Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Narrativa Diária

Não escrever um romance na «horizontal», com a narrativa de peripécias que entretêm. Escrevê-lo na «vertical», com a vivência intensa do que se sente e perturba. Vergílio Ferreira

Narrativa Diária

Seg | 06.01.14

«Mudar de paradigma político»

narrativadiaria

Mudar de paradigma político , Paulo Trigo Prereira, Público , 5.01.2014

«O paradigma político que levou Portugal à situação presente deriva dum deficiente funcionamento do sistema político, e dos partidos, caracterizado por alternância democrática entre partidos fechados, sem linhas programáticas sólidas, com informação assimétrica sobre os dados do país, que permitem o uso e abuso, quer do poder pelo governo, quer de demagogia pelas oposições. Simplificando, enquanto estão na oposição, os partidos cativam os eleitores, e estes deixam-se cativar, com promessas de que quando estiverem no poder farão tudo diferente, não cortarão a despesa, nem aumentarão impostos. Após alcançadas as almejadas cadeiras do poder, a primeira reacção é que “as coisas estavam muito pior do que pensávamos”, o que legitima que “afinal temos de adoptar medidas contrárias àquilo que anunciámos no programa eleitoral”. As oposições que não partilham o poder podem continuar com propostas mais ou menos irrealistas, pois nunca serão testadas.

Um aspecto positivo da actual crise é que uma parcela mais substancial da população está mais alerta e não se deixará enganar tão facilmente. Colocará perguntas incómodas. Eleições europeias para quê? Porque é que grande parte dos fundos comunitários continua a ir para a política agrícola comum? Afinal o sistema de Segurança Social é insustentável? Se sim, o que podemos fazer para assegurar pensões dignas para as próximas gerações? Um dos méritos da articulação Governo, troika, Tribunal Constitucional é que pela primeira vez há no cidadão comum a noção clara da restrição orçamental do Estado: se não se corta aqui, é preciso ir cortar ali, ou aumentar a receita acolá. Também começa a haver a noção clara que, para sair da crise, é preciso mudar práticas, mudar comportamentos, alterar instituições.»