Viktor Gyökeres: um adeus com mágoa e glória

Chegou ao fim uma das novelas desportivas deste verão: Viktor Gyökeres é oficialmente jogador do Arsenal. O clube londrino pagou ao Sporting 65,76 milhões de euros fixos, com a possibilidade de mais 10,26 milhões em objetivos. Esta transferência torna-se, assim, a mais cara da história do Sporting e uma das mais relevantes do mercado de transferências até ao momento.
Não me vou alongar muito sobre os valores — admito que esperava um encaixe superior. Ainda assim, compreendo as limitações de mercado: vender um jogador de 27 anos, fora das cinco principais ligas, por uma quantia superior a 65 milhões de euros já foi, diria, uma operação bem conseguida. No limite, o negócio poderá render ao Sporting até 76 milhões de euros.
Mas mais do que os números, o que merece destaque é a forma como todo este processo se desenrolou. O início foi marcado por desconfiança entre o empresário de Gyökeres e a direção do Sporting, com acusações de fugas de informação. O empresário alegou que teria havido uma promessa de venda do jogador por 60 milhões de euros, o que foi publicamente negado por Frederico Varandas. Em resposta, o jogador recusou-se a treinar, acusando o presidente de não cumprir um alegado acordo de saída. Varandas voltou a negar qualquer compromisso formal, embora tenha admitido que o jogador poderia sair por um valor abaixo da cláusula.
A tensão aumentou e Gyökeres afirmou que não jogaria mais pelo Sporting e não se apresentou no estágio de pré-época, acumulando faltas injustificadas, quando ainda tinha contrato com o Sporting.
Durante este impasse, o Manchester United mostrou interesse, mas foi o Arsenal quem acabou por aceitar as condições impostas pelo Sporting, após semanas de negociações, avanços e recuos, e um claro braço de ferro entre Varandas e Hasan Cetinkaya, agente de Gyökeres.
É justo reconhecer que o Sporting soube defender os seus interesses, não cedeu à pressão, nem do jogador nem do seu agente e conseguiu fechar um negócio interessante, evitando vender ao desbarato.
Ainda assim, a saída ficou longe de ser limpa. A atitude de Gyökeres contrastou com o profissionalismo que sempre demonstrou em campo. Faltou aos treinos, prolongou as suas férias e forçou a saída à sua maneira — uma conduta que mancha o final de uma passagem que, desportivamente, foi brilhante. O clube respondeu com um processo disciplinar e exigiu que o sueco abdicasse do salário de julho — algo que o jogador aceitou, viabilizando assim a transferência.
Gyökeres foi peça-chave no tão desejado bicampeonato, algo que o clube não conquistava há mais de 70 anos. Em apenas duas épocas, marcou 97 golos, tornando-se no segundo melhor marcador do Sporting neste século, atrás apenas de Liedson.
Mas essa excelência em campo não lhe dá carta branca para comportamentos como os que presenciamos ultimamente. Todos os jogadores têm ambições e o direito de sonhar ao mais alto nível. Mas não vale tudo. Ou, pelo menos, não devia valer.
Enquanto adeptos, criamos laços com os jogadores. Por isso, esperamos que as despedidas sejam feitas com emoção, gratidão e respeito — através de palavras sentidas, gestos de empatia ou simples sinais de reconhecimento. Foi exatamente isso que vimos na saída de Franco Israel para o Torino, um jogador que sempre manteve uma conduta exemplar com o clube, com os colegas e com os adeptos. A sua entrevista de despedida foi um reflexo claro desse caráter íntegro e da ligação que construiu com o universo leonino.
Gyökeres, dentro das quatro linhas, demonstrou compromisso, rigor e eficácia; fora delas, mostrou frieza, distância e pouca consideração pelos adeptos que tanto o apoiaram, limitando-se no final a fazer uma despedida de circunstância.
Mas no fim, o que ficará para história são os golos, as máscaras, os festejos, os títulos e as emoções. Gyökeres deixa um legado difícil de igualar. O Sporting, como sempre, seguirá em frente. Outros virão. E nós, adeptos, voltaremos certamente a vibrar e a sonhar.