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Narrativa Diária

Não escrever um romance na «horizontal», com a narrativa de peripécias que entretêm. Escrevê-lo na «vertical», com a vivência intensa do que se sente e perturba. Vergílio Ferreira

Narrativa Diária

Ter | 01.10.13

O trilema de António Costa

narrativadiaria

«Eu penso que António Costa tem um 'trilema'. Sobretudo desde que teve um resultado tão bom, mas tão bom em Lisboa, que ninguém com um resultado assim ficaria indiferente.

A que se deve uma vitória - esta, sim, esmagadora, com mais de 50 por cento dos votos e mais de 60% dos vereadores? À sua qualidade de autarca? Certamente! Ao facto de o candidato adversário não ter sido bem escolhido? Provavelmente! Ao facto de o PSD estar no Governo, com a troika, com a crise, com o resgate e isso puxar os resultados sociais-democratas bastante para baixo? Sem dúvida! Ao facto de António Costa ser um vencedor nato de qualquer eleição, pelo modo como fala, pela clareza de ideias, pela autoridade natural, pelo carisma, pela inexplicável boa imprensa que tem (comparado com outros no seu lugar)? É possível!

Mas isto cria um 'trilema'. Deverá Costa ser presidente da autarquia de Lisboa até 2017? É que depois disso já não pode recandidatar-se e tem apenas 56 anos. Dedica-se à advocacia, onde nunca se chegou a notabilizar e espera por outra oportunidade que só chegará em 2026 (Presidenciais)?

Deverá Costa apear Seguro, se houver um resultado menos bom nas Europeias, em 2014, e apresentar-se ele em nome do PS como candidato a primeiro-ministro, esperando que o seu carisma e o entusiasmo que desperta levem o PS a uma maioria absoluta? Mas... e se o país ainda estiver (facto muito provável) nas mãos da troika, fruto de um segundo resgate ou de um programa cautelar, que o obriguem a medidas restritivas e antipopulares? Não será essa uma forma de matar a boa aura que tem vindo a criar?

Deverá Costa, numa jogada 'à Sampaio' (aliás o seu mentor) candidatar-se a Presidente da República em 2016 (campanha começa em 2015) e saltar diretamente da Praça do Município para o Palácio de Belém? Mas... e se o PS, que nesse caso será comandado por Seguro ou outro líder - e provavelmente já estará no Governo depois das eleições de 2015 - preferir outro nome?

Costa tem muitas opções à frente. Tem demais... Tem um 'trilema'. Por isso ele não responde se fica quatro anos em Lisboa e num lapso assinalável e nele raro, voltando-se para a jornalista que lhe fez essa pergunta, contra-atacou: "Pode dizer-me se daqui a um ano, ainda trabalha na mesma televisão?". Ora a jornalista é uma profissional que está ao dispor de quem lhe pagar um melhor salário e lhe der melhores condições de trabalho. O problema de António Costa não é de todo este, mas o rumo a seguir, os passos a dar, num calendário cheio de acontecimentos.

Por mim, acredito nele. Para já, Costa não sabe o que há de fazer. Espera um dia em que tudo se torne mais claro. E nesse momento, mas com bastante antecedência, como fez Sampaio, dirá estar disponível para o cargo que entender. Neste momento, ele é o herói do PS, mas não pode confiar que vá continuá-lo a ser para todo o sempre».

Henrique Monteiro, hoje, Expresso Online