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Narrativa Diária

Não escrever um romance na «horizontal», com a narrativa de peripécias que entretêm. Escrevê-lo na «vertical», com a vivência intensa do que se sente e perturba. Vergílio Ferreira

Narrativa Diária

Qui | 11.07.13

O acordo tripartido

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Cavaco Silva decidiu que a melhor solução para pôr fim ao conflito político suscitado pela demissão de Vítor Gaspar e de Paulo Portas seria a celebração de um acordo alargado entre os partidos do «arco da governabilidade» (PSD, PS e CDS) com vista a estabelecer um «compromisso de salvação nacional» que, por um lado, dê garantias aos mercados, estabilidade às instituições europeias e, por outro, defina um calendário mais adequado à realização de eleições antecipadas, coincidentes com o final do Programa de Assistência Financeira, em Junho do próximo ano. O governo que resultar das próximas eleições poderá contar com o compromisso entre os três partidos que assegure a governabilidade do país, a sustentabilidade da dívida pública, o controle das contas externas, a melhoria da competitividade e a criação de emprego.

Para o Presidente da República, no momento atual, o cenário de eleições antecipadas comportaria o risco de não clarificar a atual crise e contribuir para tornar ainda mais confusa e instável a situação política, caso os partidos não conseguissem dar uma resposta cabal e efetiva. A realização de eleições nesta circunstância comprometeria a 8ª e 9ª avaliação, suspendendo as parcelas dos empréstimos, teria como consequência a perda de confiança dos mercados o que tornaria inevitável um novo resgate, e inviabilizaria a aprovação do Orçamento de Estado em Janeiro do próximo ano.

Em suma: a narrativa apresentada, ontem, pelo Presidente da República transformou o governo de Passos Coelho num governo de gestão. Garantiu que o governo está em plenitude de funções, mas a confiança no governo nunca foi invocada, nem sequer para justificar a decisão de não convocar eleições. O Chefe do Governo responsabilizou, inequivocamente, a maioria pela crise gerada. Fê-lo ao abordar as consequências inerentes, mas fê-lo, sobretudo, ao ignorar a solução acordada entre Passos Coelho e Paulo Portas. Propôs a formação de um «compromisso de salvação nacional» com os três partidos que assinaram o memorando até Junho de 2014, nomeando uma personalidade prestigiada para mediar o diálogo. Reconheceu esta solução não poderá ser imposta, até porque um acordo só terá eficácia se contar com a adesão voluntária, firme e responsável dos envolvidos.

O Presidente surpreendeu ao tomar esta atitude, completamente inesperada. Mas a verdade é que, ao propor uma solução de «bloco central», arrisca o caos político, uma vez que dificilmente o partido socialista aceitará fazer parte de um governo a prazo - penhorando as suas aspirações – tornando, deste modo, esta solução pouco exequível.