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Narrativa Diária

Não escrever um romance na «horizontal», com a narrativa de peripécias que entretêm. Escrevê-lo na «vertical», com a vivência intensa do que se sente e perturba. Vergílio Ferreira

Narrativa Diária

Dom | 12.01.14

Comentário de Sócrates sobre Eusébio

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No seu habitual comentário na RTP, José Sócrates falou sobre a morte de Eusébio. A dada altura, destacou como momento alto, a vitória de Portugal sobre a Coreia do Norte por 5-3 no Mundial de 1966, jogo em que Eusébio marcou 4 golos. O antigo primeiro-ministro afirmou: «Lembro-me que tinha saído de casa com Portugal a perder por 3-0 e fui ouvindo pelas ruas da Covilhã, enquanto ia para a escola, gritos de alegria, através das janelas (…), pelos golos de Portugal. E cheguei à escola e já Portugal ganhava – e foi uma explosão de alegria na escola». O assunto teria morrido aqui, não fosse a circunstância de José Sócrates não ser uma personalidade qualquer. Os seus inimigos têm uma espécie de fixação com ele, “uma sanha persecutória”. Tudo o que ele diz ou faz é comentado e escrutinado ao mais ínfimo pormenor, como foi no caso em apreço. Alguém terá consultado o calendário e verificado que o jogo foi disputado a um sábado à tarde (23 de Julho), em pleno período de férias.

Para a maioria dos portugueses, entre os quais me incluo, o assunto, em si mesmo, é politicamente irrelevante. Para mim, é-me perfeitamente indiferente que o cidadão José Sócrates tenha fraca memória, tenha efabulado uma história pitoresca, ou tenha construído uma narrativa falaciosa, por achar que a mesma enaltecia a sua imagem ou traria audiências ao seu comentário. Mas este simples depoimento movimentou de imediato as hostes anti socráticas. Rapidamente se passou de um assunto insignificante, uma mera história passada há 47 anos, para um acontecimento de cariz político e de Estado: veio à colação a licenciatura, os casos de justiça, PEC IV, a crise, o Estado do país, a relação de Sócrates com a Comunicação Social e outros quejandos. As redes sociais, os blogues e até alguma imprensa especializada dedicaram-se, nestes últimos dias, a esgrimir argumentos sobre a possibilidade de José Sócrates ir a caminho da escola no dia do Portugal-Coreia de 1966. O facto de este assunto ter constituído como um dos temas fraturantes da semana é demonstrativo, por um lado, da importância atribuída ao ex-primeiro-ministro (há os que o odeiam, há os que o adoram, mas ninguém lhe fica indiferente). Por outro, do estado a que chegou o debate político em Portugal - centrado em "fait-divers" - e pouco ou quase nada na essência política e ideológica e isso é naturalmente preocupante.

Estamos a assistir ao triunfo da sociedade espetáculo, onde as principais notícias são de uma vacuidade desconcertante. O mundo real está aos poucos s ser substituído por uma realidade virtual, criada pelas redes sociais e pela internet, que criam factos políticos e marcam a agenda do espaço público.

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