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Narrativa Diária

Não escrever um romance na «horizontal», com a narrativa de peripécias que entretêm. Escrevê-lo na «vertical», com a vivência intensa do que se sente e perturba. Vergílio Ferreira

Narrativa Diária

Ter | 17.03.20

448 pessoas infetadas!

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Portugal conta já com 448 pessoas infetadas com Covid 19, mais 86 casos relativamente ao dia anterior, e declarou ontem oficialmente a sua primeira vítima mortal (um indivíduo do sexo masculino, de 81 anos e já com problemas respiratórios graves).  Mantêm-se o crescimento exponencial e 3 doentes entretanto recuperados, ficando ainda ativos 445 casos, 18 deles em estado grave.

 

O Governo confirma que entre os 448 doentes com Covid-19 há 30 profissionais de saúde, o que que é deveras preocupante.


Na semana passada praticamente todos os casos de novo coronavírus em Portugal eram importados do estrangeiro, o que colocava o país no nível de alerta laranja, que corresponde a uma situação em que o risco de Covid-19 é moderado, com reforço da resposta e contingência, mas agora a realidade mudou. As cadeias de transmissão estão estabelecidas no país, dentro da comunidade, tratando-se de uma situação de epidemia ativa. Entramos agora numa fase mais grave do Covid19 que exigiria, talvez,  a adoção de medidas mais musculadas.

 

Fiquei preocupada ao ouvir os dados estatísticos de Jorge Buescu, professor do Departamento de Matemática da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, no programa “Prós e Contras” da RTP. Dizia este investigador que se nada tivesse sido feito pelo Governo, Portugal poderia chegar ao fim do mês de março com 60.849 infetados. Mas com as medidas de encerramento de escolas, serviços mínimos, redução de lotação em espaço públicos, restrições em deslocações, o número de infetados nesse período poderá vir a ser de pelo menos 19.303. Mas se o Governo tomasse medidas drásticas, ou seja, a decisão de fechar tudo, como fez a Itália, podianos porventura  chegar a essa fase com 4.186 infetados, revelam as contas do matemático. O matemático não tem dúvidas. O contágio em Portugal vai aumentar brutalmente, como também a percentagem de mortes. Assim sendo, conclui Buescu, o intervalo de tempo para agir é  escasso .


O economista Pedro Pita Barros contesta as projeções de Jorge Buescu relativas à evolução da pandemia do coronavírus. Neste artigo apresenta um modelo com previsões menos pessimistas.


Não sei quem estará certo, o que sei é que estamos num ponto em que, como não temos uma vacina para combater o vírus, nem uma estratégia totalmente eficaz para a eliminação do contágio, resta-nos socorrer do conhecimento e de quem percebe melhor disto que nós. A importância do conhecimento é neste momento decisiva, bem como o trabalho dos profissionais de saúde, sem esquecer a necessidade fundamental de cada um cumprir o seu dever.

 

Com muita clarividência, António Moita escreve o seguinte texto no Jornal de Negócios: «Como vai sendo assinalado cada vez com mais insistência, estamos perante um problema muito grave e de efeitos potencialmente devastadores sobre a saúde de milhões de pessoas e sobre a economia global. Há mesmo quem diga que este será o maior desastre alguma vez enfrentado no planeta e que a partir daqui nada será igual. Talvez seja cedo para o dizer. Mas nunca será tarde demais se começarmos de imediato a trabalhar concertadamente para atenuar os danos que já estão a ser causados.

 

Desde logo com a consciencialização individual e coletiva a que estamos obrigados. Comportamentos de risco são inaceitáveis pelo que podem provocar na nossa vida e na daqueles com quem convivemos. Prevenir não é apenas ficar fechado em casa à espera que tudo passe depressa. É também estar disponível para ajudar, para respeitar escrupulosamente os apelos das autoridades, para não tomar atitudes desproporcionadas como a de recorrer aos serviços de saúde por tudo e por nada ou participar no açambarcamento de produtos alimentares, medicamentos e afins. A resposta deverá ser global, mas a sua eficácia depende do contributo individual de cada um.

 

É também o tempo das instituições públicas e privadas sejam elas municipais, regionais, nacionais, europeias ou mundiais. Dos decisores políticos, da comunidade médica e científica, do setor social, da proteção civil ou das forças de segurança. Mas também dos empresários e dos trabalhadores. Ninguém está verdadeiramente preparado para uma calamidade com estas proporções nem, a não ser em cenários e no papel, a resposta a estas situações foi sequer ensaiada. Por isso é fundamental que a pesada responsabilidade que alguns têm de tomar decisões em nome do interesse coletivo, seja assumida e partilhada por todos. O tempo é de juntar esforços e de unir. De colaboração ativa entre comunidades, investigadores e decisores na procura de respostas e de soluções para os problemas que surgem a uma velocidade alucinante.

 

A Europa e o mundo têm sido confrontados nos últimos anos com enormes desafios decorrentes da globalização, das ameaças ao multilateralismo, do crescimento dos movimentos nacionalistas e populistas, de correntes de pendor mais liberal que põem em causa o papel dos Estados e, especialmente na Europa, a relevância do Estado social.

 

Pois chegou o tempo de os Estados e as organizações internacionais fazerem a sua prova de vida, exercendo toda a sua autoridade e assumindo cabalmente o seu papel. É certo que existe uma desconfiança generalizada nas instituições por parte dos cidadãos. Terá chegado a oportunidade de nos demonstrarem que andámos todos enganados e que podemos confiar nos governantes e em todos quantos trabalham para ajudar a tornar o mundo melhor.

 

E será também o momento de iniciar uma reflexão profunda sobre o mundo em que queremos viver. Se escolhemos o acentuar dos desequilíbrios económicos, culturais e sociais ou se optamos por uma distribuição mais justa da riqueza e das condições de acesso a uma vida digna. Se queremos constituir uma comunidade solidária e interdependente ou se queremos ver erguer mais muros e permitir o surgimento de líderes autocráticos que fomentam o ódio e o isolamento em nome de interesses egoístas e de projetos sem futuro.».

 

Numa época em que impera o individualismo, em que andámos distraídos e a desviar-nos do essencial,  em que cada um vinha pensando, cada vez mais em si e em que as relações entre as pessoas vinham sendo cada vez mais virtuais, de repente somos confrontados com uma realidade que nos impõe, muito rápida e abruptamente, que todos temos o dever de juntos travar esta batalha, de mãos dadas, de forma real e efetiva e de pensar em primeiro lugar no coletivo e não apenas em nós.


Muito mudou e num curto espaço de tempo, muito irá mudar e definitivamente. A meu ver, nada mais será como antes. Efetivamente o mais importante do Mundo são as pessoas, hoje e sempre.

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