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Narrativa Diária

Não escrever um romance na «horizontal», com a narrativa de peripécias que entretêm. Escrevê-lo na «vertical», com a vivência intensa do que se sente e perturba. Vergílio Ferreira

Narrativa Diária

Qua | 08.05.13

O Paulinho das rábulas

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«Paulo Portas é um artista. Como todos os bons artistas,  não tem problemas em desempenhar vários papéis. Já foi rebelde, já foi estadista, já foi amigo dos lavradores, do "espoliados do  Ultramar", dos ex-combatentes, dos reformados, das empresas, dos feirantes, dos trabalhadores. Já foi liberal e democrata-cristão. Já foi radical e desancou nos  imigrantes e no RSI. Já foi moderado e cheio de preocupações sociais.  Servem-lhe todos os bonés que a cada momento lhe convenham. O seu talento é  inversamente proporcional à firmeza das suas convicções.  

Paulo Portas tem muitas vidas. E como nunca morre, vai  cada vez mais longe no risco. Disse que deixaria de falar a um amigo que este  fosse para o poder. Nenhum amigo sobreviveu à sua sede de poder. Já teve, quando  foi candidato à Câmara Municipal de Lisboa, um cartaz em que jurava: "Eu fico!"  Foi eleito vereador, não ficou e ninguém lhe pediu contas. Foi-se embora da  liderança do CDS porque um "partido trotsquista" estava demasiado próximo. Fez a  vida negra a quem o substituiu e, à primeira oportunidade, voltou, como se nada  fosse. Deixou cair todos os que lhe pudessem fazer sombra. Fez a sua corte,  sem nunca deixar que alguém pudesse ser visto como candidato ao seu  lugar. Prometeu mundos e fundos a todos os seus eleitores. Nunca cumpriu  uma promessa.

Agora Paulo Portas faz o papel da consciência social deste  governo. Podia ser outro qualquer, mas este é o que agora lhe convém. Como  sempre, comentadores e jornalistas fingem que não sabem quem é Portas. Ele dá  bons espetáculos e os media não querem estragar bons momentos  televisivos, bons diretos, bons dramas cuidadosamente encenados.  

Soubemos, no entanto, pelos jornais, que a sua brilhante  homilia de domingo foi combinada com Passos Coelho. E ontem ela chegou ao  fim: a Contribuição Extraordinária de Sustentabilidade, que representa uma  pequeníssima parte do pacote de austeridade, caiu. Gaspar já tinha deixado  uma margem razoável para ela cair. Porque ela apenas foi criada para isso mesmo: para que Portas aceitasse tudo menos uma coisa que já se sabia que não era  para avançar. Para Portas fingir que fazia voz grossa e Gaspar e Passos  fingirem que o respeitavam. E assim, aceitando tudo, Portas consegue passar a  ideia de que a sua presença neste governo muda alguma coisa. E o governo repete  a rábula do costume: avança com o impensável para depois recuar para o  inaceitável.  

Durante o fim de semana, o exército de comentadores-ex-líderes  do PSD, alinhados com os ministros que usam Portas e as fugas para a imprensa  para não ficarem mal na fotografia, ajudaram nesta encenação: que Portas está  mais forte, que Gaspar já cede às suas exigências, que tudo está diferente. Está tudo na mesma. Até os malabarismos do CDS não mudam. Só há um  problema: o espetáculo pode ser bom, mas não sei se vale o suficiente para estar  em cartaz tanto tempo, sem um momento de improvisação, sem uma surpresa, sem  qualquer espaço para a espontaneidade. Sempre o mesmo enredo, sempre a mesma  cantiga.»

(Daniel Oliveira, Expresso, 8 de Maio de 2013