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Narrativa Diária

Não escrever um romance na «horizontal», com a narrativa de peripécias que entretêm. Escrevê-lo na «vertical», com a vivência intensa do que se sente e perturba. Vergílio Ferreira

Narrativa Diária

Sab | 13.07.13

Sejamos Claros!

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Uma leitura aturada do discurso do presidencial tem um significado que se destaca de todos os outros: Cavaco Silva perdeu inexoravelmente a sua confiança na atual maioria. Depois de conhecida a carta de demissão do Ministro Vítor Gaspar, das birras e das exigências do Ministro do Estado e dos Negócios Estrangeiros, e da falta de jeito de Passos Coelho para gerir a coligação e a atual crise política, Cavaco Silva decidiu lançar mão dos destinos do país. Para isso gizou um plano, através do qual pretende serenar os ânimos do pais, chamando os três principais partidos políticos a firmar um compromisso governativ, ficando ao leme de todas as decisões.

Ao PSD garantiu a permanência por mais um ano no poder; ao CDS-PP ofereceu, de forma irrevogável, a possibilidade de fazer parte de um acordo tripartidário; ao PS sugere a possibilidade de saborear a futura vitória eleitoral, antecipando-a em 15 meses. Esta é, em resumo, a «salvação nacional» que Cavaco Silva propõe. Enquanto os três partidos se torturam com dúvidas e incertezas reunidos com os respetivos conselhos nacionais, ele, sentado na sua bela poltrona, na residência mais cara do país, assiste a todas estas movimentações.

Aqui chegados, uma nuvem de incerteza paira no ar. Os comentadores arriscam previsões, umas mais, outras menos catastrofistas, mas o certo é, pelo menos até agora, nada está garantido. Mas a comunicação de Cavaco Silva teve um mérito: serviu para agitar as águas. Estremeceu as posições da maioria. PSD e CDS foram confrontados com um novo cenário que os apanhou completamente desprevenidos. Os dois partidos da coligação pensavam ter resolvido a crise governamental criada por eles próprios e partindo do princípio de que tinham a situação controlada. Em vários momentos, tentaram pressionar o Presidente. Mas a resposta de Belém mostrou que nada pode ser dado como irrevogável. A maior dúvida reside no que pode acontecer nos próximos dias. Todos os partidos da coligação, mas também o PS, estarão neste momento a refletir sobre o repto do Presidente e na forma mais adequada de lhe responder. Mas, sejamos claros: como pode Passos Coelho continuar a ser primeiro-ministro tendo o Presidente recusado a solução em que tanto se empenhou? E como pode Paulo Portas continuar no Governo se a sua condição para ter voltado com a palava atrás foi justamente a mudança de estrutura dentro do governo, as novas pastas entregues ao CDS, e os novos poderes dentro do Executivo? E relativamente ao PS, como pode agora fazer parte de um governo baseado num acordo, se sempre afirmou, perentoriamente, que só governaria, após sufrágio eleitoral? É nas respostas a estas perguntas que está a clarificação da situação política nacional. E é urgente que se faça esta clarificação, sobretudo, para tranquilizar os mercados, mas também os nossos credores.