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Narrativa Diária

Não escrever um romance na «horizontal», com a narrativa de peripécias que entretêm. Escrevê-lo na «vertical», com a vivência intensa do que se sente e perturba. Vergílio Ferreira

Narrativa Diária

Qui | 06.06.13

O Special One

 

 (imagem retirada da Net)  

Nestes últimos dias não há telejornal que não inclua uma peça sobre José Mourinho, seja pelo seu regresso ao Chelsea, seja pelas querelas com os jogadores do Real Madrid, seja pelos milhões que vai receber no seu novo clube, seja pelos jogadores que ambiciona para a próxima época. Enfim....tudo é notícia. José Mourinho saiu do Real Madrid e está de volta ao Chelsea! Regressa a um clube onde foi feliz, afastando-se de um ambiente que lhe foi adverso. O período no Real Madrid foi conturbado, recheado de polémicas e confusões, Mourinho sai do Real Madrid pela porta pequena, antes de acabar o vínculo contratual, em conflito com tudo e todos e, mais importante, sem conseguir cumprir o objetivo para o qual foi contratado e no qual o clube espanhol apostou fortemente. No entanto, contrariamente á ideia que tentou passar nos últimos tempos, Mourinho não abandonou o Real Madrid por ter muitos adeptos a critica-lo no estádio ou fora dele. O treinador português ponderou sair quando viu gorada a possibilidade de repetir o título da temporada passada ainda durante a primeira volta do campeonato espanhol. Cedo afastado de um desafio que pensava superar com relativa facilidade,  face ao sucesso do ano anterior, à saída de Guardiola do Barcelona e à entrada de Tito Vilanova (técnico sem grandes credenciais no futebol), Mourinho jogou tudo na Liga dos Campeões e falhou. Foi por pouco, mas falhou. Sem a possibilidade de ganhar a Liga dos Campeões, Mourinho entrou em descrédito junto dos adeptos e dos responsáveis do Real e, cedo percebeu, que seria despedido no final da época. Por isso, inteligentemente, tentou passar a ideia junto da imprensa de que era ele que pretendia sair e, para o seu plano adquirir maior eficácia, foi comprando guerras e disparando em todas as direções: «talvez não fique no Real Madrid na próxima época, quero estar onde as pessoas gostam de mim» e onde «os jornalistas me critiquem, mas também saibam elogiar» em vez de «apenas me odiarem».  Outras atitudes que foram igualmente comentadas pela imprensa espanhola e que beliscaram a sua imagem, prendem-se com o facto de não comparecer para receber a medalha no final da Taça do Rei, após ter sido derrotado pelo Atlético Madrid, no Santiago Bernabéu. Meses antes, havia mostrado pouco fair-play ao ignorar o convite para estar presente na cerimónia de entrega dos troféus dos melhores do planeta, sabendo de antemão que não seria ele o vencedor, dando a entender posteriormente que a eleição havia sido viciada. Os desentendimentos com elementos preponderantes da sua equipa foram perfeitamente inusitados e mostraram um Mourinho até então desconhecido. Seja o melhor do Mundo ou não, a verdade é que  Mourinho vai deixar o Real Madrid porque não atingiu os objetivos a que se propôs. Mou sempre soube que assim era, e conscientemente optou por esse caminho. Foi uma opção legítima? Claro que sim. Mas como qualquer outra opção comporta riscos. Não sei se José Mourinho é o melhor treinador de futebol do Mundo. Aliás, essa eleição - como tantas outras - é bastante questionável e “vale o que vale”, já que não se baseia em parâmetros objetivos, dando a possibilidade de se votar consoante o momento, o gosto, a estima pessoal e a simpatia que se nutre por este ou aquele candidato. Todavia, parece-me, inequívoco, que o técnico português é, senão o melhor, um dos melhores. Se é o número 1, 2 ou 3 parece-me perfeitamente irrelevante. Mas, independentemente da posição que ocupa na hierarquia do futebol internacional, fixou-se-lhe o rótulo de ‘ser especial’ - “special one” -. Este rótulo que atribuiu a si próprio quando chegou ao Chelsea, colou-se-lhe à pele. No entanto, por muito que o próprio e alguns dos seus fans assim julguem, Mourinho não é um Deus. O “special one” é "apenas" um dos melhores técnicos da história do futebol. No entanto, à semelhança dos restantes, não é perfeito, comete erros, toma por vezes opções erradas, descontrola-se muitas vezes, tem alguns inimigos, ganha jogos e troféus... mas também perde alguns. Por outras palavras... é humano. Para uns, arrogante, para outros muito egocêntrico, a verdade é que Mourinho cultivou uma imagem de marca no futebol português e mundial. Usa os media, como poucos, para pôr em prática os seus jogos mentais, ora para intimidar os adversários, ora para motivar os seus jogadores. Ao mesmo tempo que cultiva um visual extremamente cuidado, com gestos estudados, ganhou, acima de tudo, uma imagem de marca: duro, bonito, direto, inteligente e com estilo. José Mourinho é admirado pelos homens e desejado pelas mulheres. O seu elevado potencial mediático catapultou-o para o mundo da publicidade. Tornou-se célebre uma frase sua num anúncio publicitário a um banco: «se não fosse para ganhar, eu não estaria aqui». Em suma: a sua imagem vende. E vende muito bem. Por tudo isto ele é e continuará a ser disputado pelos grandes clubes do futebol mundial e a ser notícia diariamente na imprensa nacional e internacional.