uma provocação. Mas, nestes apelos cínicos à responsabilidade, o PSD não se pode remeter à condição birrenta dos partidos de protesto. Tem de ir a jogo, como aliás aqui explicou João Miguel Tavares. Tem de mostrar as suas ideias e as suas prioridades. Exigindo que os consensos sobre o betão se alarguem à Saúde, à Segurança Social ou à Justiça que, como Passos Coelho disse e bem, são reformas muito mais importantes para o futuro do que a discussão sobre mais estradas ou rotundas. Ao optar pela intransigência, Passos Coelho pode convencer os militantes mais radicais, sempre dispostos a ver a política como um braço-de-ferro para homens de fala grossa e barba rija. Mas dificilmente chegará ao eleitorado flutuante que, apreciando firmeza e ideias claras, exige principalmente que os partidos se empenhem na resolução dos problemas do país.

 

Passos Coelho, porém, não entende que a crítica sistemática e negativa é cimento para a consolidação do “pensamento dominante”. Ao barricar-se no contra e no queixume deixa-se ficar refém do lado menos útil da sua biografia política. Cola-se ao passado e desiste do futuro. O primeiro-ministro que governou na pior conjuntura económica em muitas décadas, que geriu o ajustamento inevitável, que, melhor ou pior, manteve um rumo que acabou na saída da troika em 2014 torna-se assim presa fácil dos clichés que a esquerda lhe vai colando. Passos é um dos mais preciosos activos do PS, do Bloco e do PCP porque se tornou um alvo parado num tempo que já acabou. É fácil o “pensamento dominante” colá-lo a um putativo excesso de austeridade aplicado por ideologia ou capricho. É fácil situá-lo como autor de uma governação que, por oposição à actual, fez questão de espremer os portugueses voluntária e gratuitamente.

 

Com o Bloco e o PCP a encherem com mestria o campo do poder e da oposição, o PSD devia olhar para o lado e ver como Assunção Cristas consegue temperar melhor a faceta contestatária com a faceta construtiva – ainda esta semana lá veio uma proposta para baixar o IRC. A melhor maneira de mostrar a suposta incongruência da “geringonça” seria provar que em questões essenciais como a da iniciativa privada, a do peso do Estado, a da responsabilidade fiscal ou das relações com a Europa, o PSD tem muito mais a dialogar com o PS do que o Bloco ou o PCP. E isso só se conseguiria se a direita liderada pelo PSD se assumisse “como motor reformista do país”, afirmando-se como uma alternativa “na apresentação de ideias inovadoras por sector, com bons think tanks ou até um governo sombra”, como escreveu por estes dias Alexandre Homem Cristo no Observador.

 

Ficando preso ao ressentimento, Pedro Passos Coelho afunda-se. Cada vez mais sozinho no PSD, a braços com escolhas duvidosas para as autárquicas, preso à imagem do neoliberal punitivo que queria erguer um Portugal novo a golpes de austeridade, carregando às costas menos-valias de um certo passado recente (com Cavaco Silva à cabeça), incapaz de articular um projecto coerente para o futuro, Passos parece perdido, abandonado e cansado. Um dia, quando a História se sobrepuser ao jornalismo, quando a propaganda sobre o passado recente se despir da emoção, talvez seja visto como o homem que salvou o país de um tormento como o da Grécia. Mas a política não se faz de profecias. Hoje, que é o que conta, Pedro Passos Coelho é um líder perdido no seu labirinto. No próximo congresso do PSD não deixará de haver quem lhe queira apontar a saída.».

 

Manuel Carvalho - Público

12.12.16

Um dia muito especial para Portugal

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12 de dezembro de 2016  é um dia muito especial para Portugal que ficará na história por duas boas razões: António Guterres prestou hoje juramento sobre a Carta das Nações Unidas como novo secretário-geral da ONU e Cristiano Ronaldo venceu a votação levada a cabo pela revista France Football, conquistando a quarta bola de ouro.

Obrigada a ambos. São um orgulho para Portugal.

03.03.16

«Há dias assim»

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Socorro-me do balanço feito pelo bloquista João Semedo feito na sua página de facebook, a propósito das notícias que vieram hoje a público deste pequeno 'retângulo' à beira mar plantado: 

«HÁ DIAS ASSIM

Manuel Damásio, ex-presidente do Benfica, detido pela PJ por suspeita de branqueamento de capitais e tráfico de influências.

Maria Luís Albuquerque, contratada para administradora do grupo internacional que comprou dívida ao Banif no período em que a ex-ministra era responsável pelo banco.

José Manuel Coelho, deputado na Assembleia Legislativa da Madeira, despiu-se no parlamento regional, protestando contra a penhora do seu vencimento.

Cavaco Silva, preside à reunião do Conselho de Ministros dedicada às políticas do Mar a uma semana de deixar Belém.

Sónia Melo, cientista portuguesa, suspensa de funções após ter sido acusada de manipulação de dados.

Henrique Raposo, apresenta livro sobre o Alentejo em sessão vigiada pela PSP.

Uff, fico-me por aqui. Que país este...»

18.10.15

«Tempo da Política»

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«Os jogos políticos são arriscados. Quando, ainda por cima, são também jogos de sobrevivência são ainda mais arriscados. E este jogo ainda está longe de terminar.

O problema dos tempos interessantes é que são tempos de incerteza. E todos nós gostamos de segurança, de hábitos e rotinas que dêem alguma previsibilidade aos dias.

Tivemos eleições, temos de ter Governo, já o queríamos ter e ainda nem sequer sabemos quem vai ter mandato para o formar, nem quanto vai durar. Já quase nos tínhamos esquecido de como se faz política e o que vivemos são ainda os dias da política e estão aí para durar e para continuar a dar muitos motivos de conversa, de indignação, de irritação, de preocupação …. e é bom que assim seja, que se discuta política neste país como há muito não se fazia, é bom que as pessoas percebam as consequências todas do seu voto ou da sua abstenção, que olhem para o sistema político como algo em movimento.

O que estamos a viver é um jogo político. Interessante e arriscado, como todos os jogos. Ainda mais arriscado porque também é um jogo de sobrevivência, da sobrevivência política de António Costa. E ainda mais interessante porque tem a ver com a vida de todos nós. E é um jogo que não tem resultado final garantido. Essa é outra novidade dos tempos que vivemos. Tendemos a olhar para o jogo político como um jogo combinado, com um resultado pré-definido em que os jogadores se limitam a fazer um teatrinho obrigatório até chegar ao desfecho que antevíamos logo de início.

A meio do jogo

Um dos problemas é que o jogo ainda está longe de terminar e o árbitro pode não estar à altura dos jogadores. António Costa tinha dito, no início da semana, que esperava ter uma solução para apresentar ao seu partido até ao fim desta semana. Não tem, a comissão política do PS que foi suspensa continua por remarcar e, esta sexta-feira, admitiu, em entrevista à TVI que “é prematuro” dizer, neste momento, que o diálogo com o PCP e o Bloco vai acabar bem. E as conversas com a direita, também suspensas, ainda podem regressar.

Esta sexta-feira foi, aliás, importante para mostrar como este jogo ainda vai a meio. Mesmo à esquerda – onde o PS insiste em dizer que há condições – foi notório que andam a falar de coisas diferentes e está longe um acordo para um Governo do PS com apoio do BE e do PCP. E tem de ser dos dois, porque um não chega.

Cavaco Silva, entretanto, marcou audiências com os partidos para terça e quarta-feira. E das duas uma: com o actual cenário, ou indigita Passos Coelho como primeiro-ministro ou pede aos partidos para continuarem a conversar. A não ser que o Presidente tenha uma qualquer surpresa na manga, como teve no Verão de 2013 (e não lhe correu bem). Pode o Presidente surpreender como António Costa surpreendeu ao não se demitir na noite eleitoral? Ou como Jerónimo de Sousa ao aceitar dialogar, pondo de lado os assuntos em que nunca chegará a acordo com o PS?

A fasquia das surpresas está alta neste jogo em que a coligação se mantém a meio do campo, a jogar no empate, sem arriscar, por enquanto, uma jogada de mestre que vire o jogo. O “documento facilitador” que entregou ao PS, para além de generalidades e manifestações de abertura, só tinha medidas previsíveis. E só tinha objectivos imediatos: a viabilização do programa de Governo e do Orçamento do Estado para 2016.

A questão da confiança

Neste jogo ainda sem resultado garantido, António Costa joga a sua sobrevivência política. Claro, que, como ele próprio já disse, dificilmente deixará de fazer política na vida. Para Costa, como para Santana Lopes ou Paulo Portas, serão sempre prematuras as notícias de morte política. Mas, com uma derrota nas legislativas e uma previsível derrota nas presidenciais, terá vida difícil num congresso em Fevereiro. A não ser que seja primeiro-ministro.

A vertigem do poder e da história pode inebriar e António Costa pode já ter ido longe de mais, tanto no jogo à esquerda, como na vontade de humilhar a direita. Repete quase todos os dias que a coligação tem de ser humilde e perceber que o quadro político mudou, mas não parece ele próprio ter tirado lições do seu resultado eleitoral.

O líder socialista - que sustentou a sua campanha no lema “Tempo de Confiança” - não conseguiu conquistar a confiança da maioria dos portugueses, tem uma boa parte do seu partido desconfiado dos resultados das negociações com a esquerda, uma bancada parlamentar onde podem surgir dissidentes, tem muitos eleitores descontentes e um país angustiado com o resultado do jogo.

António Costa – o grande derrotado da noite de dia 4 - é o jogador central dos tempos que correm e ainda acredita que pode ser o grande vencedor. O pior que pode acontecer é ganhar o poder, depois de ter perdido o país.

Mas o que é mais provável que aconteça é que Cavaco Silva acabe por dar posse a Passos e Portas, António Costa viabilize o Governo e negoceie o Orçamento e, ao mesmo tempo, continue a conversar com a esquerda, mantendo sempre a ameaça de, a qualquer momento, poder ter uma alternativa e derrubar o Governo. E assim iremos andando até Março ou Abril...».

 Eunice Lourenço, RR

09.10.15

O futuro político passa por António Costa

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Por que razão deve o PS privilegiar entendimentos com o PCP e o BE, com os quais que nunca até hoje se entendeu, devido a divergências doutrinárias profundas (o PCP e o BE defendem a saída de Portugal da NATO e a saída do euro e a reestruturação da dívida)? O BE e o PCP têm ao longo destes anos, acusado sistematicamente o PS de ser um «partido de direita» que pratica «políticas contra os interesses dos trabalhadores», agora porque não querem defraudar o seu eleitorado estão dispostos a deixar de ser «partidos de protesto» para se tornarem «partidos de poder», através de um entendimento com o PS.

Um grande partido de referência do sistema político como o PS não pode deixar-se levar pelo tacticismo de outros partidos, sejam eles de esquerda ou de direita. Coisa diferente é negociar as traves mestras para viabilizar a estabilidade política do país com as restantes forças políticas, sem colocar em causa a identidade de todas elas.

Acresce que em 40 anos de democracia não foi nunca a esquerda a dar a mão aos socialistas. De relembrar que, quando os socialistas perderam a maioria absoluta, no segundo governo de Sócrates, o executivo sobreviveu dois anos no poder com o PSD a viabilizar os seus orçamentos e os vários PEC’s com as medidas impostas por Bruxelas. Quando o PSD lhe faltou porque também tinha ambições de poder, a esquerda virou-lhe as costas e votou ao lado da direita para derrubar o governo de Sócrates e este caiu com as consequências que todos conhecemos.

Depois há ainda outro facto insofismável: foi efetivamente a coligação de direita que venceu as eleições legislativas, porque teve mais votos e um maior número de mandatos, embora sem maioria absoluta, o que significa que a maioria dos eleitores quer que seja esta força política a governar, muito embora tenham expressado que pretendem um governo diferente, menos austero, mais dialogante, integrando propostas sociais, financeiras e políticas que, não desrespeitando o programa legitimamente sufragado, visem a melhoria do Estado Social.

O PS pode jogar aqui um trunfo importante, na medida em que dispõe de uma oportunidade soberana de impor nas matérias estruturantes as ideias do seu programa e António Costa representa neste xadrez político o fiel da balança, podendo colocar travão às medidas por que sempre se bateu e tirar dividendos com isso.

Uma coisa é certa. O futuro político, independentemente da solução encontrada, passará inevitavelmente por António Costa.

18.09.15

O debate das radios.

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A generalidade dos comentadores, depois de ter considerado que António Costa venceu claramente o primeiro debate com Passos Coelho, considerou que no segundo frente-a-frente, das rádios, Passos Coelho esteve melhor.

Referem que a vitória se deveu ao facto de Passos Coelho ter adotado estratégias ausentes no primeiro debate − maior combatividade, não mencionar o nome de José Sócrates e poucas referências ao governo grego do Syriza − bem como a dificuldade sentida por António Costa em explicar o corte de mil milhões nas prestações sociais.

Para o debate de ontem, os assessores de comunicação mudaram de tática e puseram Passos ao ataque. Assistimos, então, a uma troca de argumentos em torno do programa eleitoral do Partido Socialista. O que que é surpreendente é que tenha incidido quase que exclusivamente sobre as propostas e as contas do PS, deixando de lado as propostas concretas e as contas da coligação.

Isto só demonstra que o partido socialista se apresentou ao eleitorado com uma postura categórica: disse ao que vinha e quais os objetivos que pretende alcançar se for Governo. Esta forma de atuar contrasta em muito com a atitude da coligação, que se apresenta sem programa eleitoral, que se conheça, e muito menos com contas para apresentar. Mas também não é necessário. Sabemos que a coligação, se ganhar as eleições, prepara-se para reeditar mais quatro anos iguais ou piores que os anteriores.

Apoio-me deste estudo de Alexandre Abreu publicado no Expresso intitulado «O governo chumba-se a si próprio» para que se perceba a situação antes e depois destes quatro anos de governação PSD-CDS-PP. Penso que não restam dúvidas…

«Conclusão: um governo que se chumba a si próprio»:

«Em 2011, Álvaro Santos Pereira recorreu a oito indicadores económicos para proporcionar uma imagem sintética da governação socialista. Concluiu então que esse governo deixava “um legado de tal forma terrível que vai marcar inexoravelmente as nossas vidas e as dos nossos filhos”.

Quatro anos depois, prolongando a análise com recurso aos mesmos indicadores, verificamos que um está hoje em níveis idênticos aos de há quatro anos (taxa de desemprego), um melhorou significativamente (saldo da balança corrente) e seis pioraram consideravelmente (crescimento do PIB potencial, dívida pública, dívida externa bruta, dívida externa líquida, emigração forçada pelas circunstâncias económicas e divergência face à Europa). No fundo, o governo melhorou o saldo externo e piorou tudo o resto. E nem sequer estamos a trazer para a análise os níveis de pobreza, de desigualdade, do salário médio, da cobertura dos apoios sociais ou do emprego total.

Por outras palavras, o governo PSD-CDS, nesta auto-avaliação legitimada por antecipação, chumba-se a si próprio sem apelo nem agravo. O “triste legado” então exaustivamente identificado é hoje muito mais triste e ainda mais pesado. Os “piores indicadores económicos desde 1892” são hoje, quase sem excepção, muito piores.

Espera-se, para parafrasear uma última vez Álvaro Santos Pereira, que quando os eleitores forem votar no dia 4 de Outubro não se esqueçam dos verdadeiros factos desta governação».

15.09.15

Um «prós e contras» muito polémico

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«Alguém acredita que se o PS estivesse no Governo haveria um primeiro-ministro sob investigação?» foi esta questão lançada pelo eurodeputado Paulo Rangel, na Universidade de Verão do PSD que deu o mote para o Prós e Contras que foi ontem emitido pela na estação pública de televisão.

«A pergunta agita o país. Há interferência dos partidos no sistema judicial? Existe ou não politização da justiça? A força da comunicação social e a pressão da sociedade. Os meios técnicos e humanos e as sucessivas reformas. A independência da justiça no centro do maior debate da televisão portuguesa». Foi nestes moldes que o programa foi divulgado na página oficial do Facebook e na página oficial da RTP

O anúncio do programa intitulado «A independência da justiça» suscitou as reações mais violentas – vá-se lá saber porquê? – das hostes socialistas, inclusive pedidos de demissão do diretor de informação da RTP, defendidos por João Galamba, José Lello e Isabel Moreira e com Augusto Santos Silva a acusar a RTP de «tentar influenciar o sentido da campanha».

Não obstante todas as críticas geradas o programa foi para o ar, ancorado no triângulo justiça, jornalismo e política e acabou por ficar marcado pela troca de argumentos entre Miguel Sousa Tavares e Octávio Ribeiro, diretor do Correio da Manhã.

O comentador começou por argumentar que «não há partidarização da justiça», mas que existem «duas coisas claras: a judicialização da justiça e a politização da justiça de dentro para fora», acusando os juízes, enquanto corporações, de terem «uma agenda política própria» e acrescentou:  «A pior perversão do Estado de Direito é a tentação de uma ‘República de Juízes’. Entre as duas coisas há uma fronteira muito ténue: a fronteira é os juízes deixarem de ser juízes e passarem a ser justiceiros». Pelo meio, o escritor denunciou a relação imoral entre magistrados e jornalistas, referindo-se às sucessivas violações do segredo de justiça pelos tabloides.

Octávio Ribeiro não gostou e começou por lembrar que «o jornalismo atinge os seus momentos mais nobres quando investiga e trabalha à frente seja do que for» e que «o segredo de justiça é um conceito contranatura para o jornalista», que mantém o dever deontológico de informar sempre que tal se revista de interesse público. Os argumentos não convenceram Sousa Tavares e o diretor do CM partiu para o ataque acusando Sousa Tavares ter caído numa «cegueira de fé em relação a José Sócrates» e de se ter «enredado numa teia de compromissos em relação ao BES».

«Aquilo que o CM faz não é jornalismo. Isso é vender jornais”, contra-argumentou Sousa Tavares. A partir daí o bate boca entre ambos centrou-se, sobretudo, na «tabloidização da justiça».

Relativamente à politização da justiça, Nuno Garoupa, jurista e presidente da Fundação Francisco Manuel dos Santos declarou que «a classe política está manietada, com receio de ser acusada de tentar condicionar o sistema judicial. Estamos numa situação em que os partidos estão de tal forma condicionados por esta questão que nenhum propõe qualquer reforma do Ministério Público». Uma posição defendida e partilhada, aliás, por todos os intervenientes no debate.

10.09.15

O derby político

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Antevia-se um debate histórico e decisivo, amplamente divulgado na comunicação social, com um recorde de audiências nunca alcançado, como se um derby futebolístico se tratasse. À semelhança dos grandes jogos de futebol ouviram-se os comentadores antes e depois do debate e inquiriram-se os portugueses a fim de tentar saber os prognósticos. Até o tempo foi o mesmo que de uma partida de futebol. Mas foi, como se diz na gíria, «muita parra e pouca uva».

Os dois candidatos foram demasiado previsíveis. Mostraram demasiado cedo ao que vinham. A estratégia de Passos foi clara: desacreditar Costa e o programa do PS, através de uma associação permanente a Sócrates, que o fez à exaustão. Nem uma palavra sobre o programa da coligação. Nem uma palavra sobre o futuro. O que não surpreende. Quem governou durante quatro anos mediante a mera adesão a um programa externo, por vontade e por falta de ideias próprias, não tem perfil para defender um programa de governo. Passos Coelho não conseguiu, por isso, ser convincente na sua narrativa. Esteve cabisbaixo, sem convicções e sem brilho.

António Costa mais acutilante, mais solto, esteve na ofensiva e lembrou, na medida certa, algumas das declarações e posições de Passos Coelho nos últimos anos da sua governação desta maioria, o facto do atual governo querer ir sempre para além da troika, os sucessivos cortes nas pensões e nos salários, o enorme aumento de impostos que os portugueses sofreram na pele e o convite à emigração, para ilustrar o falhanço de toda a política governativa de Passos.

Não gostei do formato do debate pareceu-me demasiado fechado e pouco esclarecedor: Os entrevistadores não deixaram os candidatos explanar devidamente as suas ideias e os timings impostos (90 minutos) limitaram os temas a debater. De fora ficaram temas como: a educação e o sistema de ensino, a justiça, a segurança interna, a reestruturação da dívida, a politica externa e as relações com a União Europeia, a crise dos refugiados, a politica de energia e meio ambiente, o combate à pobreza e à corrupção e a reforma do sistema politico. Falou-se mais do passado que do futuro. E esse foi o ponto mais negativo deste debate.

Em conclusão: a António Costa correu-lhe melhor o debate. A vantagem foi-lhe, aliás, atribuída pela generalidade dos comentadores. Mas, atenção! Ganhar o debate não significa que as eleições estejam no papo. Há que fazer mais, muito mais. O debate com Catarina Martins não será certamente favas contadas.

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