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Narrativa Diária

Não escrever um romance na «horizontal», com a narrativa de peripécias que entretêm. Escrevê-lo na «vertical», com a vivência intensa do que se sente e perturba. Vergílio Ferreira

Narrativa Diária

Ter | 01.10.13

Breve olhar sobre as eleições autárquicas

narrativadiaria

É preciso ser-se prudente com a análise dos resultados das eleições autárquicas e a sua leitura a nível nacional, porquanto muitos deles não passam de epifenómenos. Senão, vejamos: há eleitos que alcançaram um bom resultado porque têm créditos firmados ao nível do poder local, com “obra feita“ que ultrapassa o sentido da preferência dos eleitores pelo partido pelo qual concorreram. Presidentes de câmara que ocupam os lugares pelo mérito específico dos candidatos (casos das candidaturas independentes). Todavia, também existem presidentes de câmara eleitos que alcançaram o lugar por caciquismo, por retaliações internas dentro dos partidos ou que perderam por demérito próprio (Luís Filipe Menezes ou Fernando Seara são exemplos paradigmáticos). Por isso, é necessário depurar os resultados, tentando não extrapolá-los e tirar conclusões precipitadas.

Em traços gerais o PS conseguiu quase metade das principais câmaras, mais precisamente 150 câmaras (contando com a coligação no Funchal) e perdeu 241 mil votos. Teve menos votos (em termos absolutos e relativos) que em 2009. A explicação para este facto talvez esteja nas vitórias ganhas pela CDU a sul do Tejo e em Loures, bem como no valor da abstenção (47%). Mas, tal facto, não deve ensombrar a sua vitória eleitoral: o PS foi, na minha opinião, um grande vencedor destas eleições autárquicas: em câmaras, em municípios relevantes e na Associação Nacional de Municípios.

A CDU está igualmente de parabéns. Conseguiu granjear maior representatividade no poder local, expressa não apenas na sua votação, mas também pela recuperação de alguns bastiões socialistas, como Évora e Beja e no reforço de algumas maiorias em cidades importantes como Setúbal. A tradição de boa gestão autárquica dos comunistas consolidou-se nestas eleições.

O PSD teve um péssimo resultado (pior de sempre). A derrota do PSD era esperada. Nos 5 maiores municípios (Lisboa, Porto, Vila Nova de Gaia, Cascais e Sintra) o PSD conseguiu apenas manter Cascais, uma vez que Carlos Carreiras aguentou-se.

O CDS, apesar do ar ufano do seu líder, ganhou 4 câmaras e 18 400 votos, mas perdeu 10,8% de eleitorado, conseguindo regressar, a nível autárquico, a ser o partido do táxi (5 câmaras).

O Bloco sofre a maior queda percentual (27%) do seu apoio autárquico. A derrota do Bloco de Esquerda em todo o país é um sinal claro de que o partido está de facto a regredir desde que Francisco Louçã saiu da liderança. A nova direção de João Semedo e Catarina Martins não parece convencer o eleitorado.

O Porto foi mesmo a maior surpresa da noite eleitoral (embora a sondagem da Universidade Católica já tivesse mostrado essa tendência) ao assistirmos à vitória de Rui Moreira, relegando Luís Filipe Meneses para o 3.º lugar. Venceu, com apoio do CDS, mas a sua campanha reuniu gente de todos os quadrantes políticos.

A dinâmica gerada pelos independentes foi, sem dúvida, uma das coisas mais positivas a retirar destas eleições. Mais seis câmaras conquistadas e uma votação que supera as do Bloco e do CDS juntos, provam que as listas de cidadãos se tornaram um caso sério na política local. Sem máquina partidária, vários foram os candidatos independentes que se apresentaram a estas eleições, alcançando bons resultados, num claro atestado de desconfiança e de cansaço para com os partidos e para o que estes representam. Dever-se-ia retirar as devidas ilações de tudo isto.