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Narrativa Diária

Não escrever um romance na «horizontal», com a narrativa de peripécias que entretêm. Escrevê-lo na «vertical», com a vivência intensa do que se sente e perturba. Vergílio Ferreira

Narrativa Diária

Ter | 25.03.14

Taxar levantamentos bancários como incentivo à poupança

 

 (imagem da Lusa)

A presidente do Conselho de Finanças Públicas, Dra. Teodora Cardoso, no primeiro dia de jornadas parlamentares do PSD, que decorrem em Viseu, teve uma ideia peregrina: por taxar levantamentos bancários como incentivo à poupança, ou seja, colocar os cidadãos a receber os salários e pensões numa conta poupança, sendo posteriormente taxados pela movimentação que fazem dessas verbas. Na prática o que a Dra. Teodora Cardoso propõe é taxar o ordenado auferido quando este for utilizado para pagar as despesas da casa, da água, da luz, do gás, supermercado, etc.

Pelo amor da Santa, Dra. Teodora Cardoso, os portugueses vivem em privação material severa, o que significa que não tem condições financeiras suficientes para responder às necessidades mais básicas. Segundo um estudo do INE, hoje divulgado, 10% já não conseguem pagar renda da habitaçao, comer uma refeição de carne ou peixe, aquecer a casa ou fazer face a uma despesa inesperada. O mesmo estudo revela que o número de portugueses em risco de pobreza aumentou em 2011 e 2012, atingindo 18,7% da população nacional. Com este quadro como é que se pode pensar em taxar os ordenados mensais numa perspetiva de poupança?

Ter | 25.03.14

José Socrates passa de comentador a entrevistado

 

 

(imagem RTP)

Sócrates foi contratado pelo anterior Direção de Informação da RTP, pro bono, para fazer comentário e análise política sobre os assuntos mais pertinentes da semana num espaço de “comentário” que foi  apresentado pela estação como sendo  “A opinião de José Sócrates”, tendo sido escolhida como moderadora a jornalista Cristina Esteves.

No último domingo, os telespectadores foram surpreendidos com uma «entrevista confrontacional» em que José Rodrigues dos Santos munido dos seus «arquivos» resolveu questionar o ex-primeiro-ministro com diferentes perspetivas entre o passado (seis anos da sua governação) e o presente (atual governo). O vídeo foi colocado nas redes sociais, tornou-se viral e motivou um coro de protestos.

É editorialmente defensável que José Rodrigues dos Santos tenha optado por aquela postura, nos moldes em que o fez? Penso que não. E a principal razão é que  o modelo adotado no passado domingo defrauda as expectativas do próprio entrevistado e dos telespectadores que se sentaram em frente ao écran na esperança de ouvir José Sócrates comentar sobre assuntos da atualidade e não ser entrevistado sobre questões da sua governação. Usar um espaço em que convidam Sócrates para opinar e transformá-lo em entrevista é, no mínimo, desonesto o que até motivou um desabafo do próprio: «não vinha preparado para isto».

Neste tipo de programas, o jornalista é um suporte do comentador, para lhe colocar as questões que devem ser colocadas e para evitar que ele se afaste do tema que lhe foi lançado ou divague para outros da sua conveniência. Será interessante perceber o que acontecerá quando, salvaguardadas as respetivas diferenças, o jornalista da RTP moderar o espaço de comentário de Nuno Morais Sarmento.

Querem passar a entrevistar José Sócrates todas as semanas? Nada contra. Mas então é necessário criar outro formato, outro programa, e explicar previamente os conteúdos e o seu alinhamento. Os portugueses que mensalmente pagam uma taxa de audiovisual para sustentar a RTP e os seus funcionários têm o direito de saber ao que vão.

Nisto como em tudo na vida têm que existir princípios e valores éticos muitos claros,  que não permitam alterar as regras a meio do jogo a seu bel prazer, sob pena dos telespectadores perderem a confiança na estação televisiva, mais quando se trata de um canal de serviço público de televisão que é pago integralmente com dinheiros públicos. Muito embora isto seja válido não apenas para o comentador José Sócrates, mas para todos os outros comentadores residentes que pululam pelas várias estações de televisão.

Tem razão Daniel Oliveira quando fala de uma cilada - mas, fora o seu lado pouco ético e até desonesto, ilustrativo do poder dominante dos media, a estratégia utilizada foi inócua para o “entrevistado”. A meu ver e salvo melhor opinião, José Sócrates desembraçou-se bem da suposta “armadilha” que lhe foi preparada pelo “entrevistador”porque está mais que experimentado neste tipo de entrevistas.

O facto teve até, ao meu ver, um lado bastante positivo para a RTP, porquanto deu um interesse e uma visibilidade acrescidos ao um programa que manifestamente o não tinha, tendo muito provavelmente feito disparar as audiências. Se o objetivo foi esse, então penso que foi atingido.

Seg | 24.03.14

Os cortes não são para todos

(fonte:henricartoon)

Na mesma altura em que foram anunciados, pelo ex-líder do PSD, Marques Mendes, novos cortes na despesa para o próximo ano, entre 1,5 milhões e 1,7 milhões de euros, o jornal i destaca hoje que só os três membros da comissão instaladora do novo Banco do Fomento vão receber quase meio milhão de euros/ano em salários.

O despacho assinado pela ministra das Finanças e publicado na sexta-feira em Diário da República, fixa o ordenado de Paulo Pereira da Silva (administrador do BCP) em 13 500 euros por mês,  o da vogal Carla Chousal (vice presidente do BPI Gestão de Ativos) em 12 515 euros e o do vogal Nuno Ferreira Soares (diretor da banca de investimento do BCP) nos 8034 euros.

Coloca-se por um lado em causa a “obscenidade” desta medida para muitos portugueses que sofrem mensalmente duros cortes nos seus salários de mil euros, 900 euros ou 600 euros, e por outro questiona-se a pertinência de um novo banco público quando já existe um banco estatal. O Governo entendeu que a Caixa Geral de Depósitos não servia os propósitos de gestão dos programas comunitários, coisa difícil de perceber, e decidiu, assim, criar um novo banco público, revelando uma desconfiança na atual CGD e no seu modelo institucional. 

Dom | 23.03.14

Obrigada, Bruno de Carvalho

Faz hoje um ano que Bruno de Carvalho foi eleito presidente do Sporting Clube de Portugal. A tarefa que o Presidente tinha em mãos não se afigurava nada fácil, depois de receber um clube que em termos desportivos tinha feito a pior época desportiva de que há memória. A situação económico- financeira da SAD era caótica, com um passivo astronómico e vários passes de jogadores alienados a fundos de investimento. A herança que recebera não podia ser pior. Contudo, e ao contrário do que era expectável, o primeiro ano à frente dos destinos do SCP excedeu as expectativas mais otimistas.

Em termos desportivos os resultados estão à vista. O Sporting, com metade do orçamento da época anterior e um investimento bastante inferior a Benfica e FC Porto, surge a sete jornadas do final do campeonato ainda em condições de discutir o título, a sete pontos do Benfica e com cinco pontos de avanço sobre o FC Porto; a aposta no treinador, Leonardo Jardim, pareceu arriscada, mas tem-se vindo a provar que a escolha de Jardim foi uma aposta ganha; aproveitou jogadores da formação do SCP, não só por questões de índole financeira, mas também por uma questão de identidade com o clube, deixando bem clara a sua aposta na formação; reforçou apenas algumas posições mais deficitárias, sendo que a maioria delas se veio a revelar eficaz, caso de Montero e Slimani. Se continuarmos a este ritmo, tudo indica que poderemos acabar esta época em segundo lugar, à frente do F.C Porto, o que já não acontecia há anos. Na pior das hipóteses, poderemos terminar em terceiro, ainda assim com possibilidade de acesso à Liga dos Campões (embora naturalmente tenhamos que disputar uma pré-eliminatória). 

Depois, a direção do SCP valorizou os ativos do clube, nomeadamente William Carvalho (enorme jogador) atualmente titular indiscutível no Sporting e internacional da Seleção Nacional, marcando muito provavelmente presença no Mundial de 2014 no Brasil. Mas para além de William, podemos ainda falar do crescimento de Adrien Silva e Cédric Soares, entre outros.

Conseguiu vender dois jogadores, Bruma e Illori, que claramente mostraram que não queriam jogar com as cores da camisola do Sporting. Na sequência deste negócio o clube encaixou mais de 17 milhões de euros. Blindou ainda o passe de alguns jogadores, com cláusulas de rescisão adequadas ao seu real valor, mostrando que a época de saldos acabou.

No plano económico-financeiro, conseguiu dar um novo fôlego ao SCP. Reduziu a despesa do clube, sobretudo nos custos com pessoal. Esta política financeira permitiu que o Sporting acabasse o primeiro trimestre da época com 7,2 milhões de euros de lucro (em contraste com os 7,7 milhões de prejuízo em igual período da época passada), sendo o único clube dos "grande" a registar lucros nesta época.

Para além das alterações operadas no seio Sporting, Bruno de Carvalho lutou contra poderes instalados no futebol, afrontando a corrupção e as más arbitragens, não se calando face às injustiças, não permitindo atos vexatórios ao Sporting e apresentando propostas claras para melhorar e dignificar o futebol. De entre a propostas apresentadas destaca-se: o aumento da proteção dos clubes formadores, a maior profissionalização e transparência nos processo de nomeação e classificação dos árbitros e a regulamentação das apostas online como fonte de receitas desportivas.

Bruno de Carvalho devolveu assim a honra e o prestígio que o clube merece e que há muito tempo havia perdido. Ter-se-á por vezes excedido? Certamente. Houve momentos em que não concordei totalmente com algumas palavras que proferiu. Mas é justo reconhecer que desde a presidência de João Rocha que não tínhamos um presidente que dignificasse tanto o nosso clube. Por tudo isto, resta-me agradecer, enquanto adepta,  a Bruno de Carvalho por tudo de bom que trouxe ao Sporting.

Dom | 23.03.14

«Nunca te distraias da vida»

 

«Nunca te distraias da vida» é um livro da autoria de Manuel Forjaz que luta contra um cancro do pulmão desde 2010 que li numa noite e que recomendo.

São 20 lições que resultam da experiência adquirida para ultrapassar a doença e que podem ajudar doentes oncológicos, mas igualmente outros que, livres da doença, queiram aprender a dar mais valor e sentido à sua vida. Porque, como refere o autor a dado momento do livro, todos morremos, infelizmente disso ninguém escapa. A originalidade não está tanto em falar de morte, que como sabemos é certa e implacável, mas sim lembrar-nos de não se esquecer de viver a vida, «que é fantástica, surpreendente e extraordinária».

É sobretudo um livro despretensioso, escrito por um homem que luta pela vida desde há 4 anos, sem nunca baixar os braços e com uma enorme fé em Deus e na ciência; um homem que tem procurado todas as soluções possíveis para vencer a situação difícil em que se encontra, recorrendo para o efeito a todos os métodos de tratamento disponíveis que incluem a medicina tradicional e as medicinas alternativas com a mesma fé; um homem que vive com a certeza de que, mais tarde ou mais cedo, o cancro poderá matá-lo, mas não conseguirá nunca impedi-lo de viver a vida. Ou como o próprio refere «poderei morrer da doença, mas a doença não me matará». 

Sab | 22.03.14

Os investidores «assustam-se» quando ouvem falar de reestruturação da dívida

 

 

O Presidente da República alertou para a «forma muito negativa» como os investidores estrangeiros reagem quando ouvem falar em reestruturação da dívida, porque a ligam a «perdão» e «assustam-se» em relação a possíveis investimentos no país.

Para Cavaco Silva, o importante é agradar aos mercados e não perturbar os possíveis investidores, sendo que o povo português tem que aguentar tudo e mais um par de botas. É inaceitável que, uma nação com mais de oito séculos de existência como Portugal, permaneça vergada aos caprichos de quaisquer investidores privados.

Sex | 21.03.14

Dia Mundial da Poesia

 

Não sou nada.

Nunca serei nada.

Não posso querer ser nada.

À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

  

Janelas do meu quarto,

Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é

(E se soubessem quem é, o que saberiam?),

Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,

Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,

Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,

Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,

Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,

Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

  

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.

Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,

E não tivesse mais irmandade com as coisas

Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua

A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada

De dentro da minha cabeça,

E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

  

Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.

Estou hoje dividido entre a lealdade que devo

À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,

E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

 

Falhei em tudo.

Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.

A aprendizagem que me deram,

Desci dela pela janela das traseiras da casa.

Fui até ao campo com grandes propósitos.

Mas lá encontrei só ervas e árvores,

E quando havia gente era igual à outra.

Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?

  

Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?

Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!

E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!

Gênio? Neste momento

Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,

E a história não marcará, quem sabe?, nem um,

Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.

Não, não creio em mim.

Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!

Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?

Não, nem em mim...

Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo

Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?

Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -

Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,

E quem sabe se realizáveis,

Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?

O mundo é para quem nasce para o conquistar

E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.

Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.

Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,

Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.

Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,

Ainda que não more nela;

Serei sempre o que não nasceu para isso;

Serei sempre só o que tinha qualidades;

Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,

E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,

E ouviu a voz de Deus num poço tapado.

Crer em mim? Não, nem em nada.

Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente

O seu sol, a sua chava, o vento que me acha o cabelo,

E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.

Escravos cardíacos das estrelas,

Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;

Mas acordamos e ele é opaco,

Levantamo-nos e ele é alheio,

Saímos de casa e ele é a terra inteira,

Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.

  

(Come chocolates, pequena;

Come chocolates!

Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.

Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.

Come, pequena suja, come!

Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!

Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,

Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)

  

Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei

A caligrafia rápida destes versos,

Pórtico partido para o Impossível.

Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,

Nobre ao menos no gesto largo com que atiro

A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,

E fico em casa sem camisa.

 

(Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,

Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,

Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,

Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,

Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,

Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,

Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -

Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!

Meu coração é um balde despejado.

Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco

A mim mesmo e não encontro nada.

Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.

Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,

Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,

Vejo os cães que também existem,

E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,

E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)

  

Vivi, estudei, amei e até cri,

E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.

Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,

E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses

(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);

Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo

E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente

  

Fiz de mim o que não soube

E o que podia fazer de mim não o fiz.

O dominó que vesti era errado.

Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.

Quando quis tirar a máscara,

Estava pegada à cara.

Quando a tirei e me vi ao espelho,

Já tinha envelhecido.

Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.

Deitei fora a máscara e dormi no vestiário

Como um cão tolerado pela gerência

Por ser inofensivo

E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

 

 

Essência musical dos meus versos inúteis,

Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,

E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,

Calcando aos pés a consciência de estar existindo,

Como um tapete em que um bêbado tropeça

Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.

 

Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.

Olho-o com o deconforto da cabeça mal voltada

E com o desconforto da alma mal-entendendo.

Ele morrerá e eu morrerei.

Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.

A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.

Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,

E a língua em que foram escritos os versos.

Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.

Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente

Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,

 

Sempre uma coisa defronte da outra,

Sempre uma coisa tão inútil como a outra,

Sempre o impossível tão estúpido como o real,

Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,

Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.

  

Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)

E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.

Semiergo-me enérgico, convencido, humano,

E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.

 

Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los

E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.

Sigo o fumo como uma rota própria,

E gozo, num momento sensitivo e competente,

A libertação de todas as especulações

E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.

  

Depois deito-me para trás na cadeira

E continuo fumando.

Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.

 

(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira

Talvez fosse feliz.)

Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.

O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).

Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.

(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)

Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.

Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo

Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.

 

(poema "Tabacaria" - Álvaro de Campos - heterónimo de Fernando Pessoa)

Sex | 21.03.14

Francisco Assis sobre Medeiros Ferreira

«(...)Neste tempo tão complexo, vai-nos fazer falta a inteligência de Medeiros Ferreira. Ele tinha essa capacidade, tão açoriana, de compreender os labirintos em que simultaneamente nos perdemos e nos encontramos. Os caminhos lineares constituem a utopia dos homens simples. Têm um pequeno problema: não existem. Por isso mesmo é que continuamos a precisar de inteligências como a de Medeiros Ferreira. A sua obra persistirá como uma bússola para podermos compreender os nossos caminhos do futuro. Sem, contudo, termos a certeza de os compreender ou de os antecipar. A humildade é a melhor aliada da inteligência».

Este é um excerto de um excelente texto de Francisco Assis, sobre Medeiros Ferreira, ontem, no Público.