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Narrativa Diária

Não escrever um romance na «horizontal», com a narrativa de peripécias que entretêm. Escrevê-lo na «vertical», com a vivência intensa do que se sente e perturba. Vergílio Ferreira

Narrativa Diária

Qui | 18.04.13

A carta de Pedro e o sermão de António

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Muio engraçada esta "Carta de Pedro e o sermão de António" na perspetiva de João Miguel Tavares:

«Primeiro, apareceu Pedro com uma carta, estendendo a mão a António. A carta propunha um “diálogo” e um “entendimento” entre o Governo e o PS sobre as medidas que devem ser adoptadas para fazer face ao chumbo do orçamento no Constitucional, dado “o caminho muito estreito que temos pela frente”. Mas antes que António começasse a sonhar alto, Pedro tratou logo ali de traçar os limites desse diálogo, numa frase que faz tão mal à língua portuguesa como ao consenso nacional: “A nossa margem para negociar com os parceiros europeus e internacionais uma flexibilidade adicional não é iável (sic)”. Ou seja, Pedro quer dialogar com António no mesmo sentido que eu quero dialogar com um dos meus filhos depois de ele ter tido más notas na escola – não é para ouvir o que ele tem para dizer, mas para eu lhe dizer o que ele tem de fazer. Pedro está cheio de vontade de preservar o “consenso nacional”, está aberto a quaisquer sugestões do António, está até disponível para delinear uma “agenda de dinamização económica”. Está disposto a tudo – desde que a base de partida para esse “diálogo” seja que “a nossa margem para negociar não é viável (sic)”. Evidentemente, não é só a língua portuguesa que está aqui em causa – é toda e qualquer possibilidade de entendimento com o PS. A carta transformou a política portuguesa num musical de Hollywood: de repente, eis que Pedro interrompe a acção e começa a cantar. A cantoria nada tem a ver com o que se passou antes (alguém se lembra do debate da moção de censura de há 15 dias?), mas Pedro não quer nem saber. Palmas pela sua enorme lata. Infelizmente, há um problema: nota-se demasiado que ele está a fazer playback. Tal como em Serenata à Chuva, há alguém a cantar atrás da cortina – e por muito que a troika gostasse de empurrar Pedro para os braços de António, talvez não seja má ideia recordar que há três anos era Sócrates que queria dançar o tango com Pedro. E todos nós sabemos como essa dança acabou. Mas claro: depois da carta de Pedro, António não se conteve e deu mais um dos seus sermões. E nesses casos, ao sermos inevitavelmente confrontados com a imparável lógica do seu  raciocínio, percebemos que só mesmo António para fazer Pedro parecer um visionário. É que, segundo ele: a) O PS não concorda com a austeridade imposta pela troika. b) A troika quer continuar com a austeridade e não concorda com as medidas sugeridas pelo PS. c) O PS quer honrar os seus compromissos e negociar com a troika o fim da austeridade que a troika não quer negociar. Espera aí! Será que a) e b) não são incompatíveis com c)? Temo bem que sim. A grande solução que António tem para o país consiste em renegociar com a troika uma política de austeridade que a troika já disse não querer renegociar. Como programa político é não só de uma desconcertante inteligência como de um pragmatismo avassalador. Se Portugal fosse um plano de negócios, a grande ideia de António seria: “Sentar-me à mesa com investidores”. Isso é um plano de negócios? Não, não é um plano de negócios, mas pelos vistos o PS propõe-se concorrer a eleições com o mais original programa político de todos os tempos: renegociar com os credores. E se os credores não quiserem renegociar? Bom… então… sei lá… inventa-se uma cena. Senhoras e senhores, não sei o que foi mais divertido nesta semana: se a carta do ingénuo São Pedro, se o sermão do iluminado Santo António. Entre a hipocrisia de um e as alucinações do outro, venha o Diabo e escolha.».

João Miguel Tavares, Público, 18 de Abril de 2013