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Narrativa Diária

Não escrever um romance na «horizontal», com a narrativa de peripécias que entretêm. Escrevê-lo na «vertical», com a vivência intensa do que se sente e perturba. Vergílio Ferreira

Narrativa Diária

Sab | 14.12.13

Incidente com voo da TAP da Guiné-Bissau

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A ordem para embarcar 74 sírios no avião da TAP que seguia de Bissau para Lisboa na terça-feira passada terá sido dada, segundo o Público,  por um membro do Governo guineense, que contactou diretamente o chefe de escala da companhia aérea nacional, ameaçando-o de que o avião ficaria retido no aeroporto, caso os passageiros não fossem transportados. As divergências nos passaportes, na maioria falsos, terão sido destetadas no check-in. Os funcionários do aeroporto chamaram ao local o oficial de ligação do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF) que se encontrava na embaixada de Portugal na Guiné-Bissau e que confirmou a falsificação dos documentos. Diferente opinião, contudo, terá tido as autoridades locais que autorizaram o embarque. Decisão a que o chefe de escala da TAP naturalmente se opôs. Terá sido então que recebeu um telefonema ordenando o transporte dos 74 sírios. Houve «ordens superiores» para proceder ao embarque, sob pena de o aparelho ficar retido. A garantir que eram cumpridas estavam as autoridades locais.

A alta representante da União Europeia para os Assuntos Externos, afirmou que a tripulação foi coagida por «um membro superior das autoridades de transição guineenses», acrescentando que este «obrigou a tripulação da TAP a transportar 74 presumíveis cidadãos sírios com passaportes falsos, em total desrespeito pelo direito internacional». A responsável exortou, por isso, «as autoridades de transição a tomar urgentemente as medidas adequadas», citou a TSF. Também nesta sexta-feira, o presidente da TAP, Fernando Pinto, explicou que «não houve demonstração de força perante a tripulação». «A maior pressão foi feita sobre o chefe de escala», disse. O voo decorreu de forma ordeira. Em Lisboa, o SEF esperava os sírios, que formavam várias famílias e já formalizaram o pedido de asilo.

Este incidente levou a TAP a suspender os voos entre os dois países. A companhia não descarta, no entanto, a hipótese de retomar os voos, mas apenas «se não voltarem a acontecer situações deste tipo», referiu Fernando Pinto, frisando que «o aeroporto tem de oferecer uma condição de conforto à empresa». Uma das soluções poderá ser retomar o apoio do SEF em Bissau, que foi proibido pelas autoridades locais há cerca de um ano.

Este incidente já causou baixas no Governo da Guiné-Bissau. O ministro dos Negócios Estrangeiros guineense, Delfim da Silva, entregou ao Presidente da República daquele país, uma carta na qual coloca o lugar à disposição. Para Delfim da Silva, «é óbvio que houve cumplicidade entre pessoas que tinham a obrigação de proteger o país e não protegeram». Não lhe parece possível os 74 sírios entrarem na Guiné-Bissau, via Marrocos, deslocarem-se em Bissau, ficarem alojados num hotel e embarcarem para Lisboa sem «cumplicidade de muita gente». Não cita nomes. Refugia-se numa expressão vaga como «gente ligada à segurança e à imigração». O episódio provocou «um dano grande na diplomacia guineense» que não ajuda em nada as relações com Portugal, nem com a UE. Também não favorece a vida dos cidadãos da Guiné-Bissau que residem em Portugal ou noutro país do velho continente, já que aquela é a única ligação aérea que lhes resta. Enquanto ministro da tutela, Delfim da Silva tentou reduzir os prejuízos.