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Narrativa Diária

Não escrever um romance na «horizontal», com a narrativa de peripécias que entretêm. Escrevê-lo na «vertical», com a vivência intensa do que se sente e perturba. Vergílio Ferreira

Narrativa Diária

Seg | 23.09.13

Praxes Académicas

Com o início de um novo ano letivo regressam as famosas praxes académicas. Nesta semana, foi raro o dia em que não me cruzei com bandos de estudantes universitários, trajados a rigor, com fatos académicos, seguindo caloiros em trajes carnavalescos.

A praxe académica deveria ser um conjunto de práticas salutares, destinadas a contribuir para uma melhor adaptação e integração dos novos alunos que entram no ensino superior. Lembro-me que quando ingressei no ISCTE, eu própria, vivenciei um desses momentos: uma aluna do 2º ano, com a conivência da professora presente na sala, foi-nos dar a primeira aula. Transmitiu-nos regras aberrantes e disparadas (aulas ao fim-de-semana; uma extensa bibliografia de aquisição obrigatória), enfim um momento hilariante e engraçado. Depois, os alunos do 2º ano convidaram-nos para um jantar, onde pudemos trocar algumas impressões sobre o curso, sobre os conteúdos programáticos, os professores, etc.

Sucede que  estas práticas são muitas vezes mal interpretadas ou mal exercidas, tendendo a criar a ilusão de um poder, ainda que efémero, sem controlo, tornando as praxes académicas um tema controverso sem que a sociedade em geral se interrogue, como devia, sobre a violência desnecessária e gratuita praticada ao abrigo das mesmas.

Os seus defensores sustentam que as praxes académicas facilitam o relacionamento entre os caloiros e os veteranos e que não passam de momentos de convívio amigável com a finalidade de conseguir a integração social dos novos alunos na vida académica. Mas para isso é necessário aplicar práticas humilhantes, impostas geralmente pela coação e pelo medo, com laivos de boçalidade e violência sobre o outro, no caso o caloiro? A Universidade deve ser um espaço de liberdade, mas liberdade é uma noção que não encaixa no âmbito da praxe.  

Claro que existem muitos alunos universitários com consciência crítica que não atribuem importância alguma a este folclore, que dele até se distanciam e que sobre ele ironizam. Mas são muitos mais aqueles que, encolhendo os ombros, apenas aceitam o seu lado mais ocasional e simbólico.

Na opinião de João Teixeira Lopes, sociólogo e professor da faculdade de Letras da UP, que trabalhou este tema, estes rituais são diretamente proporcionais à massificação do ensino superior, cujo número de alunos, lembra, praticamente decuplicou entre o final da década de 60 e final de 90. «Para os pais destes alunos - na sua maioria com níveis de escolaridade e de qualificação reduzidos - ver os filhos na universidade é a prova visível de um percurso de ascensão social, ao contrário do que acontecia no princípio dos anos 80, quando frequentar o ensino superior era, já de si, um fator de distinção"». Uma forma de ostentação que poderá estar, de certa forma, relacionado «com o forte investimento por parte dos pais, mas que também é sentido pelos estudantes». Daí, explica Teixeira Lopes, haver uma «necessidade de exibir essa conquista» através de rituais que invadem o espaço público, como é o caso não só da praxe académica, mas do próprio cortejo ou da queima das fitas. «E os estudantes mostram-no da forma mais ruidosa e exuberante possível», diz.

Este "reinventar" das tradições é, na sua opinião, igualmente indissociável de um futuro profissional "pouco risonho", muito provavelmente preenchido por um ciclo de flutuação em vários empregos, que conduzem a um «prolongamento da juventude e da dependência face aos pais», contrariamente ao que acontecia há trinta, ou quarenta anos. Na opinião do sociólogo, essa incerteza «pode conduzir a situações de profunda frustração e refletir-se na agressividade, cada vez mais notória, que os rituais da praxe académica ostentam». «Os incautos acabam por ser apanhados, muito provavelmente por não terem uma alternativa a estes rituais, por este ser o único meio de integração social», continua. E quando se recusa a praxe corre-se o risco de ser-se ostracizado, e «ser-se ostracizado numa faculdade pode significar solidão e depressão», sublinha. Nesse sentido, João Teixeira Lopes critica os movimentos associativos e as juventudes partidárias por não terem a imaginação suficiente para «contrapor alternativas».

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