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Narrativa Diária

Não escrever um romance na «horizontal», com a narrativa de peripécias que entretêm. Escrevê-lo na «vertical», com a vivência intensa do que se sente e perturba. Vergílio Ferreira

Narrativa Diária

Seg | 10.06.13

O Pós-Troika

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O Presidente da República voltou a insistir, hoje, em Elvas, na urgência de pensar o «pós-troika», independentemente do Governo em funções. Portugal está, como sabemos, a um ano de terminar formalmente o programa de resgate financeiro, faltando, até lá, cinco exames regulares da troika, o que poderá significar mais cortes na despesa, mais reformas para negociar com os nossos credores, a que se junta uma enorme indefinição quanto à evolução e ao crescimento da nossa economia, capazes de reduzir o desemprego, principal problema com que o País está neste momento confrontado. O grande desafio do «pós–troika» é o regresso aos mercados que poderá não ser «favas contadas». Assim, a pergunta que se impõe: será que Portugal, um país endividado, fustigado, política e socialmente, após vários anos de austeridade, conseguirá financiar-se, com juros mais altos do que alguma vez pagou? Na opinião do economista, Silva Lopes, «o regresso de Portugal aos mercados vai tornar a posição [portuguesa] de tal maneira insustentável que não teremos outro remédio senão regressar à troika». Ainda segundo este economista, «A renegociação de que tanto se fala acabará por acontecer e, ao contrário do que outros querem fazer parecer, a renegociação não vai ser para uma situação fácil, com condições mais ligeiras, vai ser, pelo contrário, para condições muito mais duras». Numa análise aos dois anos decorridos da implementação do memorando da troika, o economista referiu que «a austeridade vai ter de continuar», mas, ao mesmo tempo, terá de haver medidas de crescimento económico. «As políticas de crescimento não surgem só das reformas estruturais que vão promover maior liberalização e melhor funcionamento do mercado, exigem uma ação da parte do Estado de apoio ao sector exportador», avançou. Mas mesmo que o regresso aos mercados, viesse a ser bem-sucedido, o que será muito provavelmente uma fantasia, a recessão e o desemprego vão perdurar. Temos um programa de cortes na despesa pública, não uma reforma do Estado. E uma situação social que se agrava de dia para dia. Cavaco Silva recorda que «esta é uma questão decisiva para o nosso futuro coletivo». Será certamente. Contudo, não se afigura aceitável separar o «pós-troika» da crise atual. Não é possível alimentar a ilusão de que a discussão sobre o futuro do País pode ser feita ignorando o momento presente.