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Narrativa Diária

Não escrever um romance na «horizontal», com a narrativa de peripécias que entretêm. Escrevê-lo na «vertical», com a vivência intensa do que se sente e perturba. Vergílio Ferreira

Narrativa Diária

Sex | 20.12.13

Faltam 5 dias para o Natal

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Faltam 5 dias para o para o Natal. Estamos naquela época do ano em que há uma espécie de mixed feelings.  Se por um lado é uma época em que as pessoas estão mais felizes devido a toda a magia que a quadra encerra, por outro vive-se um tempo de certa hipocrisia, onde imperam os convívios forçados, os presentes dados quase por obrigação, o cansaço das compras, a fúria consumista com que somos bombardeados diariamente pelo marketing de campanhas publicitárias que começaram em finais de outubro.

Começamos a planear (e a stressar) onde iremos passar a noite da consoada, a quantidade de compras que ainda nos falta fazer, e a reconhecer que apesar da lista de pessoas para oferecer prendas ser menor, de ano para ano, ainda assim gastamos demais, porque recebemos cada vez menos, em nome da bendita crise que há uns anos a esta parte tomou conta de nós.

Nesta época, as pessoas estão dividias. De um lado estão os fiéis ao espírito de Natal e que acham que o mesmo deve ser preservado a todo o custo. Do outro, os anti espírito de Natal, que lutam contra uma cultura de consumismo. No meio, situam-se as pessoas que tentam, apenas, sobreviver a esta época com a devida parcimónia.

Confesso que já gostei muito mais desta época. Aliás, quando era criança, adorava o Natal. Toda aquela azáfama que antecedia a festa parecia-me mágica, apesar de repetida ano após ano. Ficava maravilhada com as iluminações das ruas, com a decoração das lojas, com os anúncios publicitários e sonhava com vários presentes que gostaria de receber.

Depois, recordo-me da excitação da véspera. Da confeção das comidas, dos cheiros característicos. No dia 24, depois da consoada, assistia à Missa do Galo, que era a parte mais espiritual e que dava sentido à quadra. Naquela altura ainda não existia a figura do «Pai Natal». Acreditava-se, então, ser o Menino Jesus que deixava os presentes no sapatinho, o qual havia sido deixado na chaminé na noite anterior. Ansiava pela manhã do dia 25 de Dezembro, em que corria até à cozinha, na expectativa de ver os presentes que estavam no sapatinho. Nunca recebia muita coisa. Aliás, como faço anos em dezembro, normalmente a família juntava dois em um e dava-me um presente melhor no Natal. Não só porque os tempos não eram fáceis, mas porque sobretudo nessa altura ainda não havia esta euforia consumista, tudo se centrava na alegria e na essência da quadra. Acho também que era por isso que se dava verdadeiro valor ao Natal. As prendas que recebia não eram colocadas a um canto ao fim uns dias. Pelo contrário, eram valorizadas e estimadas durante muito tempo. Hoje, a maioria das crianças não tem mínima noção do que é esperar muito por uma coisa. Antigamente só havia presentes no dia do aniversário e no Natal. Como, no meu caso, estas duas festas coincidem no mesmo mês, muitas vezes tinha que esperar um ano por este ou aquele presente. Atualmente as crianças têm praticamente de tudo e é por isso que não ligam a nada e não conseguem dar o devido valor às coisas porque tudo aparece à medida dos seus anseios.

Hoje já não consigo achar tanta graça ao Natal. A casa já não é a mesma, já não vou à missa do galo. A família modificou-se. Muitos familiares já cá não estão e, entretanto, outros foram chegando. O espírito da época também se foi alterando. E, por mais que, pessoalmente, esta altura só me dê vontade de hibernar e acordar apenas no dia a seguir ao Natal, evitando as compras, as filas de trânsito, as comidas, a verdade é que o Natal está (quase) a bater-nos a porta, indiferente à nossa vontade, e, com cortes ou sem cortes, com chumbos ou sem chumbos do Tribunal Constitucional, resta-nos mantermo-nos calmos e preparar-nos para o receber.

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