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Narrativa Diária

Não escrever um romance na «horizontal», com a narrativa de peripécias que entretêm. Escrevê-lo na «vertical», com a vivência intensa do que se sente e perturba. Vergílio Ferreira

Narrativa Diária

Qui | 28.03.13

ENTREVISTA DE SÓCRATES À RTP

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Sócrates começou por afirmar que as intenções que marcaram o seu regresso, não envolvem projetos de candidatura a Belém ou à liderança do PS. Simplesmente achou ser este o momento oportuno para voltar. A RTP convidou-o para ter um espaço  semanal de comentário político e ele aceitou "pro bono". As suas críticas nesta entrevista focalizaram-se em Passos Coelho e na direita em geral, e em Cavaco Silva em particular.

A sua “narrativa” (palavra, aliás, que repetiu até à exaustão) passou por «desmontar três embustes»: primeiro, não foi o seu governo responsável pela crise política criada. Esta crise foi consequência da crise internacional, disse. Segundo, foi negar, veementemente, ter contribuído para o pedido de ajuda financeira. Segundo Sócrates «nessa narrativa há uma mistificação histórica, que tem uma ideologia por trás - a da direita». O PEC IV pelo qual se bateu ferozmente e havia já sido aprovado nas instâncias europeias, teria evitado, em sua opinião, o pedido de ajuda externa. O PSD e Cavaco Silva foram, segundo o ex-primeiro ministro, os principais responsáveis pela sua inviabilização (omitiu aqui o papel do PCP e Bloco de Esquerda). Terceiro, foi a aplicação do memorando pelo atual executivo. O ex-primeiro-ministro socialista diz que «o Governo nunca aplicou o memorando inicial», quis ir mais além e procedeu a 7 alterações.

Relativamente ao Presidente da República (PR), disse que não lhe reconhecia autoridade moral para lhe dar lições de lealdade. O PR «usou dois pesos e duas medidas». Dizia «que havia limites aos sacrifícios pedidos aos portugueses» e agora aceita pacificamente que não se pague os subsídios de férias e de Natal. Sócrates rejeitou que tivesse ocultado o PEC 4 ao PR. «Nem nos Orçamentos do Estado nem nos PEC ’s havia a tradição de os discutir com o PR, antes de os anunciar», arguiu. «Se o PR queria evitar uma crise politica teve tempo para o fazer. Mas não tinha esse interesse». Com o discurso de posse, mostrou «a mão escondida atrás dos arbustos que desencadeou a crise». Cavaco «deu um sinal à oposição que podia provocar uma crise». E agora está calado, diz Sócrates, porque «é o patrono desta solução política».

Jose Sócrates contrariou a ideia de que o seu governo tenha sido despesista, recorrendo a estatísticas. No aumento da despesa do Estado, designadamente com o aumento dos ordenados dos funcionários públicos, antes das eleições de 2009, Sócrates defendeu-se da acusação de eleitoralismo. Os aumentos de salário (2,9 por cento, os maiores da década) justificavam-se porque o Governo «tinha uma doutrina de ajudar as famílias, compensar o aumento dos preços da alimentação e do petróleo, para além da circunstância dos ordenados estarem congelados há 3 anos. «Não vi nenhum partido com medidas de contenção da despesa, pelo contrário». Outra “narrativa” que negou, também, foi ter sido «o pai das PPP».

Manifestou compreensão por o atual secretário-geral do PS não ter vindo a terreiro em sua defesa. «O papel de um partido é pensar no futuro, para me defender estou cá eu». Ainda assim salientou que esta «atitude nobre» de Seguro o deixou exposto às mentiras sobre a sua governação.

Sócrates foi fiel à imagem combativa que conhecíamos. O seu regresso ao comentário político é, sem dúvida, um bom ponto de partida para a revitalização do debate e da discussão no espaço público. «O animal feroz» continua em grande forma. Sabe exatamente o que quer dizer e como deve passar a mensagem. Ontem, esta “narrativa” foi muito centrada em si próprio, mas haverá certamente muitos mais capítulos. Aguardemos pelas cenas dos próximos.

 

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