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Narrativa Diária

Não escrever um romance na «horizontal», com a narrativa de peripécias que entretêm. Escrevê-lo na «vertical», com a vivência intensa do que se sente e perturba. Vergílio Ferreira

Narrativa Diária

Sab | 16.11.13

Mais gregos que celtas

narrativadiaria

A Irlanda concluirá o seu programa de assistência financeira no próximo mês e já fez saber que iria regressar aos mercados, de forma autónoma, não necessitando de qualquer ajuda financeira. A Irlanda partiu para um pedido de resgate, assente em pressupostos diferentes de Portugal. O cerne do problema irlandês residia no sistema financeiro, enquanto o nosso, começando na economia nacional extremamente débil, rapidamente alastrou-se para o sistema financeiro. A economia irlandesa goza de uma série de especificidades diferentes da economia nacional. Os bancos irlandeses cresceram em demasia, ganhando uma dimensão brutal, superior à economia do próprio país. Quando a crise de 2008 explodiu, a banca irlandesa rebentou também, abatendo-se como «um castelo de cartas». Para evitar uma corrida desenfreada aos bancos, o Estado irlandês foi obrigado a nacionalizar a banca e a assumir suas dívidas astronómicas. A dívida do Estado multiplicou-se, não porque o Estado gastasse demais, mas porque teve de assumir a dívida dos bancos. A credibilidade do Estado irlandês nunca esteve em causa, e a austeridade só foi necessária para tranquilizar os investidores. O facto de a Irlanda conseguir sair bem de todo este processo, é uma vitória do próprio país. O governo geriu bem toda esta crise e conseguiu recuperar a credibilidade perdida com as graves crises bancárias irlandesas, a partir de 2008. Apesar de a Irlanda não ter os problemas do seu sistema financeiro resolvidos e manter um défice orçamental alto, acima do português, tem – e isso foi essencial – taxas de juro, pouco acima dos 3%, sendo que Portugal tem pouco abaixo dos 6%.

 O facto de a Irlanda conseguir libertar-se das amarras financeiras da europa não seria uma má notícia para Portugal, uma vez que até prova que um programa de resgate pode resultar, se não deixasse Portugal isolado – ou pior ainda, tendo a Grécia como único parceiro – e não aumentasse a ansiedade e incerteza nacionais, gerando um impacto psicológico em Portugal. Portugal estava interessado em saber o desfecho do caso irlandês, para então começar a entender o que é que esse programa poderia originar e se o modelo poderia ser replicado a nível nacional. A Irlanda seria o primeiro país a testar o modelo pós-troika. Já não vai ser. Portugal perde assim a sua referência principal e a força negocial, tendo apenas como termo de comparação a situação grega. Paulo Portas chegou mesmo a dizer que no que diz respeito a uma ajuda cautelar para o Portugal no pós-troika, «antes celta do que grego». As taxas de juro que Portugal está a conseguir no mercado ainda não lhe permitem dispensar ajuda como fez a Irlanda, o que significa que, se o cenário não melhorar, quando o programa de assistência terminar, é expectável Portugal precise de pedir novo auxílio financeiro. Ficaremos, nesse caso, mais gregos que celtas.