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Narrativa Diária

Não escrever um romance na «horizontal», com a narrativa de peripécias que entretêm. Escrevê-lo na «vertical», com a vivência intensa do que se sente e perturba. Vergílio Ferreira

Narrativa Diária

Sex | 02.01.26

O último discurso do Presidente

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No seu último discurso de Ano Novo, Marcelo Rebelo de Sousa prometera uma intervenção politicamente mais neutra, lembrando que, a apenas 17 dias das eleições presidenciais, o país já se encontra em plena pré‑campanha, com os candidatos à sua sucessão no terreno.

Em direto do Palácio de Belém, o Presidente da República optou por um discurso breve, expressando o desejo de que 2026 seja “um ano com mais desenvolvimento, mais justiça, mais liberdade, mais igualdade e mais solidariedade”. Formulou ainda a esperança de que o novo ano se revele “singular”, marcado pela paz nos vários conflitos internacionais, pelo respeito pela “lei internacional expressa na Carta das Nações Unidas” e pela “dignidade das pessoas”. Defendeu igualmente “mais saúde, mais educação, mais habitação, mais justiça, ainda mais crescimento, ainda mais emprego e menos pobreza e desigualdade”, apelando a “mais tolerância, mais concordância” e a um reforçado “sentido de coesão nacional”.

Num momento de transição política, o Presidente recorreu a Eça de Queiroz, através da figura de Gonçalo Mendes Ramires, de A Ilustre Casa de Ramires, para traçar um retrato simultaneamente crítico e esperançoso do país, como metáfora da sociedade portuguesa: “Um fundo de melancolia, apesar de tão palrador, tão sociável. A desconfiança terrível de si mesmo, que o acobarda, o encolhe, até que um dia se decide e aparece um herói, que tudo arrasa (…)”. Recuperando esta caracterização dos portugueses, “para o bem e para o mal”, sublinhou que, “com qualidades e coragem excecionais, que de longe superam os defeitos”, o país tem sido assim “há quase 900 anos” — e assim continuará a ser. Descreveu os portugueses como um povo de “franqueza, doçura e imensa bondade”, mas também marcado por contradições, melancolia e por uma esperança persistente num milagre salvador: “Sabem vocês quem me lembra? (…) Portugal”.

Eça, como se sabe, foi um exímio retratista da sociedade do seu tempo. A escolha de Marcelo revelou‑se particularmente feliz: uma forma menos direta e mais profunda de comentar a realidade contemporânea, atingindo os alvos sem os nomear. Ao convocar um clássico da literatura portuguesa, o Presidente mostrou que as contradições e virtudes identificadas por Eça há mais de um século permanecem atuais, conferindo ao discurso um tom identitário que ultrapassa a retórica política e reforça a sua dimensão simbólica.

Ainda vamos sentir saudades da inteligência e da sagacidade de Marcelo Rebelo de Sousa, apesar de tudo.