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Narrativa Diária

Não escrever um romance na «horizontal», com a narrativa de peripécias que entretêm. Escrevê-lo na «vertical», com a vivência intensa do que se sente e perturba. Vergílio Ferreira

Narrativa Diária

Qua | 23.10.19

A deputada do Livre

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Fiquei contente por o Livre ter elegido um deputado. Admiro o Rui Tavares, a sua inteligência, honestidade intelectual, as suas ideias sobre a União Europeia, julgo, porém, que o Livre já não tem nada a ver com ele. Lamento que não se tenha juntado ao partido socialista com o qual penso que tenha mais pontos convergentes do que divergentes.

 

Depois, parece-me que a escolha da deputada para representar o Livre no Parlamento foi um erro de casting. Joacine tem vindo a afastar-se muito das ideias do Livre, adotando um discurso agressivo e radical. O Livre mudou o seu ADN, passou a ser um partido de extrema-esquerda, cheio de si, com uma superioridade moral irritante.

 

Até aqui nunca tinha ouvido falar de Joacine Katar Moreira que se apresentou como o rosto do partido para estas eleições. Nasceu na Guiné-Bissau há 37 anos e desde os 8 que mora em Portugal. Licenciada em História Moderna e Contemporânea, com um mestrado em Estudos do Desenvolvimento e doutorada em Estudos Africanos, é negra, com bonitas feições, mas com uma gaguez severa que se acentua em momentos de maior pressão, o que foi eficaz em temos de mise en céne e de visibilidade no espaço público para a sua eleição. Não foi por acaso que Joacine foi eleita. Rui Tavares que tantas vezes se candidatou nunca conseguiu ser eleito.

 

Não discuto as suas capacidades intelectuais e o direito que lhe assiste em dar «voz» pelo seu partido, penso, contudo, que é aflitivo ver alguém querer transmitir uma mensagem e não o conseguir fazer por força de um bloqueio de voz, por maior que seja a vontade e o esforço para a atenuar.

 

Diz Joacine que apenas gagueja a falar e não a pensar. Não duvido, mas para um parlamentar a voz e a palavra são as suas maiores ferramentas. É penoso tentar explanar uma ideia e repetir a mesma sílaba durante longos segundos. É incómodo para a própria tentar fazer um discurso e  tropeçar nas palavras, mas também para os ouvintes porque ficam constrangidos e não conseguem acompanhar o raciocínio da oradora, apenas ansiando para que consiga terminar a frase.

 

Julgo que o Livre não devia sujeitar Joacine Moreira a essas situações. Pouco avisado terá sido lança-la neste desafio, como única deputada dum partido, onde os debates, os comentários, as interrupções acontecem amiúde.

 

Depois, que dizer da manifestação de solidariedade com Joacine Katar Moreira em frente à Assembleia da República, contra o racismo e a homofobia? Simplesmente patética!