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Narrativa Diária

Não escrever um romance na «horizontal», com a narrativa de peripécias que entretêm. Escrevê-lo na «vertical», com a vivência intensa do que se sente e perturba. Vergílio Ferreira

Narrativa Diária

Seg | 09.02.26

A vitória de António José Seguro

 



A vitória deAntónio José Seguro constitui um acontecimento politicamente significativo,sobretudo pela sua natureza inesperada. 

Durante maisde uma década, Seguro permaneceu afastado da vida partidária ativa. A sua saídado PS, há 11 anos, na sequência da disputa interna com António Costa,contribuiu para a construção de uma imagem pública ambivalente. Entre váriossetores do partido, era associado à derrota nas eleições europeias de 2014 eacusado de ter desempenhado um papel que, alegadamente, favoreceria amanutenção do governo de Passos Coelho, fragilizando o PS no plano estratégico.

O processo queconduziu ao seu regresso à vida política iniciou-se de forma inusitada: PedroNuno Santos, ainda líder do PS, foi questionado sobre potenciais candidatospresidenciais, incluiu o nome de Seguro entre várias possibilidades. A reação dentroe fora do PS foi negativa: surgiram dúvidas quanto à pertinência da escolha,sobretudo quando existiam figuras consideradas mais consensuais no espaçosocialista. As correntes mais à esquerda manifestaram reservas explícitas, casode Augusto Santos Silva, defendendo que Seguro não reunia condições políticas mínimaspara avançar. As sondagens iniciais apontavam para 6% de intenções de voto.

A recusa dosrestantes potenciais candidatos abriu espaço para que Seguro consolidasse a suacandidatura. A presença regular como comentador televisivo contribuiu para areconstrução da sua imagem pública: surgia como uma figura politicamentedesonerada, sem o desgaste associado ao exercício do poder e sem o peso dasclivagens internas que marcaram a última década. Essa distância temporalfuncionou como recurso simbólico, permitindo-lhe apresentar-se comorepresentante de um PS mais institucional, mais dialogante e menos condicionadopelas tensões recentes.

A vitóriaalcançada pode, assim, ser interpretada como um triunfo individual,demonstrando que períodos prolongados de afastamento não implicamnecessariamente a irrelevância política. Em determinados contextos, o silêncioe a ausência podem funcionar como mecanismos de reconfiguração de autoridade,sobretudo quando contrastam com o ruído permanente da disputa partidária.Seguro não venceu apesar do afastamento; venceu, em larga medida, porque esseafastamento lhe permitiu reposicionar-se como figura de consenso, credibilidadee equilíbrio e honestidade.

A campanhareforçou essa percepção. A sua postura foi marcada por sobriedade discursiva,institucionalidade e recusa de estratégias de polarização. Sem ocultardivergências, Seguro nunca atuou politicamente com base no discursoconfrontacional, jamais cultivou a pretensão de uma superioridade moral, fugiusempre ao sectarismo ideológico e recusou o oportunismo. A sua narrativa menosestridente e mais consistente, permitiu-lhe captar apoios transversais — daesquerda moderada ao centro político e a setores da direita democrática —agregados em torno de valores estruturantes como o Estado de direito, ademocracia plural e o respeito pelas instituições.

Em contraste,a candidatura de André Ventura assentou na mobilização de frustrações sociaisreais — insegurança, desigualdades, desconfiança nas elites — mas ancorou-senum registo de confronto permanente e num registo de antagonismo social. Acandidatura de Ventura afigura-se mais como uma estratégia orientada sobretudopara a consolidação do seu eleitorado e para o reforço do seu capital políticocom vista a futuras eleições legislativas, mais do que para a construção de umacandidatura presidencial agregadora.

A elevadaparticipação eleitoral, apesar das condições meteorológicas adversas queafetaram várias regiões do país, surpreendeu. O resultado expressivo obtido porAntónio José Seguro não representa apenas uma vitória eleitoral robusta; demonstraque os portugueses reafirmaram a defesa de princípios fundamentais da Constituição,dos valores da liberdade, da solidariedade, do estado de direito democrático e daresponsabilidade institucional. Ao mesmo tempo, rejeitaram uma agenda assentenuma lógica populista, identitária e punitiva, frequentemente hostil a minoriase ao sistema político — características incompatíveis com a visão humanista ecom a tradição democrática e constitucional do país.