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Narrativa Diária

Não escrever um romance na «horizontal», com a narrativa de peripécias que entretêm. Escrevê-lo na «vertical», com a vivência intensa do que se sente e perturba. Vergílio Ferreira

Narrativa Diária

Não escrever um romance na «horizontal», com a narrativa de peripécias que entretêm. Escrevê-lo na «vertical», com a vivência intensa do que se sente e perturba. Vergílio Ferreira

Qui | 31.10.19

Salvar vidas no Mediterrâneo

 

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O Parlamento Europeu chumbou, por apenas dois votos, uma proposta de resolução de criação de mecanismos de proteção de vidas no Mediterrâneo. Entre estes votos contam-se os de dois eurodeputados: Nuno Melo, eleito pelo CDS-PP, e Álvaro Amaro, do PSD, os quais seguiram a orientação da bancada do Partido Popular Europeu e votaram contra. Maria da Graça Carvalho também chegou a ser apontada como uma das eurodeputadas que tinham votado desfavoravelmente, mas, como a própria explicou posteriormente, tinha-se equivocado, e corrigido ainda durante a sessão o erro técnico.

 

Contas feitas, a proposta teve 288 votos a favor, entre os quais quatro eurodeputados eleitos pelo PSD, Paulo Rangel, Maria da Graça Carvalho, Lídia Pereira e Cláudia Monteiro de Aguiar. Houve 36 abstenções, como a de José Manuel Fernandes (PSD).

 

Nuno Melo justificou o seu sentido de voto com o facto de, no mesmo dia da votação, a 24 de outubro, o Parlamento Europeu ter igualmente chumbado uma proposta do grupo do Partido Popular Europeu (PPE), onde se inserem o PSD e o CDS-PP, na qual se fazia a distinção entre migrantes económicos e refugiados. O eurodeputado centrista remeteu o resto da explicação para as declarações que publicou na sua página de Facebook.

 

Na sua declaração de voto, o eurodeputado Álvaro Amaro, do PSD, adiantou que a «resolução não teve em conta» a posição do seu grupo político (PPE). «Entendi, assim, seguir a linha de voto indicada pelo PPE e votar contra. Aguardo agora que os diversos grupos políticos voltem à negociação, para redigir uma nova resolução que possa expressar a pluralidade de opiniões existente neste Parlamento», acrescentou.

 

José Manuel Fernandes, também através da declaração de voto, fez saber que se absteve por considerar que a proposta falhava «na promoção do equilíbrio necessário para tornar as fronteiras da União num lugar mais seguro e humano», favorecendo a criação de negócios privados à conta do drama dos migrantes. Além disso, frisou, «só uma distinção clara entre migrantes económicos e refugiados permite assegurar o respeito pelo princípio da legalidade no âmbito da proteção humanitária».

 

Esta votação é reveladora do que a questão migratória é, na verdade, uma questão fraturante, que divide os eurodeputados do PSD. Cláudia Monteiro de Aguiar justificou a sua votação com o facto de fazer «todo o sentido não ir de acordo com o grupo, e votar favoravelmente esta resolução». Acresce que a questão foi discutida na delegação social-democrata, tendo a indicação sido «para se votar favoravelmente», ainda que cada eurodeputado tivesse liberdade de escolha. Cláudia Aguiar diz não concordar com a «criminalização de quem tenta ajudar pessoas, simplesmente por trazê-las para terra», fazendo uma referência ao caso do português Miguel Duarte, acusado de auxílio à imigração ilegal em Itália por causa das operações no Mediterrâneo.

 

Vale a pena ler este texto de Marisa Matias sobre este tema.

Qua | 23.10.19

A deputada do Livre

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Fiquei contente por o Livre ter elegido um deputado. Admiro o Rui Tavares, a sua inteligência, honestidade intelectual, as suas ideias sobre a União Europeia, julgo, porém, que o Livre já não tem nada a ver com ele. Lamento que não se tenha juntado ao partido socialista com o qual penso que tenha mais pontos convergentes do que divergentes.

 

Depois, parece-me que a escolha da deputada para representar o Livre no Parlamento foi um erro de casting. Joacine tem vindo a afastar-se muito das ideias do Livre, adotando um discurso agressivo e radical. O Livre mudou o seu ADN, passou a ser um partido de extrema-esquerda, cheio de si, com uma superioridade moral irritante.

 

Até aqui nunca tinha ouvido falar de Joacine Katar Moreira que se apresentou como o rosto do partido para estas eleições. Nasceu na Guiné-Bissau há 37 anos e desde os 8 que mora em Portugal. Licenciada em História Moderna e Contemporânea, com um mestrado em Estudos do Desenvolvimento e doutorada em Estudos Africanos, é negra, com bonitas feições, mas com uma gaguez severa que se acentua em momentos de maior pressão, o que foi eficaz em temos de mise en céne e de visibilidade no espaço público para a sua eleição. Não foi por acaso que Joacine foi eleita. Rui Tavares que tantas vezes se candidatou nunca conseguiu ser eleito.

 

Não discuto as suas capacidades intelectuais e o direito que lhe assiste em dar «voz» pelo seu partido, penso, contudo, que é aflitivo ver alguém querer transmitir uma mensagem e não o conseguir fazer por força de um bloqueio de voz, por maior que seja a vontade e o esforço para a atenuar.

 

Diz Joacine que apenas gagueja a falar e não a pensar. Não duvido, mas para um parlamentar a voz e a palavra são as suas maiores ferramentas. É penoso tentar explanar uma ideia e repetir a mesma sílaba durante longos segundos. É incómodo para a própria tentar fazer um discurso e  tropeçar nas palavras, mas também para os ouvintes porque ficam constrangidos e não conseguem acompanhar o raciocínio da oradora, apenas ansiando para que consiga terminar a frase.

 

Julgo que o Livre não devia sujeitar Joacine Moreira a essas situações. Pouco avisado terá sido lança-la neste desafio, como única deputada dum partido, onde os debates, os comentários, as interrupções acontecem amiúde.

 

Depois, que dizer da manifestação de solidariedade com Joacine Katar Moreira em frente à Assembleia da República, contra o racismo e a homofobia? Simplesmente patética!

Ter | 22.10.19

O vício dos telemóveis

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Ontem um professor agrediu um aluno do 8º ano,  durante uma aula. Tudo terá acontecido, alegadamente, quando o aluno não respeitou o aviso do professor para o facto de não poder usar o telemóvel na sala, fazendo com que o docente lhe tentasse tirar o aparelho. De acordo com testemunhas, o aluno de 13 anos terá pegado no telemóvel para ver as horas. Segundo a sua versão, confirmada por outros alunos da turma, antes de agredir a vítima, o professor terá gritado de forma agressiva, proferido palavras obscenas, e depois de o aluno mostrar resistência, agarrou-o pelo pescoço e atirou-lhe a cabeça contra uma das mesas. O corpo diretivo do liceu interveio, chamando as autoridades. O professor foi ouvido e acabou por ser detido.

 

Nada justifica que o professor tenha exercido violência sobre um aluno. Mas se calhar muitos problemas poderiam ser evitados se a regra fosse desligar os telemóveis na sala de aula, sob pena de os alunos que desrespeitassem a norma serem severamente punidos.

 

Eu sou do tempo em que, enquanto adolescente, não havia telemóveis e sobrevivemos a tudo. Tenho memória de como era a vida sem telemóvel, e, acreditem, era boa. Íamos para o Algarve passar férias e apenas comunicávamos através do telefone fixo. Isso nunca foi um problema, pelo contrário, a minha família não precisava de me ligar a cada hora para saber onde andava, assumia, pura e simplesmente que estava bem.

 

Hoje tenho de ter telemóvel porque o tornaram imprescindível. Um dos maiores problemas do nosso mundo é tornar imprescindível o que não é. Perdemos privacidade, perdemos independência, perdemos empatia, perdemos a capacidade de comunicar.

 

Tornámo-nos escravos dos nossos telemóveis. Sentimo-nos constantemente atraídos para algo que nos distraia. Somos interrompidos a toda a hora por uma série interminável de mensagens, notificações, e-mails, redes sociais, aplicações. Tornámo-nos cada vez menos pacientes com a realidade e o ecrã do telemóvel constitui o alheamento do mundo exterior. Perdemos o controlo da tecnologia e deixámos que fosse ela a controlar-nos.

 

Em Portugal, segundo uma investigação recente, presume-se que esta dependência afete cerca de 14% dos jovens e adultos. São na sua maioria mulheres e o fenómeno está muito associado à nova tendência de visualização ao minuto de tudo o que os famosos youtubers publicam. Outro estudo mostra que dois terços dos adolescentes portugueses têm grande necessidade de verificar o smartphone com regularidade e quase um terço dos jovens com 13 e 14 anos utilizam-no em excesso. Muitos deles cresceram com um telemóvel na mão: uma em cada cinco crianças portuguesas entre os três e os oito anos usa um.

 

Segundo os especialistas, apesar da dependência do smartphone não ser ainda reconhecida como uma doença mental pela Associação Americana de Psiquiatria e pela Organização Mundial de Saúde, já não é possível ignorar este fenómeno.

 

No passado pensávamos em dependências relacionadas sobretudo com substâncias químicas. Hoje temos este fenómeno que não envolve substâncias — apenas comportamentos —, mas que possui as mesmas consequências psicológicas. Porém, verifica-se que o uso excessivo de telemóveis tem contribuído para baixar o consumo de drogas, álcool e tabaco.

 

O facto de nos sentirmos ‘viciados’ pelos telemóveis não é apenas culpa nossa,  acontece porque eles são concebidos para serem cada vez mais viciantes, recorrendo a princípios da psicologia comportamental para explorar as nossas vulnerabilidades.

Dom | 20.10.19

Joker


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A história centra-se na cidade de Gotham, no início anos 80, submundo americano. A cidade está cheia de lixo, devido uma greve no serviço de recolha. A criminalidade impera e as pessoas com dificuldades económicas sobrevivem como podem, numa sociedade que ignora os mais vulneráveis.


Arthur Fleck (Joaquin Phoenix) ganha a vida com pequenos trabalhos como comediante. Vive com a mãe, dependente e delirante, de quem é cuidador. Humilhado e enganado por todos, Fleck torna-se num homem perturbado, com um distúrbio mental que lhe provoca ataques de riso incontroláveis, mesmo nos momentos mais impróprios, num processo que o transforma no psicótico e violento vilão e que o levam a assumir a personalidade do mítico Joker, o vilão de Batman.

 

Joker é no fundo a gargalhada irónica de uma vida desgraçada, por mais absurdo que isso possa parecer. 


O filme realizado por Todd Phillips é emocionalmente violento. Uma história desconcertante sobre a fragilidade, a loucura e a crueldade de um personagem, muitíssimo bem retratada por um excelente argumento, e pela soberba e memorável interpretação de Joaquin Phoenix que acaba por ser o próprio filme. Tudo o resto é periférico, apesar de essencial, como causa ou consequência da evolução dessa mesma personagem que culmina no Joker.


Aguarda-se a entrega do óscar de melhor ator a Joaquin Phoenix.

Sex | 18.10.19

Até sempre, Jordão!

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Rui Jordão deixou-nos, prematuramente. Tinha apenas 67 anos. O internacional português, conhecido como 'Gazela de Benguela', veio de Angola para jogar no Benfica, no qual iniciou a carreira, em 1971/72, mas foi no Sporting que se tornou uma lenda, além de também ter brilhado pela seleção, onde fez 43 jogos e marcou 15 golos, dois dos quais no Europeu de 1984, no qual Portugal foi eliminado nas meias-finais pela França.

 

Jordão jogou também no Saragoça e no Vitória de Setúbal, onde terminou a carreira, em 1988/89. Foi o melhor marcador do campeonato português nas épocas 1975/76 e 1979/80, tendo conquistado seis títulos de campeão nacional, três Taças de Portugal e uma Supertaça portuguesa.

 

Após encerrar a carreira de futebolista, Jordão tornou-se pintor. Em 2001, concluiu Pintura e Desenho, Introdução à Historia da Arte, Historia da Arte do século XX, Temas de Estética e Teorias da Arte Contemporânea, na Sociedade Nacional de Belas-Artes em Lisboa.

 

Em 2018, inaugurou na galeria do Palácio Egito, em Oeiras, a exposição "Que a Mente resista/Projeto de uma exposição/Palavras Ditas", um dos últimos ecos de uma profissão artística que começou com a licenciatura em História da Arte, na Universidade Nova de Lisboa, que lhe valeu um estágio no Centro Cultural de Cascais.

 

Uma lenda, um senhor dentro e fora dos relvados, um goleador e um ídolo que marcou gerações.

 

Descanse em paz!

 

 

 

Sex | 18.10.19

Um grande exemplo!

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Sadio Mané, avançado do Liverpool, é um jogador de eleição. O jogador tem uma trajetória longa no futebol e parece gostar muito da profissão que escolheu. Depois de uma temporada fantástica no Liverpool em 2018/19, onde se sagrou campeão europeu e vice-campeão inglês antes de chegar também à final da Taça das Nações Africanas, o senegalês de 27 anos teve um contributo decisivo para o bom arranque de temporada do conjunto de Jürgen Klopp, apontando oito golos em 11 jogos que valeram aos reds oito triunfos seguidos na Premier League e a conquista da Supertaça Europeia.

 

Na véspera da final da Liga dos Campeões com o Real Madrid, Sadio Mané, não quis passar ao lado do momento e decidiu oferecer 300 camisolas do clube inglês a habitantes da sua pequena aldeia com cerca de 2.000 residentes em Sédhiou. Naquele ponto de Senegal, o dia foi de feriado só para assistir ao jogo da estrela do seu país, na Champions, o mesmo palco que o tinha encantado aos 13 anos quando viu os reds darem a volta ao jogo decisivo perante o gigante AC Milan de 3-0 para 3-3, antes do triunfo nas grandes penalidades.

 

Mané é muito comprometido com o seu país e afirmou que precisa de muito pouco para ser feliz. Depois de conseguir realizar o sonho de ser jogador de futebol, Mané prometeu devolver uma parte do que ganhou para a sua comunidade. Em 2018, o jogador doou € 200 mil para a construção de uma escola na sua terra.

 

Revelou estar bem no Liverpool, com ou sem novo contrato, porque se sente acarinhado pelo clube, pelos adeptos e pela cidade, e voltou a dar provas de altruísmo ao revelar: «construí escolas, construí um estádio. Forneço roupa, sapatos, comida para pessoas que estão em situação de pobreza extrema. E dou 70 euros por mês a todas as pessoas de uma região muito pobre no Senegal, que contribuem para as economias familiares delas. Não preciso de andar a exibir carros de luxo, mansões, viagens ou até aviões. Prefiro que o meu povo receba um pouco daquilo que a vida me deu», acrescentou.

 

«Para que quero dez Ferraris, 20 relógios de diamantes ou dois aviões? O que é que esses objetos vão fazer por mim e pelo mundo? Passei fome, tive de trabalhar no campo. Passei por tempos difíceis. Jogava futebol descalço, não tinha educação, não tinha outras coisas. Agora, com o que ganho graças ao futebol, posso ajudar as outras pessoas. Não uso o meu dinheiro para comprar Ferraris, quero ajudar os meus. Eu prefiro construir escolas e dar comidas ou roupas a pessoas pobres», referiu.

 

Num mundo onde impera o consumismo e o egocentrismo, aparece por vezes alguém que nos surpreende e faz pensar. Mané mostrou como, até no futebol, podemos mudar o mundo para melhor.

 

O futebol, como tudo na vida, tem destes exemplos. Este é excelente. Fiquei, por isso,  a admirá-lo não apenas como jogador, o que já acontecia, mas também como grande ser humano que é. Pena que não haja mais como ele!

Qua | 16.10.19

O novo governo

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António Costa apresentou ontem a constituição do seu novo Governo ao Presidente da República. É uma equipa de 19 ministros, sem grandes surpresas, que confirma a ascensão de alguns nomes e a manutenção de outros, mais contestados, como Marta Temido (Saúde) ou Tiago Brandão Rodrigues (Educação).

 

Foi por demais evidente que Costa quis evitar ligações familiares entre ministros. A saída de Vieira da Silva, permitiu que a sua filha, Mariana Vieira da Silva, se mantivesse em funções, bem como o abandono da pasta do Mar de Ana Paula Vitorino permitirá a continuidade do marido, Eduardo Cabrita.

 

A promoção do ministro de Estado Pedro Siza Vieira a número 2, foi um sinal que o primeiro-ministro deu de que a economia e o crescimento económico são dois objetivos que devem estar no centro deste governo.

 

A permanência de Mário Centeno e de Augusto Santos Silva no governo, promovidos a ministros de Estado, duas figuras de grande prestígio e enorme qualidade, é uma boa notícia.

 

Outra boa notícia é a maior paridade de género com 8 mulheres como ministras e 11 ministros.

A nomeação de Mariana Vieira da Silva, que sobe a ministra de Estado, de Alexandra Leitão para o cargo de ministra da Modernização do Estado e da Administração Pública, bem como da nova ministra do Trabalho Ana Mendes Godinho são reforços importantes, com algumas incógnitas.

 

A perda de Vieira da Silva parece-me a nota mais negativa. Ana Mendes Godinho da secretaria de Estado do Turismo assumirá a pasta do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social. Uma herança pesada, sem dúvida. Porém, esta não é uma área desconhecida à futura ministra, já que foi inspetora do Trabalho e diretora dos Serviços de Apoio à Atividade Inspetiva da Autoridade para as Condições do Trabalho, antes de ir para o Governo como secretária de Estado.

 

Parece-me um governo equilibrado, mas sem a geringonça e com a atual configuração do Parlamento, não é fácil manter a estabilidade ao longo da próxima legislatura, mas António Costa já mostrou que é um político sagaz, capaz de fazer equilíbrios que muitos julgavam impossíveis, e capaz de nos surpreender.

Seg | 14.10.19

Luta interna no PSD

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O PSD de Rui Rio obteve, no domingo, o pior resultado do partido em legislativas dos últimos 20 anos, mas apenas em percentagem, já que conseguiu eleger mais deputados do que Pedro Santana Lopes em 2005. Perante tais resultados eleitorais foram várias as vozes que se insurgiram contra Rui Rio.

 

O primeiro foi Miguel Relvas que veio, de imediato, pedir «um novo líder e uma nova equipa no PSD»,  admitindo ser desejável antecipar o calendário previsto para as eleições diretas internas do partido.

 

Depois foi Miguel Morgado que também criticou a atual liderança e defendeu, uma vez mais, que deve ser o PSD a promover a refundação da direita, recusando-se, contudo, a dizer se é ou não candidato.

 

Também Cavaco Silva saiu da toca para afirmar que o resultado obtido pelo partido o deixava triste, acrescentando que o afastamento de figuras de primeira água, como Maria Luís Albuquerque, foi um erro.

 

Entretanto a guerra pela sucessão à liderança no partido já começou. As pressões e o contar de espingardas começam a perfilar-se nas distritais.

 

Mas há os que já decidiram entrar na corrida à liderança - Luís Montenegro e Miguel Pinto Luz são dois dos candidatos.

 

O ex-líder parlamentar do PSD considera que «António Costa era batível» nestas eleições e só não o foi porque Rio falhou na oposição, na forma como geriu o partido e no posicionamento ideológico que quis impor ao PSD.

 

Já Nuno Morais Sarmento, em entrevista à RTP, considerou que os resultados nas legislativas não são impeditivos para a continuidade de Rio na liderança do PSD. Mesmo reconhecendo que os resultados eleitorais foram diminutos, o vice-presidente do partido acredita que a estratégia até aqui seguida é a correta e que não há ninguém com um perfil mais indicado do que Rio para seguir na presidência social-democrata, rematando que «às vezes a disputa interna no PSD parece a gaiola das malucas».

 

Resumindo: os indefetíveis de Rui Rio acusam os críticos de sede de poder e de quererem destruir o PSD, como Morais Sarmento, David Justino e Ângelo Correia. Do outro lado, Luis Montenegro conta com o apoio de alguns dos principais críticos da atual direção, casos de Pedro Duarte, Luís Menezes, Teresa Morais, Hugo Soares e Almeida Henriques com o argumento de que está a conduzir o partido para o abismo, tendo chegado o momento de fazer uma clarificação interna.

 

Estarão todos à espera do que vai fazer Rui Rio, isto é, se vai ou não abandonar a liderança ou se se vai manter à frente do PSD. É certo que o partido teve uma derrota significativa, mas será que alguém, nas atuais circunstâncias, conseguiria fazer melhor? É a pergunta que se coloca.

Qua | 09.10.19

E agora, António Costa?

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António Costa foi ontem indigitado como primeiro-ministro e vai reunir-se hoje com os partidos à sua esquerda, com vista a negociar as condições de governação para os próximos quatro anos.

 

Há quatro anos, como se sabe, o PS perdeu as eleições com 32,31%, mas conseguiu governar graças ao apoio da chamada geringonça (CDU e BE). Ontem, com a votação alcançada pelo PS, nenhum dos restantes partidos se opôs, perante o Presidente da República, que o PS fosse convidado a formar governo.

 

O líder socialista considera que «os portugueses gostaram da geringonça e desejam a continuidade da atual solução política», desejando alargar os apoios ao PAN e ao Livre. Por isso estão previstos encontros com estes dois partidos, juntamente com os Verdes, PCP e Bloco de Esquerda. Porém, há partidos que já afirmaram, perentoriamente, que estão indisponíveis para a formação de uma coligação partidária, preto no branco, o que não significa, no entanto, que não estejam disponíveis para acordos pontuais com os socialistas.

 

Até porque a diferença entre negociar com o BE e com o PCP ficou bem evidente no discurso de ambos os partidos no dia das eleições.

 

Evitar a maioria absoluta do PS foi um dos objetivos que o Bloco de Esquerda traçou como prioritário, nestas legislativas, e conseguiu. Catarina Martins não esconde, porém, a vontade de colocar o Bloco na governação, mesmo não estando no Governo, e, para tal, apresentou duas soluções possíveis para viabilizar um governo minoritário do PS. A primeira passaria por uma negociação «ano a ano», melhor dizendo, a cada Orçamento de Estado, e a segunda por um acordo respaldado por um caderno de encargos - geringonça 2.0 - que passasse por determinadas medidas, caras ao BE, a saber: reposição dos cortes da troika, o fim das PPP na saúde, a nacionalização dos CTT e o aumento do investimento público.

 

Jerónimo de Sousa, por seu lado, foi mais pragmático. Acusando o mau resultado da CDU neste ato eleitoral, na sequência do desgaste eleitoral já sofrido nas autárquicas e nas europeias, fruto dos acordos com o PS, salientou que apenas está disponível para negociar «caso a caso», afastando a ideia de qualquer compromisso escrito. «Da nossa parte, faremos uma conjuntura diferente de há quatro anos, pautaremos a nossa intervenção por uma ideia clara de um partido que teve a votação que teve. É com esses votos que iremos reafirmar a nossa disponibilidade para procurar uma política de avanços que solidifique e se rompa com os interesses do grande capital, colocando a valorização do trabalho e dos trabalhadores como objetivo central, e se rompa com a submissão ao euro e à União Europeia».

 

Daqui resultam cinco cenários possíveis:

 

1)Geringonça 2.0  — Seguindo a máxima «equipa que ganha não se mexe» a renovação com os parceiros da anterior legislatura parece ser a opção mais desejada pelo primeiro-ministro. Neste cenário, além de PS, BE, CDU (PCP e Verdes), poder-se-iam juntar o PAN e o Livre. Todavia, este equilíbrio de forças pode cair por terra, dada a posição manifestada pela CDU de não repetir a assinatura de compromissos, por escrito, como aqueles que deram origem à anterior geringonça.

 

2) Acordo com o Bloco de Esquerda — Se o PS preferir governar com base em compromissos firmados, por forma a conferir maior estabilidade à governação, António Costa está limitado a um acordo com o Bloco de Esquerda, isto se aceitar as exigências impostas por Catarina Martins.

 

3)Acordo com a CDU — Os constantes elogios à atuação do PCP por parte de António Costa podem levar o líder socialista a privilegiar um entendimento, mesmo que informal, com a coligação entre o PCP e PEV. Este cenário, obrigaria os socialistas a renovar, anualmente, o apoio das forças que integram a CDU com vista à aprovação dos Orçamentos do Estado para o ano seguinte.

 

4) Acordo com o PSD — Sabendo-se que Costa rejeita liminarmente a ideia do bloco central, por entender ser limitadora de alternativa política na oposição, ainda assim pode tentar aprovar orçamentos e medidas estruturantes com o PSD, caso Rui Rio se mantiver na liderança social-democrata para lá do congresso, previsto para 2020. É improvável mas não impossível.

 

5) Governação à vista — Apoiado no facto de ter mais deputados do que toda a direita junta, se não encontrar condições que permitam estabelecer qualquer acordo, formal ou informal, o PS poderá apostar em liderar um Executivo minoritário e fazer uma ‘governação à vista’, com acordos pontuais à esquerda e à direita.

 

Daqui resultam algumas dúvidas e poucas certezas. A primeira questão é saber se o PS estará disposto a aceitar as condições impostas pelo BE. A segunda é saber se estará o PCP disposto a comprometer-se, informalmente que seja, com a estabilidade de um Governo PS para quatro anos. A terceira é perceber se Rui Rio irá continuar à frente do PSD e por fim que papel assumirão o PAN e o Livre nesta conjuntura.

 

Os próximos dias ajudarão certamente a clarificar tudo isto.

Seg | 07.10.19

"Geringonça 2.0"

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«O PS foi o grande vencedor das eleições legislativas deste domingo, tendo conquistado mais 124 mil votos do que em 2015. Porém, com 107 deputados eleitos, o PS não conquistou a maioria absoluta e António Costa tem agora de garantir apoio parlamentar que assegure a estabilidade política durante os próximos quatro anos, como fez questão de frisar no seu discurso de vitória.

 

Olhando para os resultados das eleições, parece estar em cima da mesa uma “geringonça 2.0”, através de entendimentos que envolvam o Bloco de Esquerda (19 deputados), a CDU (doze), o PAN (quatro) e o Livre (um). Porém, a situação política e a conjuntura macroeconómica são muito diferentes das que se verificavam em 2015, pelo que não devemos descartar outros cenários, nomeadamente o de entendimentos pontuais com um ou mais destes partidos, em vez de uma geringonça solene, de “papel passado”.

 

Em primeiro lugar, porque o poder negocial de António Costa face aos partidos da geringonça é agora superior, por uma questão de legitimidade. Nestas eleições, o PS foi o partido mais votado e recebeu mais votos do que há quatro anos, ao contrário dos seus parceiros de geringonça, a CDU e o Bloco, que perderam 115 mil e 57 mil votos, respetivamente.

 

Em segundo lugar, porque ao contrário do que sucedeu em 2015, não existe a alternativa de um governo de direita. Juntos, o PSD, o CDS e os pequenos partidos de direita não irão além do patamar dos 84/85 deputados (dependendo dos resultados do círculo da Imigração). O PS é o único partido capaz de formar um governo estável, através de entendimentos com outras forças. Mas não há pressa para fazer esses acordos, pois não é propriamente como se António Costa estivesse entre a espada e a parede. O próprio primeiro-ministro referiu, no discurso de vitória, que se os partidos da esquerda não estiverem dispostos a um “acordo político” que dure a totalidade da legislatura, o PS terá de ainda assim formar Governo e procurar negociar caso a caso. O mesmo é dizer que o PS não fará uma nova ‘geringonça’ a qualquer preço.

 

O que nos leva ao terceiro factor, que é a possibilidade de o próprio PSD viabilizar determinadas leis, tal como Rui Rio e figuras como Manuela Ferreira Leite deram a entender durante a campanha. Não é crível, por exemplo, que o PSD não viabilize o Orçamento do Estado para o próximo ano. Esta solução iria talvez contra o espírito dos tempos e seria provavelmente o último recurso de Costa, mas tem a seu favor um precedente histórico de peso: quando era líder do PSD, Marcelo Rebelo de Sousa viabilizou vários Orçamentos apresentados pelo Governo minoritário liderado por António Guterres. E, convém lembrar, Marcelo é hoje o Presidente da República, tendo os resultados destas eleições reforçado a sua posição como garante da estabilidade.

 

Nota: Uma palavra final sobre o discurso de Rui Rio, que serviu sobretudo para tentar ajustar contas com os adversários internos, os “comentadores” e a imprensa em geral. Rio teve uma oportunidade de ouro para se mostrar magnânimo, mas desperdiçou-a.».

Filipe Alves, O Jornal Económico

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