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Narrativa Diária

Não escrever um romance na «horizontal», com a narrativa de peripécias que entretêm. Escrevê-lo na «vertical», com a vivência intensa do que se sente e perturba. Vergílio Ferreira

Narrativa Diária

Não escrever um romance na «horizontal», com a narrativa de peripécias que entretêm. Escrevê-lo na «vertical», com a vivência intensa do que se sente e perturba. Vergílio Ferreira

05
Jul17

Ridículo!

 

 

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O presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, insurgiu-se com o Parlamento Europeu, depois de apenas 30 deputados terem comparecido num debate da Comissão, em Estrasburgo, dedicado a fazer o balanço da Presidência de Malta na União Europeia que o país assumiu durante o primeiro semestre do ano. Um número na verdade muito reduzido se tivermos em consideração que o Parlamento Europeu é composto por 751 eurodeputados.

 

«O Parlamento Europeu é ridículo, muito ridículo». «Vocês são ridículos», «o Parlamento é totalmente ridículo» foram os insultos que se ouviram de Juncker.

 

O presidente da Comissão afirmou que o facto de estarem apenas 30 deputados presentes neste debate demonstra que «o Parlamento não é sério», perante uma plateia quase vazia, salientando que, se em vez do Presidente de Malta estivesse a chanceler, Angela Merkel, ou o presidente francês, Emmanuel Macron, seguramente o Parlamento estaria repleto, afirmando que não voltará a estar presente numa reunião deste tipo.

 

Obviamente que Jean-Claude Junker tem alguma razão no que diz. Ele limitou-se a constatar um facto que é um sentimento partilhado certamente por muitos europeus: os plenários estão vazios e é vergonhoso que a instituição gaste o dinheiro dos contribuintes, mormente nos chorudos ordenados pagos aos deputados europeus e estes não cumpram com as suas obrigações.

 

Já agora é inadmissível que o Regimento do Parlamento Europeu não estabeleça um número mínimo de eurodeputados dos 28 países para estarem presentes no hemiciclo para que o plenário funcione.

09
Jun17

Um tiro no pé

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Mais de 46 milhões de eleitores foram chamados às urnas para escolher o novo líder do Governo britânico. Ao propor-se a eleições, a primeira-ministra britânica, Theresa May, procurava alargar a maioria absoluta obtida pelos conservadores, de forma a obter um voto de confiança do povo para poder liderar o processo de saída do Reino Unido da União Europeia com uma posição reforçada.

 

De relembrar que Theresa May chegou ao poder em julho do ano passado em substituição direta de David Cameron, o antigo primeiro-ministro, que apresentou a demissão na sequência da vitória do Brexit no referendo.

 

Todavia, o «feitiço virou-se contra o feiticeiro», o resultado eleitoral ditou uma frágil vitória do Partido Conservador, que perdeu pelo menos 12 deputados em relação às eleições anteriores.

 

Na primeira reação aos resultados, Jeremy Corbyn destacou o falhanço de Theresa May nestas eleições, tendo em conta os objetivos a que se propôs e pediu mesmo a sua demissão

 

Este resultado inconclusivo deixa o Parlamento britânico fragmentado e o futuro do próximo Governo mais incerto. Dado que, não havendo uma maioria no Parlamento, a situação política britânica pode prolongar-se por várias semanas, o que pode prejudicar o calendário do Brexit, uma vez que as negociações com a União Europeia devem começar dentro de poucas semanas. Mesmo que consiga formar governo, May perde força para negociar com a Europa.

29
Mar17

Nada será como dantes!

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O referendo de 23 de junho do ano passado que ditou a saída do Reino Unido da União Europeia, deixou o país profundamente dividido e, desde então, têm-se multiplicado as manifestações contra o Brexit, protagonizadas sobretudo pela juventude britânica, maioritariamente pró-europeia.

 

Mas a primeira-ministra britânica cumprindo o resultado do referendo já assinou a carta que conduz ao Brexit, a qual será entregue esta quarta-feira ao presidente do Conselho Europeu, Donald Tusk, para ativar o artigo 50 do Tratado de Lisboa.

 

O Reino Unido sempre teve uma posição marcante relativamente ao seu papel no contexto europeu, o caso de não adesão à moeda única será, contudo, o mais óbvio.

 

Porém, tanto dentro como fora das fronteiras do próprio Reino Unido, o Brexit será tudo menos um processo simples. Dentro do Reino Unido, Escócia e Irlanda reacendem divisões que a História nunca sarou; fora de portas, o Reino Unido terá que estabelecer uma nova relação comercial com a EU com vista a saber que tipo de acesso o país consegue estabelecer com os 430 milhões de consumidores da UE.

 

A ativação oficial do artigo 50 abrirá espaço a dois anos de negociações para determinar as condições exatas de saída do país da EU. O Brexit poderá sofrer ao longo das negociações alguns ajustes, mas uma coisa é certa: agora não há retorno e no contexto europeu nada será como dantes. Afinal, como lembrava a Teresa de Sousa no Público, «não é um pequeno país periférico que abandona a União. É um país que marcou definitivamente a História europeia do século XX» num texto de leitura obrigatória.

16
Nov16

Notícias da Geringonça

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Segundo o INE, a economia portuguesa cresceu 0,8% em termos reais no terceiro trimestre em relação ao trimestre anterior e 1,6%, em comparação com o mesmo período do ano passado.

 

O Gabinete de Estatísticas do INE  justificou este crescimento com «o aumento do contributo da procura externa líquida, verificando-se uma aceleração mais expressiva das exportações de bens e serviços» face à das importações de bens e serviços. E sublinha ainda que a aceleração das exportações «foi comum às componentes de bens e de serviços».

 

Por outro lado, aumentou também a procura interna para a variação equivalente do PIB no terceiro trimestre, consequência da «aceleração do consumo privado» devido ao comportamento dos bens não duradouros e serviços, enquanto os bens duradouros desaceleraram.

 

Os valores ora divulgados superam as expectativas dos vários analistas económicos que estimavam aumentos de 0,3% em cadeia e 1,1% em termos homólogos, atribuindo-os sobretudo a uma quebra na procura interna.

 

Estes valores, de acordo com o Eurostat, colocam Portugal com o maior crescimento do PIB no terceiro trimestre do ano face ao trimestre anterior, juntamente com a Bulgária (0,8%), enquanto o crescimento da economia portuguesa em termos homólogos esteve precisamente em linha com a média da zona euro (1,6%).

 

Claro que não devemos «embandeirar em arco». Todos sabemos que não temos uma economia pujante e qualquer abalo nos mercados externos poder-nos-á ser fatal.

 

Mas, para já, os indicadores são positivos e enchem-nos de ânimo. O PIB foi o maior da zona euro. O desemprego está a baixar. As exportações estão a melhorar, assim como a procura interna e, como tudo indica, a Comissão Europeia não deverá suspender os Fundos para Portugal em consequência do bom desempenho da economia. Tudo num Portugal governado por uma «geringonça». Parafraseando António Costa: «é geringonça, mas funciona».

 

13
Set16

Durão Barroso perde privilégios em Bruxelas

 

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O banco americano de investimentos Goldman Sachs anunciou em julho a contratação do ex-presidente da Comissão Europeia, José Manuel Barroso, como presidente não executivo e conselheiro, dando nomeadamente assessoria para assuntos relacionados com o Brexit, uma nomeação que, como se sabe, provocou polémica na Europa.

Na sua qualidade de ex-presidente da Comissão Europeia, assim como ex-primeiro-ministro de um Estado-membro, Durão Barroso teria o direito a um tratamento VIP concedido aos líderes e instituições europeias em Bruxelas.

O atual presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, vai ainda examinar o contrato do seu antecessor com o banco norte-americano de investimento, mas já deu instruções ao seu gabinete para tratar José Manuel Barroso como qualquer outro lobista com ligações a Bruxelas. Barroso passará a ser recebido como um representante de interesses e qualquer comissário europeu ou funcionário da União Europeia que mantiver contactos com Durão Barroso será obrigado a registar esses contactos e a manter notas sobre os mesmos.

Esta foi a resposta surpreendente de Jean-Claude Juncker às novas funções do ex-primeiro-ministro no polémico banco Goldman Sachs que, quer queiramos quer não, constitui uma marca negativa no brilhante currículo de Durão Barroso.

27
Jul16

Cancelamento de sanções a Portugal

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De acordo com o Expresso, após três horas de reunião, a Comissão Europeia decidiu propor ao Conselho o cancelamento da multa a Portugal e Espanha pelo excesso de défice de 2015. O comissário Pierre Moscovici anunciou que Portugal tem mais um ano para cumprir o défice, ou seja, deve conseguir que o défice em 2016 fique abaixo dos 3%.

 

Prevaleceu o bom senso em Bruxelas. Esta é, sem dúvida, uma boa notícia para Portugal, para a Geringonça e para António Costa que poderá com isso capitalizar.

 

Que desapontamento com o fim desta novela que encheu as páginas de jornais durante meses e motivou acalorados debates na televisão e que acaba da pior/melhor forma, dependendo da perspetiva. Há muita gente em Portugal que ficará certamente dececionada, porque gostaria de ver o governo punido por Bruxelas ou queria ver uma guerra entre Portugal e a UE.

 

Moral da história: vale sempre a pena negociar e dialogar com a Comissão Europeia, dentro das regras europeias, sem vergar perante a Europa, mantendo o rumo politico, como fez o governo de António Costa.

15
Jul16

Sobre os atentados em Nice

 

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Quando se julgava que terminado o EURO 2016 a ameaça terrorista tinha acabado, eis que Nice foi palco do segundo ataque terrorista mais mortal que França viveu. Um camião varreu literalmente a multidão que festejava o Dia da Bastilha. Há 84 mortos. pelo menos dez são crianças. Contam-se ainda mais de 100 feridos, 18 deles em estado grave.

 

Infelizmente a cada atentado vamos continuar a ficar chocados e incrédulos e depois, como ávidos consumidores de desgraças, vamos ligar a televisão, de preferência a CMTV, para ver e ouvir o pesadelo, o drama, o horror e a tragédia e condenar veementemente estes ataques soezes em sinal de reprovação, para gáudio dos prevaricadores, porque é justamente desta forma que alimentamos a espiral de pânico e assim o objetivo deles é perfeitamente conseguido. Já estava na hora de mudar de atitude, não? Se calhar é mais fácil do que parece…

 

Perante isto, o que fazem os senhores que mandam na Europa? Assobiam para o lado, parecendo que o mais importante, para eles, são as sanções a aplicar a Portugal pelas duas décimas de défice excessivo apresentado em 2015.

 

13
Jul16

A propósito das sanções

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 «O ridículo mata

 

Não ter a noção do ridículo é perder o respeito. A Europa está à beira de perder as duas coisas: a noção do ridículo e o respeito dos cidadãos. Vamos diretos ao assunto: pensar em aplicar sanções a Portugal por causa de duas décimas de défice é só estúpido. Se este assunto fosse assim tão simples, não seria grave. A questão é política, só. No essencial, a Comissão Europeia quer, à força, obrigar o Governo de António Costa a apresentar mais medidas, o tal plano B. E Costa, que já percebeu isso há muito tempo, decidiu aceitar o braço de ferro. Primeiro, porque não quer perder a face. E segundo, porque a sobrevivência política do Governo também depende disso. Se Portugal tiver que sofrer sanções, paciência. Culpa-se o governo anterior e segue-se em frente.

 

O caminho do governo é estreito. Toda a gente sabe isso. Reduzir o défice e cumprir os programas eleitorais de quatro partidos é o equivalente a querer juntar o céu e o inferno, sem se queimar. Mas há uma coisa que ainda ninguém pode tirar a António Costa, que é o benefício da dúvida. As contas fazem-se no final do ano e nessa altura se verá se as metas são mesmo cumpridas, sem necessidade de medidas adicionais.

 

Em segundo lugar, é preciso perceber o que são medidas adicionais. Um eufemismo, por norma, para aumento de impostos e cortes na despesa que, por sua vez, têm sido um eufemismo para cortar salários e pensões. O óbvio para a Comissão Europeia e para o FMI. O impensável para o Bloco de Esquerda, para o PCP, para os Verdes e, claro, para António Costa. Mas que não haja qualquer espécie de dúvida. O Governo tem um plano B e seria completamente irresponsável se não o tivesse. Todos tiveram e António Costa não é exceção. As cativações, já se sabe, são parte desse plano. Mas não é preciso puxar muito pela memória para chegarmos à conclusão de que nos últimos 20 anos não houve um único governo que não tenha recorrido a medidas temporárias para compor as contas. Manda a criatividade. Houve quem vendesse património, quem vendesse créditos fiscais, quem aumentasse impostos. No aperto, faz-se o que for preciso para não perder a face.

 

Mas então, qual é o problema da Comissão Europeia? Ressabio. Não gostou da ultrapassagem pela esquerda que António Costa fez a Passos Coelho, gosta ainda menos dos partidos que suportam o atual governo e odeia que Portugal esteja a reverter medidas que a iluminada troika impôs durante os três anos que esteve cá. Se o PSD e o CDS não podem fazer nada quanto a isso, porque estão em minoria, a Comissão Europeia pode. Ninguém os elegeu para nada mas eles podem tudo, mesmo que isso lhes custe a coerência, o respeito e a noção de ridículo. A coerência, porque nunca nenhum país foi sancionado por ter incumprido o défice, e houve tantos que o fizeram. Mas "a França é a França", não é Jean Claude Juncker? O respeito, porque no meio de um turbilhão de problemas que a Europa enfrenta, tão sérios e tão urgentes, a Comissão Europeia dedica-se a esta infantilidade das sanções, numa demonstração de poder própria dos líderes fracos. E noção do ridículo, isso, já não mora em Bruxelas há muito tempo.

 

Façam o que quiserem. Sanções, multas, peguem num chicote e comecem uma tortura daquelas à antiga. É-me indiferente. Mas depois disso, expliquem-nos qual é a vossa brilhante estratégia europeia que faz com a economia da zona euro esteja praticamente estagnada. Como é que se resolvem crises como a da Grécia? A França pode explicar-nos como é que se ultrapassam os limites do défice e não se é punido a seguir. A Alemanha pode, por obséquio, ensinar-nos a ter um sistema financeiro sólido e bancos à prova de crises. Assim como o Deutsche Bank, por exemplo. Génios líderes europeus, por favor digam lá qual é a solução, qual é o caminho, qual é a estratégia económica que vai tornar a Europa, finalmente, numa grande potência mundial?»

 

Anselmo Crespo

24
Jun16

O Brexit venceu

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O Brexit ganhou, depois de 51,9% dos britânicos votaram a favor da saída do Reino Unido da União Europeia. Na sequência do resultado do referendo britânico, o primeiro-ministro britânico já anunciou a sua demissão. O povo seguiu outra estratégia e precisa de um novo primeiro-ministro para acionar o artigo 50º do tratado de Lisboa, declarou Cameron.

 

A vitória do Brexit vai «exigir, acima de tudo, uma liderança forte, determinada e dedicada», que prepare «uma negociação com a União Europeia». Porém, não vai haver «mudanças imediatas», ou seja, nas próximas semanas, na vida das pessoas, nomeadamente nos imigrantes ou nos turistas, que continuarão a viajar segundo as mesmas regras, tranquilizou o primeiro-ministro britânico.

 

Cameron afirmou que não será ele a encetar esse processo de saída da UE, mas ficará no cargo durante mais três meses até ao congresso do partido conservador. Outubro é o calendário apontado para a saída do poder do homem que decidiu propor o referendo à saída da Europa, para apaziguar um partido conservador cada vez mais eurocético.

 

Boris Johnson, o antigo presidente da Câmara de Londres, é o mais do que provável candidato à substituição de David Cameron na liderança dos Tories, a quem caberá desencadear o processo para a saída da União Europeia, o que poderá levar dois ou três anos.

 

Os mercados já reagiram depois de conhecidos os resultados do referendo britânico. Nos mercados cambiais a libra esterlina caiu para níveis não vistos desde 1985. A dada altura, a moeda britânica chegou mesmo a perder mais de 10% do seu valor para estabilizar em torno dos 8,5%. O setor bancário foi particularmente atingido com o Barclays e RBS a perderem 25% do seu valor.

 

Relativamente ao euro, a libra perdeu cerca de 7%. O euro por sua vez recuou 3,3% face ao dólar, a maior queda desde a criação da moeda única europeia.

 

Na Alemanha, o índice DAX abria a perder cerca de 10%. Em Paris movimento idêntico com um recuo de cerca de 8%.

 

Em Portugal, os juros das Obrigações do Tesouro de Portugal a 10 anos dispararam 32 pontos base para 3,44%. As Obrigações a 10 anos são a medida base para avaliar o risco soberano de Portugal e a subida reflete a reação de um brusco movimento de fuga de ativos de risco, estas Obrigações do Tesouro alcançaram rapidamente esta manhã valores bem próximos de máximos desde há quatro meses, em fevereiro.

 

Os futuros apontam para que vários índices europeus abram a cair mais de 10%, depois das quedas de 8% das bolsas asiáticas. É o futuro da União Europeia no seu todo que está em jogo e os investidores estão a acusar evidente apreensão.