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Narrativa Diária

Não escrever um romance na «horizontal», com a narrativa de peripécias que entretêm. Escrevê-lo na «vertical», com a vivência intensa do que se sente e perturba. Vergílio Ferreira

Narrativa Diária

Qui | 12.09.13

Raparigas vão poder frequentar Colegio Militar

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O Ministério da Defesa vai extinguir o Instituto de Odivelas, através da sua integração no Colégio Militar (CM), que deverá funcionar em regime misto, com internato e externato, a partir do ano letivo de 2014/2015. Militares, antigos alunos e figuras destacadas da sociedade civil opõem-se.

A construção do internato feminino no CM vai custar 2,1 milhões de euros, valor que o Estado pode recuperar em dois anos, racionalizando os gastos com pessoal. «Dois anos de gestão partilhada dos recursos humanos afetos aos três estabelecimentos de ensino militar são suficientes para pagar as obras», referiu o coordenador da Comissão Técnica de Acompanhamento da Reestruturação dos Estabelecimentos Militares de ensino não superior, Joaquim Azevedo, numa audição na Comissão de Defesa da Assembleia da República. Para os 820 alunos distribuídos pelas três instituições do ensino militar existem 171 professores e 389 funcionários, num rácio de professores e funcionários por aluno que, segundo Joaquim Azevedo, é o dobro do que existe no ensino público em geral. «Só em requisições ao Ministério da Educação, o Exército gasta anualmente três milhões de euros», adiantou o coordenador.

Depois de concluída a reestruturação, os colégios vão ficar com uma capacidade instalada para acolher mais de 1400 alunos – 851 rapazes e raparigas no CM e 565 alunos nos Pupilos do Exército –, o que, naturalmente se traduzirá num aumento do número de alunos e, pressupondo, portanto, tudo menos a morte do CM, contrariamente ao que afirma uma campanha publicitária veiculada pelos media.

Não está em causa a formação ministrada nestes estabelecimentos de ensino, certamente excelente e onde é dado um especial relevo à componente física e incentivada a prática do desporto (afinal quantos miúdos não gostariam de ter a oportunidade de aprender equitação ou de praticar esgrima?).

Mas, numa altura em que o governo tem fechado inúmeras escolas, alegando criterios economicistas e demograficos com base na redução do número de alunos originada, em grande parte, pela decréscimo da taxa de natalidade, seria inaceitável sustentar a manutenção de três estabelecimentos militares, vocacionados para formar elites com dinheiros provenientes do erário público, mesmo os alunos pagando mensalidades elevadas!

A entrada de raparigas desvirtua os princípios do CM afirmam aqueles que se opõem à reforma proposta pelo Ministro da Defesa. Pergunto: a segregação por género não desvirtua os direitos consagrados na Constituição da Republica Portuguesa e na Lei de Bases do Sistema Educativo e das conquistas de Abril de 74? Afinal a coeducação (Educação em comum de rapazes e raparigas) foi uma destas conquistas, porque antes de 1974, havia escolas exclusivamente femininas ou masculinas. Os objetivos, em matéria de igualdade de género, consistiu em assegurar a igualdade de oportunidades e tratamento entre os dois sexos, por um lado, e em lutar contra toda a discriminação fundada no sexo, por outro.

Este parece-me ser mais um caso manifesto de corporativismo exacerbado. Os militares, desde sempre, foram capazes de lutar pela pátria, mas, em tempo de paz, defendem, até mais não, o seu status quo.Quando tudo muda, as instituições militares mantêm-se no seu anafado imobilismo, agarrados ao simbolismo da sua história, incapazes de olhar para o mundo atual e global e para a sociedade que os rodeia!