Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Narrativa Diária

Não escrever um romance na «horizontal», com a narrativa de peripécias que entretêm. Escrevê-lo na «vertical», com a vivência intensa do que se sente e perturba. Vergílio Ferreira

Narrativa Diária

Não escrever um romance na «horizontal», com a narrativa de peripécias que entretêm. Escrevê-lo na «vertical», com a vivência intensa do que se sente e perturba. Vergílio Ferreira

Qua | 31.10.18

Angela Merkel

 

img_7508_770x433_acf_cropped.jpg

A chanceler alemã, Angela Merkel, integrou a CDU, após a queda do Muro de Berlim. Foi ministra de Helmut Kohl, até ser eleita líder do partido em 2000. Cinco anos depois chegava a chanceler, concorrendo contra Gerhard Schröder. Anunciou agora que não irá recandidatar-se à presidência da CDU, depois de 18 anos à frente do destino do partido, mantendo-se, no entanto, no governo do país até ao final do mandato.

 

O anúncio surge após a CDU ter assegurado uma vitória nas eleições no estado federado de Hesse, mas tendo obtido o pior resultado em mais de 50 anos, com apenas 28% dos votos, e permitido a entrada da extrema-direita na assembleia regional.

 

Numa Europa conturbada, também a Alemanha e Angela Merkel viram-se a braços com uma perda da popularidade. A crise de refugiados nos últimos anos, a que a chanceler alemã não virou costas, dividiu opiniões.

 

Os últimos dois mandatos de Merkel espelham bem como pode ser antagónica a imagem interna e externa de um líder político. Se na crise europeia a chanceler viu a sua popularidade internacional cair a pique para agradar à opinião pública alemã, o tema dos refugiados granjeou elogios depois de Merkel ter decidido abrir as fronteiras a cerca de um milhão de refugiados sírios, enquanto outros responsáveis políticos europeus, lhes fechavam as portas.

 

Esta atitude da chanceler colocou a sua popularidade interna em risco, sujeitou-a às críticas da direita mais extremista, viu uma força xenófoba ganhar terreno eleitoral, mas não abdicou dos princípios humanitários em que sempre acreditou.

 

Foi a Time que em 2015 a elegeu Personalidade do Ano, chamando-lhe a «Chanceler do mundo livre», a CNN apelidou-a da «líder moral do Ocidente».

 

Admirada por quem já a contestou, criticada por quem já a elogiou, mas respeitada por quase todos, ninguém duvida que Angela Merkel terá lugar garantido na História Mundial.

Ter | 23.10.18

Das incompatibilidades dos ministros

doc2018052324230606pet_61379889047b.jpg

«O conceito de transparência instalou-se, e bem, democracia, mas está a abranger um caminho sem limites. A transparência em política tem a ver com a observação do poder e do controle dos cidadãos tendo em vista o controle da corrupção e tráfico de influências.

 

Mas a transparência tem de ser equilibrada e proceder com o bom senso e não servir para perseguições a cidadãos e políticos de que não gostamos ou nos possam fazer sombra política consoante os nossos desejos.

 

O entusiamo pela luta por determinada causa como a transparência não pode esconder os seus inconvenientes, as dificuldades ao seu exercício e os seus efeitos secundários, por isso deve ser equilibrado com outros instrumentos que não sejam apenas a transparência pela transparência.

 

Numa democracia requer-se transparência, mas esta deve ser promovida com peso conta e medida porque, a democracia, não a suporta em excesso. A democracia dispõe de múltiplos meios para observar e avaliar os governos e em paralelo e em demasia os órgãos de comunicação competem entre si pela venda da informação que vão recolhendo em nome da transparência.

 

Em democracia os cidadãos dispõem de vários meios para observação e avaliação dos governos tais como o controle parlamentar e judicial, o papel das agências de regulação e hoje em dia as redes sociais onde quem as frequenta acha que tudo o que se passa é objeto de observação e debate público, não raras vezes propositadamente distorcida e enviesada.

 

A transparência em democracia não é, por vezes, tão transparente quanto parece porque os partidos, quando estão na oposição, utilizam-na para destruir o caráter de quem esteja no poder governativo. A direita, com a ajuda de alguns órgãos de comunicação sob os mais variados pretextos procura algo que a possa ajudar a destruir ministros e detentores de outras funções públicas atuando com uma vigilância interesseira sobre os governantes.

 

É um facto que em política a sensação de controle melhora os comportamentos ou serve como dissuasão para não se cometerem erros que têm a sua origem no segredo e na opacidade, mas, para isso, a transparência tem que ter bom senso e não servir apenas como arma de arremesso a quem não interessa a determinado partido ou grupo político pelas mais diversas circunstâncias como, por exemplo, fazer simplesmente oposição política em substituição de contributos para a respetiva correção.

 

A observação, o controle e transparência exigida aos políticos tem efeitos secundários que anteriormente referi. A vigilância extremada sobre os políticos e os governantes leva-os a proteger excessivamente as suas ações e os seus discursos. Assim, políticos ao saberem que os seus mais pequenos atos e declarações são escrutinados e difundidos espartilham a sua comunicação.

 

A nossa democracia cada dia empobrece mais pelos discursos vazios do que pelo ocultamento expresso da informação quer pelos governantes quer pela oposição. O escrutínio da vida privada dos políticos e a exigência da transparência tende a exacerbar-se mais quando o governo está nas mãos de um partido de esquerda do que nas alturas em que é a direita que o detém.

 

O tal princípio da transparência tão apregoado não pode ser um poder absoluto visto que a vida política, mesmo que seja numa pequena parcela, requer espaços de discrição como em qualquer outra profissão como a dos jornalistas aos quais se reconhece o direito de não revelar as suas fontes sem o que não poderiam fazer o seu trabalho.

 

Até aqui referimo-nos à transparência política das decisões tomada e considero que nem tudo pode ser transmitido porque determinadas negociações se são divulgadas poderia não ser, com certeza, bem-sucedidas. Todavia, o controle das incompatibilidades sobre políticos para cargos governamentais deve ser transparente, mas como a do exercício do poder não pode ser em exagero fazendo com isso campanhas políticas destrutivas.

 

Se eu for um técnico e político competente e convidado para dar um contributo positivo ao meu país numa função governativa e, eventualmente, um elemento da minha família estiver a exercer funções de responsabilidade numa empresa ou instituição privada que esteja no domínio da pasta que me foi distribuída e se isso o obrigar a deixar esse posto de trabalho deverei, ou não, aceitar o lugar? Isto parece-me um absurdo da transparência. Há, decerto, outros meios de controle.

 

Analisemos numa perspetiva mais prática: quem for convidado para ministro de uma pasta de economia ou qualquer outra, e se alguém da família ocupar um lugar de responsabilidade numa grande empresa ou instituição que pertença à área da referida pasta há eventuais incompatibilidades, logo, há que demitir-se do emprego onde se encontra ou então não aceitar a pasta. Deverá então procurar-se alguém com competências políticas e técnicas que ande por aí sem trabalho e sem prática para se convidar para a função?

 

O raio que os partam com a transparência e com as eventuais incompatibilidades!»

 

Manuel Rodrigues

Dom | 21.10.18

Orçamento eleitoralista e o talento político de António Costa

1297700.jpg

«O Orçamento do Estado para 2019 é eleitoralista, diz-nos a direita em uníssono. O oráculo do país, Marques Mendes, anunciou numa das suas preleções semanais que este Orçamento “é o mais eleitoralista possível”. Rui Rio disse ter “temores que o Orçamento possa ter um perfil eleitoralista”. No Obs«ervador, os spin doctors do CDS são taxativos: “É eleitoralista, da mesma forma que o são todos os orçamentos de final de ciclo político.” Não há como escapar, se há algo que une a direita nos dias de hoje, é o dedo em riste e o grito “eleitoralismo”.

 

O que entende a direita por eleitoralismo? O aumento das pensões que estiveram congeladas no tempo em que PSD e CDS estiveram no poder? Será a redução da fatura da eletricidade, no país que tem da energia mais cara da Europa? Serão os descongelamentos da administração pública após mais de uma década de perda salarial? Será a dignidade de acabar com a dupla penalização na antecipação da reforma para quem tem longas carreiras contributivas? Será a redução do valor máximo das propinas que, desde os tempos de Ferreira Leite, nunca tinham baixado sequer um cêntimo? É o aumento do salário mínimo nacional para 600 euros? São os passes que dão às famílias um verdadeiro acesso aos transportes públicos?

 

Podia continuar, mas a conclusão está à vista: a direita está em crise e sem projeto político para o país. PSD e CDS acusam de eleitoralismo qualquer Orçamento que melhore as condições de redistribuição da riqueza nacional porque não têm nenhum programa para além da austeridade perpétua. A troika deixou o país, mas a direita ainda não fez o seu luto. O projeto da direita resume-se ao verbo “cortar” e ao mantra do “vivemos acima das nossas possibilidades”. Por isso, esperavam o diabo em 2016, suspiravam pela pressão europeia em 2017 e desesperam com o desempenho da economia em 2018. Acima de tudo, temem chegar a 2019 com a realidade a provar que não era inevitável que os nossos filhos tivessem uma vida pior do que a nossa.

 

Mas há outras contas a fazer, particularmente na subserviência do PS às metas europeias de défice. É aqui que Pacheco Pereira tem razão quando nos diz manietados por Bruxelas e pela Comissão Europeia. Este é o Orçamento de Bruxelas na parte em que o PS rejeitou libertar o país do peso da dívida e dos tratados que sufocam o Estado social e a economia. Mas há uma parte do Orçamento que resiste e afronta a burocracia europeia quando aumenta o salário mínimo nacional, reduz o preço da eletricidade, descongela carreiras, aumenta pensões, reduz o valor das propinas ou apoia desempregados de longa duração. No fundo, a parte em que o PS é obrigado a negociar e a ceder à esquerda.

 

O caminho feito desde 2015 demonstra que é possível redistribuir a riqueza, recuperar rendimentos do trabalho e combater a pobreza. No entanto, como já foi identificado, há fragilidades estruturais que se mantêm. A começar pela recuperação urgente dos serviços públicos. A obsessão do PS pelas regras europeias e as suas metas de défice travaram o investimento público que se afigura necessário em setores-chave como a saúde, os transportes públicos ou a educação. Mas, olhando para o saldo final, a atual solução política resgatou a confiança no futuro, no progresso e isso não é coisa pouca. Em parte, isso explica o insucesso da extrema-direita no nosso país. Quando há esperança no futuro e espaço para o progresso social, a insegurança, a instabilidade e o medo recuam — o caldo de onde se faz o biótopo do radicalismo de direita.

 

No último Orçamento da legislatura há a tentação de nomear “quem teve as vitórias políticas mais importantes”. Para mim, a resposta é clara: foi o povo português. Que teve a coragem de não ceder a chantagens. Mostrou que todos os votos são úteis e que podem fazer a diferença na definição das políticas públicas. Provou-se que a pluralidade traz mais benefícios do que qualquer maioria absoluta. Uma lição que deve ser inscrita na história do país.

 

Não há um só português, independentemente das suas opções partidárias, que não reconheça o enorme talento político que António Costa transporta consigo. Não é fácil encontrar alguém que tenha uma estrela tão presente como a que escolheu Costa. Costa sabe o que são derrotas. Isso aconteceu na Juventude Socialista, na Federação do PS de Lisboa, na Câmara de Loures, nas eleições legislativas de 2015. Também sabe o que são vitórias piquenas, como a primeira de Lisboa. Acontece que de todas saiu mais forte e num outro patamar de reconhecimento. Não se importariam, os mais atentos estudiosos da psicologia política, de saber o que leva Costa a este biorritmo de guerras perdidas e de vitórias posteriores amplas, que se afirmam para além do seu espaço natural.

 

Todos os governos têm os seus altos e baixos. O presente, que nasceu de uma realidade política excêntrica, teve poucos momentos baixos, mesmo que pareça terem existido numerosos. O resultado, depois de três anos de exercício, é muito positivo, ainda mais porque nunca esperado.

 

Há duas caraterísticas que fazem dele uma “chaimite” invencível. A primeira é a presidencialização da ação política. Ela acontece por decorrência da personalidade de quem o lidera e verifica se pela idiossincrasia dos que o integram. A segunda é a da gestão flexível das áreas governativas e das hierarquias. O que importa é que as coisas corram bem, independentemente de quem as resolve ou trata. A tudo isto soma-se a duplicidade genética do chefe do Governo: disponível para todos; gestor de acordos com todos, limitador dos parceiros menores.

 

A remodelação que se verificou esta semana quer dizer muito do que espera Costa deste último ano. Claro que espera a aprovação do Orçamento; claro que espera que Centeno continue a garantir o espremer do défice e a redução da dívida; claro que espera que o PS ocupe tudo o que houver para ocupar, transformando-se no único partido capaz de ser governo por agora. ».

 

Presidente do grupo parlamentar do Bloco de Esquerda, (Pedro Filipe Soares) no Público Edição Digital Porto

 

Seg | 15.10.18

Remodelação no Governo

remodelacao_gov.jpg

António Costa decidiu operar uma remodelação mais alargada no seu governo à boleia da demissão de José Azeredo Lopes do cargo de ministro da Defesa, que teve, como se sabe, origem no material militar desaparecido do paiol de Tancos e em toda a telenovela que  entretanto se gerou.

 

A um ano do fim da legislatura, António Costa muda quatro ministros: Pedro Siza Vieira fica com a pasta da Economia e acumula com a de adjunto do primeiro-ministro. João Gomes Cravinho sucede a Azeredo Lopes no ministério da Defesa. Na Saúde Marta Temido substitui Adalberto Campos Fernandes. Na Cultura Castro Mendes dá lugar a Graça Fonseca.

 

Em termos de orgânica governamental, o ministro do Ambiente, João Pedro Matos Fernandes, passa a ser ministro do Ambiente e da Transição Energética, com a inclusão da Secretaria de Estado da Energia na sua esfera de competências (Siza Vieira não podia tutelar o sector da energia, dado a existência de conflitos de interesses) e a consequente saída do secretário de estado da energia, Jorge Seguro Sanches.

 

Esta remodelação feita no recato, apanhou todos de surpresa. Teve o mérito de fazer um refresh no governo, dando-lhe algum fôlego para o que resta até às próximas legislativas, substituindo alguns dos ministros mais contestados, desviando com isso o foco das atenções do caso de Tancos.

 

No meio de toda esta renovação, mantêm-se o ministro da Educação. António Costa terá querido mantê-lo, porquanto, a sua saída, nesta altura do campeonato, poderia significar uma cedência aos professores e à Fenprof. E Costa como político hábil, que é, não quer de todo passar essa imagem.

 

Com esta remodelação em áreas cirúrgicas e mais desgastadas do Governo, Costa tornou o executivo com maior peso político e mais coeso, já que os novos ministros são da sua confiança pessoal e mais identificados com o partido socialista.

Qua | 10.10.18

Inacreditável!

43588794_2088704037855119_1627108107656101888_n.jp

Alunos do 5.º ano de escolaridade de uma escola no Porto, foram inquiridos através de uma ficha sociodemográfica, onde constam perguntas como: namoras atualmente? já namoraste anteriormente? ou sinto-me atraído por: homens, mulheres ou ambos.

 

No documento, é ainda pedido aos alunos que indiquem a sua idade, nacionalidade e género, bem como as habilitações académicas do encarregado de educação.

 

O caso torna-se tão ou mais ridículo quando percebemos que os alunos têm apenas 9 anos.

 

A imagem do inquérito tornou-se viral nas redes sociais, suscitando comentários vários a condenar o teor das questões colocadas às crianças.

 

O Ministério da Educação já abriu um inquérito para investigar a situação.

 

Seg | 08.10.18

Brasil e a vitória de Bolsonaro

31561_2_EL.jpg

«Ainda há poucas semanas, o risco de Bolsonaro ganhar as presidenciais brasileiras parecia uma ameaça ainda longínqua, apesar de ele surgir como o líder das intenções de voto na primeira volta das eleições que hoje decorre. No entanto, desde que foi agredido por um desequilibrado no decorrer da campanha, a aura de mártir serviu-lhe como rampa de lançamento para o triunfo final, poupando-o aos debates com os outros candidatos, enquanto recolhia os apoios das igrejas evangélicas, dos proprietários rurais e dos grandes empresários. Quase um clássico, se nos lembrarmos de cenários equivalentes no mundo dos anos 1930 e o respectivo background de recessão económica e instabilidade social.

 

Agora, a confirmar-se o que já se afigura como quase inevitável, aquele que fora durante quase três décadas um obscuro deputado nostálgico da ditadura militar poderá inscrever o seu nome na crista da onda populista que vem submergindo o mundo de hoje, irmão gémeo do filipino Duterte e variação extremista do americano Trump, do russo Putin, do turco Erdogan, dos europeus Salvini ou Orbán, entre outros expoentes de uma tendência em curso acelerado.

 

Para além das suas conexões com outros casos, o caso brasileiro é particularmente ilustrativo de todo um processo que conduziu à promiscuidade e aos laços de corrupção entre as elites políticas e económicas, para não falar do correspondente abuso de poder dos meios judiciais, interferindo directamente na presente campanha eleitoral. Mas o mais chocante foi, sem dúvida, a vertiginosa degenerescência da esquerda brasileira encarnada pelo PT e Lula da Silva, desde a esperança que representou para os excluídos da sociedade até ficar refém das malhas de um sistema de clientelismo político que asfixiava a generalidade dos seus representantes, incapazes de reformar estruturalmente a arquitectura do poder, enquanto o Brasil enfrentava uma espiral de insegurança e criminalidade sem precedentes. Ou seja, Bolsonaro, de quem quase nunca se ouvira falar durante as suas quase três décadas de deputado federal, emergiu como homem providencial para responder com a proclamação – acolhida calorosamente por uma população sem norte – dos mais primários slogans homicidas, xenófobos e homofóbicos ao caos social brasileiro.

 

Essa aparição do homem providencial vindo de parte nenhuma – ou que se mantivera eclipsado durante anos sem fim – é também um clássico dos fenómenos populistas e fascistas mas que ganha uma expressão perturbadora num país tão vasto, populoso e influente como o Brasil. A extrema polarização da sociedade brasileira, entre o fantasma de Lula – representado por Haddad – e o fantasma vingativo e "purificador" de que Bolsonaro é o rosto, constitui um dos sinais maiores da catástrofe que ameaça o nosso "país-irmão" e logo, por trágica ironia, o "país do futuro" antecipado por Stefan Zweig.

 

Mas, para além das especificidades explosivas que o caracterizam – e remetem para outras situações típicas do terceiro-mundo, como as Filipinas de Duterte –, o caso brasileiro inscreve-se também num quadro marcado pelas incidências mais gravosas da globalização económica e a crise financeira de 2008. Um quadro que, designadamente nos Estados Unidos e na Europa, tem sido ilustrado pela tecnocratização progressiva de um poder político fechado sobre si mesmo e de costas voltadas para as frustrações e ressentimentos das populações – que se sentem crescentemente excluídas dos mecanismos de representação política e ficam, por isso, mais vulneráveis à interiorização da maior de todas as ameaças: o medo. Medo da incerteza, medo da insegurança – traduzida através do medo do "outro", dos imigrantes –, medo do futuro. É essa conjugação dos medos levada ao paroxismo que ameaça conduzir o Brasil à tentação fascista».

 Vicente Jorge Silva  - Público, 7 de Outubro de 2018

Pág. 1/2