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Narrativa Diária

Não escrever um romance na «horizontal», com a narrativa de peripécias que entretêm. Escrevê-lo na «vertical», com a vivência intensa do que se sente e perturba. Vergílio Ferreira

Narrativa Diária

Qua | 10.04.13

O 'pormenor' da falta de soberania

narrativadiaria

«Perante as muitas e sábias palavras que já foram despendidas a  explicar e comentar a decisão do Tribunal Constitucional e as suas  consequências, faltam, talvez, as mais básicas e evidentes: este Orçamento do  Estado, tal como ele está feito, não visa agradar ninguém dentro do país, mas  sim agradar alguém fora do país.

Esse alguém fora do país, ou seja, o BCE, a Comissão Europeia e  o FMI (vulgo troika) têm pouca paciência para analisar profundamente os  nossos problemas. É triste, eles deviam preocupar-se connosco, como nós nos  devíamos preocupar com o médio-oriente, a situação miserável no Burundi ou o  efeito dos tufões das Filipinas. Mas nem nós nos preocupamos assim tanto com  os outros, nem os outros se preocupam assim tanto connosco.

Por isso, mal o Tribunal Constitucional exarou a sua sentença, a troika mandou-nos arranjar uma solução. Não algo que agrade a  todos e mais ao senhor Reitor da Universidade de Lisboa, ótima e inteligente  pessoa, carregada de razão, mas uma medida qualquer que demonstrasse, a tempo de  uma decisão sobre a maturidade da nossa dívida, a firme resolução de  cumprirmos o défice. E foi o que Vítor Gaspar fez. Puxou do bestunto e tomou  uma medida. Não uma medida justa, porque não foi isso que lhe pediram, nem uma  medida ponderada, porque não lhe deram tempo, mas uma medida qualquer:  congelou tudo.

Se o dr. Gaspar e o Estado português não dependessem do  dinheiro que a troika manda para pagar salários e pensões, poderia  ter mandado os tipos passear. Se o dr. Gaspar tivesse moeda soberana,  podia mandar desvaloriza-la e, de um dia para o outro, todos nós ganhávamos  menos 20% em divisas internacionais (dólares, marcos, euros) sem que o TC se  pronunciasse. Mas no dr. Gaspar não tem essa soberania.

Sempre que nos esquecemos disto, parecemos aqueles fidalgos  arruinados que pensam ir passar férias para a quinta que já venderam.».

Henrique Monteiro - Expresso online