Não escrever um romance na «horizontal», com a narrativa de peripécias que entretêm. Escrevê-lo na «vertical», com a vivência intensa do que se sente e perturba.
Vergílio Ferreira
Entramos na última semana da campanha presidencial e a pergunta que domina o espaço público é inevitável: quem irá disputar a segunda volta? A resposta parece simples, mas as sondagens estão longe de oferecer a clareza que muitos pretendem encontrar.
As sondagens diárias da Pitagórica (tracking polls) para a CNN Portugal, TVI, Jornal de Notícias e TSF colocam António José Seguro e João Cotrim Figueiredo na frente, seguidos de perto por André Ventura, Henrique Gouveia e Melo e Marques Mendes. Os cinco candidatos encontram-se empados tecnicamente, o que significa, na prática, que ninguém sabe dizer, com segurança, quem passa à segunda volta. Ainda assim, a leitura dominante tende a transformar variações mínimas em tendências consolidadas — um erro recorrente.
Convém lembrar que as tracking polls que aparecem na TVI/CNN, não são sondagens feitas diariamente. Há uma diferença estatística fundamental entre agregar durante três dias 202 entrevistas ou realizar 606 entrevistas novas todos os dias. As tracking polls recolhem pequenas amostras todos os dias e misturam-nas com dados dos dias anteriores. Isso significa que dois terços dos dados são reaproveitados, não novos. Num contexto de elevada fragmentação, este método pode ser mais enganador do que esclarecedor.
Há ainda problemas estruturais bem conhecidos que estas sondagens tendem a ocultar: amostras que sub-representam populações jovens, trabalhadores por turnos ou eleitores mais voláteis ou sem telefone fixo; eleitores indecisos que decidem tardiamente; níveis de mobilização que só se revelam no dia da eleição.
Muitas das flutuações diárias não passam de ruído estatístico, mas acabam por alimentar narrativas e comentários políticos e mediáticos.
Nos Estados Unidos, em 2016 e 2020, as tracking polls falharam em toda a linha ao prever a vitória de Trump e posteriormente subestimaram o apoio a Biden em alguns estados, levando-nos a refletir sobre a fragilidade das sondagens enquanto instrumentos de previsão. Em Portugal, em 2022, assistimos a um fenómeno semelhante quando as sondagens diárias sugeriam um “empate técnico” entre Rui Rio e António Costa — resultado desmentido nas urnas por uma maioria absoluta do PS.
As tracking polls captam, sobretudo, o ritmo de uma campanha particularmente dinâmica que tem mantido os portugueses interessados, até pela imprevisibilidade do resultado. Porém, numa corrida em que há 5 candidatos muito próximos, é provável que só no dia 18 de janeiro se descubra quem realmente seguirá para a segunda volta.
Rúben Amorim foi despedido do Manchester United após 14 meses no comando técnico. O clube inglês oficializou a saída no início da semana, depois de os red devils terem cedido um empate frente ao Leeds, resultado que deixou a equipa na sexta posição da Premier League.
Apesar de não ter sido propriamente uma surpresa, os efeitos da saída de Rúben Amorim fizeram-se sentir quase de imediato em Portugal. Basta acompanhar os programas desportivos ou percorrer as redes sociais para perceber que a associação do treinador aos dois clubes da 2.ª Circular foi automática e quase inevitável. Enquanto permanecer livre no mercado, Amorim continuará a ser um fantasma omnipresente no futebol português, pairando sobretudo sobre Alvalade, mas também sobre a Luz.
Rui Borges foi aceite essencialmente como uma figura de continuidade — alguém que não comprometeu um projeto previamente desenhado por Amorim — mais do que como o verdadeiro autor do sucesso alcançado. A realidade é que foi o treinador que obteve o bicampeonato para o Sporting, mas nunca conquistou verdadeiramente o coração da massa adepta. Não tem sido alvo de contestação intensa, é certo, mas essa relativa tranquilidade não resulta de um vínculo emocional forte com os adeptos. Resulta, sobretudo, do peso dos troféus conquistados e da consistência demonstrada no arranque da presente temporada. Houve estabilidade, mas faltou paixão.
É inegável que se tem assistido a uma evolução positiva no seu discurso e na forma como comunica. Ainda assim, o carisma continua ausente. Rui Borges está longe de conseguir reproduzir a relação quase perfeita que Rúben Amorim construiu com os adeptos do Sporting. Essa ligação emocional ajuda a explicar por que motivo Amorim nunca foi verdadeiramente esquecido e por que razão muitos acreditam que, se regressasse agora, ainda poderia ainda relançar o sonho do tricampeonato.
A rescisão de Rúben Amorim com o Manchester United coincidiu com uma fase particularmente sensível do Sporting: o empate frente ao Gil Vicente e, poucos dias depois, a derrota diante do Vitória de Guimarães, que afastou os leões da Taça da Liga. Esta sucessão de acontecimentos funciona como um gatilho, reativando memórias, comparações e saudades de um treinador que proporcionou tantas alegrias aos sportinguistas e que mudou estruturalmente o clube.
Do outro lado da 2.ª Circular, o cenário não é muito diferente. O Benfica é treinado por José Mourinho, um técnico de currículo incontestável, mas já numa fase menos fulgurante da carreira. O terceiro lugar no campeonato está longe de satisfazer uma massa adepta que criou grandes expectativas com contratações avultadas e que vive numa exigência permanente de vitórias e títulos.
Não é de agora que o nome de Rúben Amorim surge associado ao Benfica. Essa ligação nasce sobretudo de uma narrativa emocional construída a partir do sucesso alcançado no rival Sporting. Desde então, uma parte significativa dos adeptos encarnados vive com uma sensação de perda simbólica: a de um treinador assumidamente benfiquista, formado no clube, que atingiu o topo do futebol nacional ao serviço do maior rival. Uma ferida aberta que nunca cicatrizou e que se manifesta sempre que o contexto é favorável.
Os benfiquistas mantêm a convicção de que Rúben Amorim treinará um dia o Benfica — a dúvida é apenas quando.
No fundo, Rúben Amorim deixou de ser apenas um treinador para se tornar um símbolo — uma espécie de D. Sebastião que ecoa em Alvalade e é também profundamente desejado na Luz. Enquanto assim for, a sua sombra continuará a cruzar a 2.ª Circular e a pairar sobre ambos os clubes.
No seu último discurso de Ano Novo, Marcelo Rebelo de Sousa prometera uma intervenção politicamente mais neutra, lembrando que, a apenas 17 dias das eleições presidenciais, o país já se encontra em plena pré‑campanha, com os candidatos à sua sucessão no terreno.
Em direto do Palácio de Belém, o Presidente da República optou por um discurso breve, expressando o desejo de que 2026 seja “um ano com mais desenvolvimento, mais justiça, mais liberdade, mais igualdade e mais solidariedade”. Formulou ainda a esperança de que o novo ano se revele “singular”, marcado pela paz nos vários conflitos internacionais, pelo respeito pela “lei internacional expressa na Carta das Nações Unidas” e pela “dignidade das pessoas”. Defendeu igualmente “mais saúde, mais educação, mais habitação, mais justiça, ainda mais crescimento, ainda mais emprego e menos pobreza e desigualdade”, apelando a “mais tolerância, mais concordância” e a um reforçado “sentido de coesão nacional”.
Num momento de transição política, o Presidente recorreu a Eça de Queiroz, através da figura de Gonçalo Mendes Ramires, de A Ilustre Casa de Ramires, para traçar um retrato simultaneamente crítico e esperançoso do país, como metáfora da sociedade portuguesa: “Um fundo de melancolia, apesar de tão palrador, tão sociável. A desconfiança terrível de si mesmo, que o acobarda, o encolhe, até que um dia se decide e aparece um herói, que tudo arrasa (…)”. Recuperando esta caracterização dos portugueses, “para o bem e para o mal”, sublinhou que, “com qualidades e coragem excecionais, que de longe superam os defeitos”, o país tem sido assim “há quase 900 anos” — e assim continuará a ser. Descreveu os portugueses como um povo de “franqueza, doçura e imensa bondade”, mas também marcado por contradições, melancolia e por uma esperança persistente num milagre salvador: “Sabem vocês quem me lembra? (…) Portugal”.
Eça, como se sabe, foi um exímio retratista da sociedade do seu tempo. A escolha de Marcelo revelou‑se particularmente feliz: uma forma menos direta e mais profunda de comentar a realidade contemporânea, atingindo os alvos sem os nomear. Ao convocar um clássico da literatura portuguesa, o Presidente mostrou que as contradições e virtudes identificadas por Eça há mais de um século permanecem atuais, conferindo ao discurso um tom identitário que ultrapassa a retórica política e reforça a sua dimensão simbólica.
Ainda vamos sentir saudades da inteligência e da sagacidade de Marcelo Rebelo de Sousa, apesar de tudo.