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Narrativa Diária

Não escrever um romance na «horizontal», com a narrativa de peripécias que entretêm. Escrevê-lo na «vertical», com a vivência intensa do que se sente e perturba. Vergílio Ferreira

Narrativa Diária

Sab | 04.05.13

Pacote de Decrescimento

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Como era expetável, o primeiro-ministro anunciou mais um pacote de medidas de redução da despesa no valor de 4,8 mil milhões de euros até 2015. As medidas atingem, mais uma vez, grupos mais vulneráveis  ̶  os funcionários públicos e os pensionistas  ̶   que pagarão quase dois terços da fatura da austeridade. Depois do discurso do primeiro-ministro ficamos a saber que os trabalhadores do Estado vão ser menos (30.000 vão ser convidados a rescindir), vão trabalhar mais 5 horas por semana, ter menos férias e descontar mais para a ADSE. Quem se reformar antes dos 66 anos sofrerá penalizações. Quem se aposentar a partir do próximo ano receberá menos e os atuais pensionistas vão pagar um novo imposto. Os grandes grupos económicos e as empresas com lucros gigantescos ficaram à margem de tudo isto. Provavelmente algumas destas medidas poderão ser inconstitucionais. Alguns deputados, nomeadamente os do PCP estão a ponderar pedir a sua fiscalização ao Tribunal Constitucional. Mas, o problema maior é que isto não vai parar por aqui. Depois destas medidas outras virão e depois mais outras. Porque esta austeridade fará seguramente aumentar a espiral recessiva existente, porque não se traduzirá nem em maior crescimento económico, nem em mais competitividade, nem em mais investimento. Pelo contrário, agravará ainda mais o desemprego e a recessão. Passos Coelho e Paulo Portas (sim, porque estas medidas tiveram naturalmente a sua concordância) insistem num modelo social que irá conduzir o País à ruina e que tem a total complacência do Presidente da República. Esta análise já foi compreendida por quase todos, até por aqueles que apoiavam esta maioria. A própria Dra. Manuela Ferreira Leite referiu no seu habitual comentário na TVI24, quinta-feira passada, que «andamos a fazer sacrifícios em nome de nada». A antiga ministra das Finanças considera que o Documento de Estratégia Orçamental (DEO) é um «documento verdadeiramente teórico, que nem para uma tese de doutoramento dava, porque não tem adesão à realidade». «Os números são verdadeiramente irrealistas e nunca serão possíveis de concretizar». Disse, ainda, não estar preocupada com as medidas que Passos Coelho iria anunciar no dia seguinte porque, em sua opinião, não são exequíveis. Questionada sobre a fragilidade de Vítor Gaspar como Ministro da Finanças, a anterior líder do PSD salientou: «Não estou muito preocupada com a fragilidade do ministro das Finanças. Estou preocupada com o País. O problema é a política que está a ser seguida que nos está a conduzir para um verdadeiro desastre».